Morre Silvano Raia, pioneiro em transplante de fígado na América Latina, aos 95 anos
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Não é difícil de entender a fascinação que Silvano Raia, médico e professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, teve por um dos vários órgãos fundamentais do corpo humano. Não era o cérebro, sede da inteligência e das emoções, nem o coração, a "bomba" pulsante de sangue que faz o sistema todo funcionar 24 horas, sete dias por semana.
O órgão humano cujo funcionamento, entendimento e cura mereceu a dedicação da vida deste médico foi o relativamente obscuro fígado. Ele participa da desintoxicação de substâncias nocivas de bebidas alcoólicas, do café, de alimentos gordurosos. Faz síntese de proteínas e produz substâncias importantes para a digestão. É uma verdadeira usina de reações bioquímicas, fundamentais para manter a vida.
Silvano Raia morreu na manhã desta terça-feira (28), aos 95 anos. A causa da morte não foi divulgada.
Silvano Mário Atílio Raia nasceu em São Paulo em 1º de setembro de 1930 e estudou na Faculdade de Medicina da USP, formando-se em 1956.
Como se tornaria marca da geração de jovens pioneiros da medicina científica brasileira na década de 1960, Raia foi fazer pós-graduação no exterior. Fez doutorado pela Universidade de Londres, defendido em 1967, e continuou a carreira com a livre-docência na Faculdade de Medicina da USP.
Raia foi professor titular do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina e responsável pela Unidade de Fígado do Hospital das Clínicas, o centro de excelência e um dos principais hospitais do país, ligado à universidade.
Foi no HC que Raia realizou o primeiro transplante de fígado bem-sucedido na América Latina, em 1985. A operação exigiu a participação de 20 médicos e durou 23 horas, deixando clara a dificuldade desse procedimento cirúrgico.
Também foi o primeiro no mundo a realizar o mesmo transplante intervivos, em 1988, descrito em seminal artigo publicado em uma das mais prestigiosas revistas médicas do planeta, a britânica "The Lancet". O trabalho, intitulado "Liver Transplantation from Live Donors", foi extensivamente citado na literatura médica internacional.
No começo da década de 1960, os médicos já especulavam sobre a possibilidade de transplantar o fígado e iniciaram os primeiros experimentos. A equipe de Thomas Starzl, em Denver (EUA), experimentava a técnica desde 1963, mas o primeiro transplante razoavelmente bem-sucedido só ocorreu em 1967, quando o paciente sobreviveu mais de um ano.
Mesmo assim, na década seguinte, a taxa de sobrevivência de mais de um ano era de meros 25% dos transplantados (hoje está entre 80% e 85% em vários países). O transplante de fígado é atualmente o tratamento mais eficiente para pacientes com doença hepática crônica terminal.
Um marco na história da medicina ligada a esse órgão no Brasil foi a realização, na Faculdade de Medicina da USP, em 1968, com a presença de pesquisadores de vários países. Silvano Raia aproveitou o evento para fundar a Sociedade Latinoamericana de Hepatologia (depois chamada de Asociación Latinoamericana para el Estudio del Hígado).
No ano seguinte, foi realizado o 1º Congresso Brasileiro de Hepatologia, em Caxambu (MG). Raia fez então uma conferência muito admirada ?e como se viu depois, profética? sobre o potencial do transplante de fígado. Foi então criada a Sociedade Brasileira de Hepatologia, e o médico foi um dos seus fundadores.
Raia não era apenas um médico e pesquisador dedicado, mas também devotou energia à vida pública, dirigindo instituições governamentais e privadas.
Entre 1975 e 2002, ele chefiou a Unidade de Fígado do HCFM-USP. Dirigiu a Faculdade de Medicina da USP entre 1982 e 1986; foi secretário da Saúde da Prefeitura de São Paulo entre 1993 e 1995 (gestão de Paulo Maluf, amigo pessoal desde a adolescência) e foi chefe da Unidade de Transplante do Hospital Israelita Albert Einstein de 2002 a 2006.
O médico brasileiro também pertenceu a várias associações profissionais internacionais, como The American College of Surgeons (EUA) e The Royal Society of Medicine (Reino Unido). No final de março deste ano, ele liderou a iniciativa da USP que criou o primeiro porco clonado para xenotransplante da América Latina.
"Mais do que sua excelência profissional, deixa como marca sua generosidade, seu olhar humano e sua incansável busca pelo avanço da ciência. Até seus últimos dias, manteve-se ativo, dedicado ao desenvolvimento do xenotransplante no Brasil, sempre movido pelo propósito de ampliar possibilidades e transformar vidas", diz a nota da família.
Deixa as filhas Paula Raia e Ana Raia e netos.
O velório público será realizado nesta terça (28) no Teatro da Faculdade de Medicina da USP, das 15h às 20h.