Insegurança e soberania energéticas marcam abertura de conferência sobre combustíveis fósseis

Por PHILLIPPE WATANABE

SANTA MARTA, COLÔMBIA, (FOLHAPRESS) - A plenária de abertura da conferência Taff (sigla em inglês para "Transitioning away from fossil fuels", algo como transição para longe dos combustíveis fósseis), nesta terça-feira (28), foi marcada por declarações sobre dependência de petróleo, soberania energética e segurança -além de agradecimentos ao Brasil pelo papel recente na discussão.

A plenária marca o início, de fato, do alto nível da conferência, com presença de ministros e outras autoridades de governos dos 56 países esperados no evento, que ocorre desde a última sexta-feira (24), em Santa Marta, na Colômbia. Os Países Baixos copresidem o evento.

A representante do Brasil na conferência em Santa Marta, Ana Toni, relembrou partes do discurso do presidente Lula (PT) durante a COP30, em Belém, no Pará, e afirmou que a guerra no Irã mostrou até para céticos que o abandono dos combustíveis fósseis é vital não somente para a questão climática, mas para a segurança econômica e para a paz.

O conflito armado tem causado forte flutuação de preço e riscos no abastecimento de países.

Jules Kortenhorst, copresidente da Comissão de Transição Energética, coalizão global de líderes de todo o setor energético, disse que o mundo é viciado em petróleo e esquece que se trata de uma forma de energia ineficiente. "O que vimos nos últimos dois meses é que os combustíveis fósseis não só ineficientes, mas inerentemente instáveis e inseguros", disse. "A maioria dos países depende de combustíveis fósseis que eles não controlam, preços de mercado que eles não influenciam e, portanto, vulneráveis a choques que eles não podem prevenir."

Na mesma linha, Wopke Hoekstra, comissário para o Clima, Neutralidade Carbônica e Crescimento Limpo da União Europeia, afirmou que a Europa já tinha a ação climática como motivo para abandonar os combustíveis fósseis, mas que agora tem também razões econômicas e de independência. "A crise energética é uma realidade. Na Europa, estamos perdendo meio bilhão de euros por dia que essa guerra [no Irã] continua."

A crise energética gerada pela guerra no Irã também foi lembrada por Rachel Kyte, representante especial para o clima do Reino Unido. "Seria irresponsável ignorar a segunda crise dos combustíveis fósseis em cinco anos. Uma crise que prova, de uma vez por todas, que a instabilidade e a insegurança que vêm da nossa dependência dos combustíveis fósseis precisam acabar."

Brasil elogiado e pedidos por tratado vinculante

Stientje van Veldhoven, ministra de Clima e Desenvolvimento Verde dos Países Baixos, uma das primeiras a falar -logo após a abertura de Irene Vélez-Torres, ministra de Meio Ambiente da Colômbia- agradeceu ao Brasil, especialmente a Ana Toni, diretora-executiva da COP30.

"Pela sua perseverança em buscar progresso. Nosso objetivo é apoiar seus esforços", disse Veldhoven, em menção à Ana Toni, que está na plenária.

Vélez-Torres falou que a conferência em Santa Marta é a expressão da contradição dos tempos atuais, com belezas naturais e, ao mesmo tempo, local de um relevante porto exportador de carvão, uma fonte de energia suja. A Colômbia, como um todo, é consideravelmente dependente de combustíveis fósseis.

A ministra colombiana afirmou que deveria se celebrar pelos países presentes na conferência, e não se distrair pelos que não estão. A fala está relacionada a uma questão que se repete em Santa Marta: a ausência no evento dos principais países poluidores no mundo, EUA e China, além de outro relevante ator petroleiro, a Rússia.

A ideia de um tratado vinculante pelo fim dos combustíveis fósseis foi mencionada em mais de um discurso na plenária. É uma ideia que tem sido ouvida por Santa Marta, partindo de alguns membros da sociedade civil.

Esse tipo de tratado é um resultado possível em COPs (as conferências da ONU sobre mudanças climáticas) e se mostra uma realidade aparentemente distante da Taff. Em diversos momentos do encontro em Santa Marta, a ministra ambiental dos Países Baixos deixou claro que os países não estão no evento para negociar, mas para discutir soluções.

A primeira a mencionar a ideia -que apareceu em, pelo menos, mais uma vez-- em discurso na plenária foi Yuvelis Morales, 25, ambientalista que recebeu, na última semana, o prêmio ambiental Goldman. "Que dessa conferência saia um instrumento vinculante que assegura às comunidades e aos territórios a fazer uma transição energética justa, territorial e comunitária. Por isso convido vocês que essa ferramenta se consolide em um tratado sobre combustíveis fósseis", disse. "Hoje convoco vocês não só a falar e dialogar, mas a gerar ações concretas."

Discurso brasileiro

Além da questão da insegurança enérgica, Ana Toni também relembrou de como o evento em Santa Marta, de certa forma, teve um dedo de Brasil.

"Ele [Lula] disse: 'A Terra não suporta mais um modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis. O mundo precisa de um mapa do caminho claro para acabar com a dependência dos combustíveis fósseis", afirmou a secretária-executiva da COP30. "E a semente que a ministra Marina Silva [agora ex-ministra] e o presidente Lula plantaram já resultou em frutos maravilhosos."

A nova conferência foi anunciada ao fim da COP30, que teve o seu encerramento marcado por um forte posicionamento colombiano pela inclusão de combustíveis fósseis na declaração final do encontro -o que não ocorreu.

A Taff também aparece em busca da construção de bases para a realização dos chamados "mapas do caminho", que buscam apontar os movimentos e estratégias necessários para o abandono dos combustíveis fósseis.

Ana Toni, por fim, afirmou que a ideia de Marina e Lula resultou em discussões na própria COP30 e na iniciativa liderada por André Corrêa do Lago, presidente da conferência em Belém, de apresentar um mapa do caminho. "E agora estamos aqui", disse Ana Toni.