Nutricionistas ficam proibidos de usar IA para simular resultados e imagens
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O CFN (Conselho Federal de Nutrição) proibiu nutricionistas de usar inteligência artificial generativa para simular imagens de pessoas reais ou resultados clínicos. A vedação consta do novo Código de Ética e Conduta da categoria, divulgado no último sábado (25), e entra em vigor em até 90 dias após publicação.
O documento atualiza as regras da profissão para responder a transformações tecnológicas, sociais e científicas que impactam o trabalho dos nutricionistas.
Segundo Manuela Dolinsky, presidente do CFN, a necessidade de regulamentação partiu de um problema que o conselho já observava na prática. "A gente vê nas mídias sociais o uso de IA generativa para simular imagens, para interpretar exames laboratoriais, não só por nutricionistas, mas também por leigos", diz. "Isso não estava previsto no nosso Código de Ética, mas agora esse uso inadequado será coibido."
A principal preocupação do CFN é evitar que esses conteúdos induzam as pessoas ao erro. "Imagine colocar na frente do paciente um resultado que ele nunca vai conseguir alcançar", afirma Dolinsky.
Segundo ela, cada corpo responde de forma diferente a um planejamento dietético, e variáveis como genética e fatores ambientais tornam impossível prever resultados.
"Isso faz mal. É prejudicial e pode impactar negativamente a saúde mental e o próprio tratamento", diz ela sobre as imagens fabricadas. Pelo mesmo motivo, o Código de Ética manteve o veto a fotos de antes e depois --agora estendido a imagens geradas por inteligência artificial-- e a promessas de resultado para dietas, protocolos ou produtos.
O documento também proíbe que sistemas automatizados substituam o nutricionista na interação direta com o paciente. O conselho já recebeu denúncias de aplicativos que oferecem consultas sem nenhuma participação humana.
"A gente notifica essas empresas e pode chegar até a uma ação judicial", diz Dolinsky. Segundo ela, há riscos técnicos sérios nesse modelo, uma vez que a IA trabalha com bases de dados antigas, de origem incerta, e pode até criar falsas referências científicas. "A gente vê chats de IA criando referências que não existem. Isso é muito grave."
De acordo com a nova regulamentação, o profissional precisa deixar claro o uso da ferramenta sempre que utilizar materiais produzidos com apoio de IA ou automação.
Outra adição ao código diz respeito à relação com marcas. "A gente vive em um mundo rodeado pela indústria de alimentos e com marketing muito forte e abusivo", diz Dolinsky.
A regra geral proíbe associar a imagem profissional a alimentos, suplementos ou laboratórios. Há exceções quando o nutricionista é responsável técnico da empresa ou sócio, mas sem vínculo com prescrição individual.
O descumprimento das regras pode resultar em advertência, suspensão por até três anos ou cancelamento do registro no conselho.