Conferência sobre abandono dos combustíveis fósseis quer se distanciar de modelo da ONU
SANTA MARTA, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - "Não queríamos entrar na mesma bicicleta ergométrica das COPs [conferências de clima da ONU]", afirmou Irene Vélez-Torres, ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, durante a abertura, na tarde desta sexta-feira (24), da primeira conferência organizada para discutir o abandono dos combustíveis fósseis.
Diferentemente das COPs, o encontro que ocorre em Santa Marta, um forte destino turístico do Caribe colombiano --além de um grande porto para exportação de carvão-- não está sob o guarda-chuva da ONU (Organização das Nações Unidas). Assim, não se pode esperar da reunião atual um resultado vinculante e na mesma linha das decisões que se constroem com necessidade de concordância de todos os membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.
Além da clara dificuldade de encontrar consenso entre mais de uma centena de países defendendo seus próprios interesses, as COPs têm sido criticadas por uma intrusão crescente de interessados na continuidade da exploração de combustíveis fósseis --resultando, sem margem de dúvida, na piora do aquecimento global--, o que acaba frequentemente travando discussões e levando a decisões insuficientes e insatisfatórias dada a gravidade do momento climático.
Daí a metáfora da "bicicleta ergométrica das COPs", onde estão presentes "atores que vão justamente contra a discussão central, que é a superação dos combustíveis fósseis", disse a ministra.
Desse modo, a conferência de Santa Marta fez questão de chamar nações que demonstrem interesse e intenção de agir sobre o assunto. Entre as nações não convidadas estão grandes poluidores mundiais, como EUA, China e Rússia. No caso da China, porém, houve um convite para uma grande empresa energética do setor privado, disse Irene.
São esperados no evento de alto escalão, que acontece na próxima terça (28) e quarta-feira (29), representantes de 56 países, entre os quais o Brasil, que sediou a conferência climática mais recente (COP30), e a Austrália, um país forte em combustíveis fósseis e copresidente -junto com a Turquia- do próximo evento (COP31).
Pouco mais de 30% dos outros países esperados são europeus; 20%, da América Latina e Caribe; 16%, da África; 15%, da Oceania; e 12%, da Ásia.
Há ainda uma participação expressiva de ONGs e representantes da sociedade civil, de povos originários e agências da ONU.
Contexto da conferência é desafiador
Apesar de ter a ambição de se distanciar um pouco das travas presentes em COPs, não há ingenuidade sobre o momento vivido no mundo. Governos que ignoram a urgência climática -como tem sido os EUA- e os conflitos mundiais -que têm impactado diretamente a questão do petróleo- têm jogado para longe a discussão da necessidade de abandono dos combustíveis fósseis.
"Não somos ingênuos, estamos em um momento muito particular que se acelerou após o conflito no Oriente Médio", disse Irene. "Isso também gera tensões e novos desafios nas conversas que vamos ter durante esta conferência, mas justamente por isso sabemos que estamos em um momento histórico e é nossa responsabilidade como governos e também como povos do mundo estar à altura dos desafios que esse contexto nos exige."
A ministra também citou a complexidade do tema como um todo e afirmou não ser realista esperar que a conferência de Santa Marta vá, de modo isolado, pôr fim a tudo que envolve o abandono dos combustíveis fósseis.
"Estamos há mais de 30 anos em cúpulas de mudanças climáticas e não conseguimos resolver o problema", afirma Irene, referindo-se às COPs.
OS RESULTADOS ESPERADOS DA CONFERÊNCIA DE SANTA MARTA
Segundo a ministra colombiana, deve haver pelo menos três frutos da conferência atual.
Um deles, será apresentado já nesta sexta-feira: um painel científico para transição energética com alguns dos principais pesquisadores climáticos do mundo.
O segundo será um relatório, contando com contribuições de países e da sociedade civil, apontando o chamado "mapa do caminho" para o abandono os combustíveis fósseis.
Irene fez uma crítica a declarações que países costumam fazer em COPs. "Já tivemos suficientes. E sabemos que em muitos casos são papéis, palavras ao vento."
Apesar disso, o terceiro produto esperado na conferência de Santa Marta é uma forma de chamada para a continuidade da discussão em conferências futuras e para "manter o fogo vivo", diz Irene. "O que resolvemos agora é a declaração das nossas vontades, que acredito ser mais importante, sobretudo em um contexto de tanta pressão geopolítica", afirma a ministra.