'Queremos reconstruir nossas vidas', diz egípcio retido em aeroporto de SP

Por Folhapress

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O egípcio Abdallah Montaser, 31, que permanece há 20 dias retido no Aeroporto Internacional de Guarulhos com a mulher grávida e os dois filhos pequenos, gravou vídeo hoje pedindo às autoridades brasileiras que deixem a família entrar no Brasil.

Abdallah afirma que mulher grávida de oito meses foi diagnosticada com infecção urinária. Segundo ele, a família enfrenta desgaste emocional e dificuldades para cuidar das crianças, de 2 e 5 anos.

Jovem pede a entrada de pelo menos mulher e os filhos. A família afirma ter saído de uma região afetada pela guerra entre Estados Unidos e Irã e diz buscar refúgio e uma oportunidade de reconstruir a vida em segurança no Brasil.

"Se houver algum problema comigo, estou disposto a ficar aqui. Mas peço que a minha esposa, que está grávida, e que os meus filho tenham a permissão. Viemos de uma região afetada pela guerra entre os Estados Unidos e o Irã. Nós só queríamos de uma oportunidade para reconstruir as nossas vidas em segurança. E estamos pedindo refúgio. Esperamos que nosso pedido seja atendido em breve", diz Abdallah, em vídeo.

Família é do Egito, foi para Barhrein e agora pede refúgio humanitário ao Brasil. A família foi classificada pela Polícia Federal como "perigosos" e impedida de entrar no Brasil, segundo informou o advogado Willian Fernandes em contato com a reportagem.

Situação burocrática se iniciou no dia 8 de abril. Desde então, o casal e as crianças seguem aguardando a aprovação do pedido de refúgio, com a permanência ainda indefinida.

"Eles estão pedindo refúgio humanitário, portanto, o reconhecimento de que eles não têm o desejo de voltar ao país deles e querem o acolhimento do Brasil. Eles foram classificados como perigosos. Essa é uma classificação feita pela Polícia Federal", afirmou o advogado Fernandes.

Defesa solicitou urgência na análise do pedido de refúgio ao governo federal. Além disso, instituições e entidades da sociedade civil que atuam na proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade foram acionadas.

"A Constituição brasileira e os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil não permitem que situações como essa sejam tratadas apenas sob a ótica restritiva do controle migratório. Há deveres claros de proteção, especialmente quando estamos diante de pessoas em condição de vulnerabilidade. A atuação do Estado brasileiro precisa refletir seus compromissos com os direitos humanos. O acolhimento, nesses casos, não é uma opção política, é uma exigência jurídica e civilizatória", declara ainda Fernandes.

Abdallah possui histórico de trânsito internacional regular. Segundo a defesa, o rapaz já teria recebido a concessão de outros vistos por diferentes países, inclusive com rigorosos critérios migratórios.

MULHER GRÁVIDA TEVE ATENDIMENTO NEGADO, DIZ DEFESA

Mulher está com oito meses de gravidez e sofre de diabetes gestacional. Segundo o advogado, ela sentiu fortes dores. A família solicitou atendimento médico, mas, de acordo com o casal, o pedido foi negado. A esposa de Abdalhah não teve o nome divulgado.

Crianças também têm intolerância à lactose e precisam de alimentação especial. "Estamos diante de um caso que exige uma resposta humanitária imediata. Não se trata apenas de um debate burocrático sobre ingresso no território nacional, mas de uma situação concreta que envolve vida, saúde e dignidade humana", disse Fernandes, advogado que acompanha o caso da família.

"Há uma gestante na 34ª semana, com quadro clínico que exige acompanhamento constante, além de crianças em condição de vulnerabilidade, inclusive com restrições alimentares que não estão sendo atendidas. A manutenção dessa situação por tantos dias, sem uma solução efetiva, é algo que precisa ser revisto com urgência", diz Fernandes.

OUTRO LADO

A reportagem entrou em contato com Polícia Federal, mas sem retorno. A reportagem também solicitou posicionamento a Gru Airport, concessionária que administra o Aeroporto Internacional de Guarulhos. Caso haja resposta, o texto será atualizado.

Itamaraty pediu para encaminhar demanda à PF. "Sugere-se encaminhar a consulta à Polícia Federal, sendo este o órgão responsável pelo controle migratório de entrada em território brasileiro."

LEIA APELO DE FAMÍLIA EGÍPCIA NA ÍNTEGRA

"Hoje completamos 20 dias na área restrita do aeroporto. Durante esse período, minha esposa, que está grávida de 35 semanas, foi diagnosticada com infecção urinária.

Estamos com duas crianças pequenas, de 2 e 5 anos, que precisam de cuidados, e estamos emocionalmente abalados. Meu filho caçula, aliás, completa dois anos aqui dentro do aeroporto.

Temos um visto de turista válido para entrar no Brasil, mas ainda estamos sendo impedidos de entrar no país.

Se houver algum problema comigo, estou disposto a ficar aqui. Mas peço que minha esposa, que está grávida, e meus filhos tenham a permissão.

Viemos de uma região afetada pela guerra entre os Estados Unidos e o Irã. Só queríamos uma oportunidade para reconstruir nossas vidas em segurança. Estamos pedindo refúgio e esperamos que nosso pedido seja atendido em breve."