Painel internacional na USP quer influenciar fim dos combustíveis fósseis

Por PHILLIPPE WATANABE

SANTA MARTA, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - O abandono dos combustíveis fósseis no espaço de tempo necessário para se evitar tragédias climáticas ainda maiores necessita de um empurrão científico. Pensando nisso, um painel internacional de especialistas, liderado pela USP (Universidade de São Paulo), foi lançado na conferência que ocorre desde sexta-feira (24) em Santa Marta, na Colômbia.

O SPGET (sigla em inglês para Painel Científico para a Transição Energética Global) é encabeçado por Gilberto Jannuzzi, pesquisador da Unicamp, Vera Songwe, copresidente do Painel de Especialistas de Alto Nível sobre Financiamento Climático, de Camarões, e Ottmar Edenhofer, diretor e economista-chefe do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, da Alemanha.

A ideia surgiu de Ana Toni, diretora-executiva da COP30 (conferência climática da ONU), durante o evento em Belém, no ano passado. Por esse motivo, a iniciativa terá o Brasil como sede.

A COP30 teve, pela primeira vez, um pavilhão de Ciência Planetária, liderado por Carlos Nobre, membro do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), e por Johan Rockström, diretor do Potsdam Institute for Climate Impact Research.

Durante a COP30, Ana Toni pediu para que Nobre e Rockström se dedicassem a montar o que agora se materializou no painel lançado na conferência para o abandono dos combustíveis fósseis.

Um grupo internacional de especialistas voltado a questões climáticas e com potencial impacto em políticas públicas pode parecer algo familiar para quem conhece um pouco o assunto. O nome IPCC -citado acima, do qual Nobre faz parte- pode vir a mente.

O painel, porém, segue um recorte bem mais restrito. Ele se concentra nas questões relacionadas a combustíveis fósseis e na transição para energia limpa.

Segundo Rockström, o painel terá um foco e visão mais imediatos, com atualizações anuais, e buscando auxiliar -a partir de conhecimento técnico científico e econômico, por exemplo- pontual e concretamente atores em caminhos para o processo de abandono dos combustíveis fósseis. Inicialmente, o projeto aparece voltado ao período de 2026 a 2035.

O painel é dividido em quatro grupos de trabalho: um focado nos caminhos para a transição propriamente dita em relação aos combustíveis fósseis; outro sobre soluções tecnológicas; outro sobre desenhos de políticas; e o último focado em finanças.

A iniciativa ainda não recebeu contato de países ou entidades subnacionais em busca de apoio. Além disso, o painel ainda procura fontes de financiamento, apesar de contar com uma verba para o período inicial de trabalho.

Agora lançado, o painel deve participar, nos próximos meses, de diversos eventos preparatórios para a COP31, que ocorrerá em Antália, na Turquia -país que copresidirá a conferência com a Austrália. Para a COP31, em novembro deste ano, o painel diz que terá seus primeiros resultados prontos para apresentação.

Irene Vélez-Torres, ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, afirmou à imprensa que é necessária uma reconexão entre políticas públicas e ciência. "Há muito lobby econômico e político que está, na verdade, desviando a lógica científica e a base da ciência na tomada de decisões, especialmente nas decisões governamentais."

Em uma carta, André Corrêa do Lago, presidente da COP30, diz esperar que o painel sirva de ponte entre a ciência produzida pelo IPCC e análises de energia feitas por agências como a AIE (Agência Internacional de Energia) e a Irena (Agência Internacional de Energia Renovável).

Na carta, Corrêa do Lago incentiva governos e instituições a ouvir e se engajar com o painel na busca pela transição energética.

"Esperamos que as conclusões do painel também enriqueçam os debates multilaterais e possíveis deliberações, inclusive no âmbito da UNFCCC, e contribuam para o ecossistema científico e de políticas públicas mais amplo que apoia rodadas sucessivas de ambição no contexto do Acordo de Paris", afirmou Corrêa do Lago. Apesar disso, vale lembrar que o painel não está sob a égide do Acordo de Paris e da UNFCCC (braço da ONU que lida com questões envolvidas em questões climáticas).

Da mesma forma, apesar de uma relação muito próxima com a UNFCCC, o IPCC também é uma entidade independente.

O potencial de influenciar e destravar o que se passa nas conferências climáticas é o pano de fundo e o propulsor do evento que ocorre em Santa Marta. A necessidade de decisões unânimes e a presença de lobby, especialmente petroleiro -que muitas vezes se concretizam em países bloqueando negociações-, nas negociações têm trazido críticas, há algum tempo, para as COPs.

"Coalition of the willing", algo como coalizão de países dispostos a contribuir, tem sido uma das expressões muito usadas em Santa Marta. A ideia é trazer para perto países que buscam e querem se colocar no processo de abandono dos combustíveis fósseis, mesmo que sejam nações produtoras de petróleo -como é o caso da própria Colômbia.

Por esse motivo, mesmo países importantes na poluição relacionada a combustíveis fósseis não foram convidados a participar, como EUA, China e Rússia, para citar alguns. Ao todo, a conferência espera receber representantes de 56 nações.