Conpresp vota destombamento da Escola Panamericana nesta segunda (27); entenda
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) retoma na tarde desta segunda-feira (27) a votação do recurso à continuidade do tombamento da antiga Escola Panamericana de Arte e Design. Conhecido pelo estilo "high-tech", o imóvel fica localizado em Higienópolis, área nobre do centro de São Paulo.
Como mostrou a Folha de S.Paulo, o caso opõe os herdeiros de Enrique Lipszyc, fundador da instituição, e Siegbert Zanettini, 91, arquiteto que projetou o prédio. O pedido de destombamento foi aberto pela Keeva Investimentos e Participações, empresa da família de Lipszyc, morto em 2020.
A deliberação será retomada pelo Conpresp após pedido de vista do presidente do conselho, o procurador Ricardo Ferrari, em fevereiro. Naquela reunião, sete dos nove conselheiros se manifestaram, e houve a ausência de representante da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil).
O voto de Ferrari pode definir a decisão, que está em 4 a 3 pela reversão do tombamento. Há dois anos, ele foi favorável ao reconhecimento como patrimônio cultural.
O tombamento ocorreu a partir de pedido da Appit (Associação de Proprietários, Protetores e Usuários de Imóveis Tombados), em 2021, em meio à iminência da demolição de outra unidade da escola, na rua Groenlândia, nos Jardins. Esse imóvel foi demolido antes da aprovação da abertura do estudo de preservação, contudo, dando lugar a um condomínio de apartamentos de alto padrão.
Até o momento, não há previsão de derrubada do prédio de Higienópolis. À Folha de S.Paulo o advogado que representa a Keeva no processo, Luiz Carlos Andrezani, afirmou que "ninguém vai demolir coisa nenhuma".
Ele considera que a deliberação se tornou uma "discussão ideológica", porque não haveria argumentos técnicos para o reconhecimento como patrimônio cultural. Ao Conpresp, também chegou a chamar o tombamento de "uma restrição permanente ao direito de propriedade".
O imóvel passou a ser utilizado pela ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) neste ano. Em nota, o grupo disse reconhecer a "importância simbólica e cultural" do espaço para a cidade e a comunidade do entorno e destacou que não tem ingerência sobre o destino do imóvel, por não ser o dono.
Caso o tombamento seja mantido, será necessário o aval de órgãos de patrimônio para alterações significativas no prédio, como reformas, demolições e expansões. Não se trata, contudo, de uma desapropriação.
No dia 11, apoiadores do tombamento promoveram um ato em frente à escola, com a presença de Zanettini. O arquiteto chegou a declarar, em vídeo publicado pelo coletivo Pró-Higienópolis, que a edificação pode virar "mais massa construída, sem nenhum critério" caso o conselho aceite o recurso da Keeva.
O núcleo paulista do Docomomo ?entidade internacional de preservação da arquitetura moderna? emitiu uma carta pelo tombamento. Descreveu o espaço como um "capítulo singular da arquitetura brasileira do período ao reinterpretar, em contexto local, debates internacionais sobre tecnologia, industrialização, cultura pop e expressão arquitetônica".
A decisão ocorre em meio a uma nova onda de verticalização em Higienópolis, impulsionada pela Lei de Zoneamento, que incentiva a construção de apartamentos perto de estações de metrô e corredores de ônibus. Somente a uma quadra da escola, três empreendimentos estão em obras.
Em resposta, uma parte da vizinhança e outros apoiadores têm se mobilizado. Em 2025, foram realizados atos contrários à implantação de duas torres junto ao casarão do antigo Dops (Departamento de Ordem Política e Social), na rua Piauí.
ARQUITETURA EM AÇO
O prédio da Panamericana é descrito como um exemplar de arquitetura em aço e de estética "high-tech". Entre as principais referências internacionais dessa proposta estão o Centro Pompidou e a pirâmide do Museu do Louvre, respectivamente dos anos 1970 e 1980, em Paris.
A escola de Higienópolis foi inaugurada em 1998, em meio às celebrações dos 25 anos da Panamericana. Anos antes, Enrique Lipszyc contou à Folha de S.Paulo que buscava "um ambicioso projeto estético" para as suas unidades.
O edifício tem quatro andares, caracterizado pelas paredes de vidro, a estrutura metálica exposta na parte interna e na fachada, as cores primárias (especialmente vermelho e amarelo), as instalações hidráulicas e elétricas aparentes e os "túneis" cilíndricos de acesso.
A decisão que deu aval ao tombamento definitivo havia considerado o prédio como uma obra pós-moderna e importante para a arquitetura paulistana do fim do século 20.
O autor do projeto foi professor da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) por cerca de 40 anos, considerado uma referência na arquitetura de estruturas de aço como a da Panamericana. É também conhecido por obras de hospitais, como unidades da rede Albert Einstein e São Camilo.
O QUE FOI DISCUTIDO NO CONPRESP EM FEVEREIRO
Na reunião de 23 de fevereiro, o relator do processo e conselheiro pelo Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia), Wilson Levy, votou por reverter o tombamento. Ele mencionou especialmente o parecer técnico do arquiteto Pedro Taddei, de 2022, contratado pela empresa da família Lipszyc.
"O imóvel não possui características únicas para a linguagem de exoestruturas de aço, tampouco é um exemplar primitivo ou mesmo inaugural. Nem simboliza uma solução projetual rara", afirmou. Destacou ainda que há outra obra de Zanettini tombada na cidade: o Hospital Maternidade-Escola Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte.
Na mesma reunião, o representante do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil), Silvio Oksman, defendeu a manutenção do tombamento, destacando o que chamou de um projeto "corajoso" e de valor fundamental. "Talvez seja o maior símbolo da arquitetura pós-moderna de São Paulo", ressaltou.
Segundo levantamento do Departamento do Patrimônio Histórico da Prefeitura de 2021, o prédio está em bom estado de conservação e "pouco alterado", em relação ao original