Nova lei do Reino Unido que proíbe cigarros para jovens não vale para vapes

Por LAIZ MENEZES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os parlamentares britânicos aprovaram neste mês um projeto de lei que proíbe a compra vitalícia de cigarros por pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009. A medida, porém, não se estende aos cigarros eletrônicos (vapes).

No caso dos vapes, permanecem válidas as regras já existentes. A legislação mantém a proibição da venda de produtos de vaporização e nicotina para menores de 18 anos, além de restrições à publicidade, à embalagem, aos sabores e ao uso desses dispositivos em espaços públicos.

No Reino Unido, cigarros eletrônicos e líquidos com nicotina são regulamentados. A legislação também impõe limites técnicos aos dispositivos, como tanques de até 2 ml, frascos de líquido com nicotina de até 10 ml e concentração máxima de 20 mg/ml.

Como mostrou a Folha de S. Paulo no ano passado, o Reino Unido incorporou os cigarros eletrônicos em sua estratégia de saúde pública para reduzir o tabagismo. O sistema de saúde britânico (NHS) incentiva o uso dos vapes como ferramenta para parar de fumar, com campanhas e programas que incluem até a distribuição de kits gratuitos, como o "Swap to Stop" (troque para parar), lançado em 2023.

A política busca apoiar quem deseja abandonar completamente o cigarro e oferece uma alternativa considerada de menor risco para quem não consegue parar. Segundo o NHS, embora ainda não existam dados completos sobre efeitos de longo prazo, os cigarros eletrônicos são considerados menos prejudiciais do que o tabaco tradicional.

Um relatório de 2022 do King?s College London, encomendado pelo governo britânico, diz que o uso de cigarros eletrônicos reduz substancialmente a exposição a substâncias tóxicas associadas ao câncer, doenças pulmonares e cardiovasculares em comparação ao cigarro tradicional.

O oncologista Helano Freitas, líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax do A.C.Camargo, afirma, porém, que não há dúvidas sobre os riscos do vape à saúde respiratória. Segundo ele, já existem casos descritos de lesão pulmonar associada ao uso dos dispositivos, embora ainda não haja comprovação definitiva de relação direta com o câncer.

"O vape é maléfico para a saúde. Ele causa inflamação e lesões nas vias aéreas, podendo levar a quadros graves, como insuficiência respiratória", explica.

O médico cita também lesões pulmonares associadas ao uso de cigarro eletrônico (Evali, na sigla em inglês). Os primeiros casos foram registrados em 2019, quando os Estados Unidos tiveram 2.807 casos da doença e 68 mortes, com o rápido crescimento do uso desses produtos no país. Com a pandemia, o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) deixou de fazer o monitoramento, segundo estudo publicado na The Lancet Respiratory Medicine.

Em 2024, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas Britânico, o Reino Unido registrou cerca de 5,3 milhões de fumantes adultos, equivalente a 10,6% da população com 18 anos ou mais -o menor nível desde o início da série histórica em 2011. Já o uso de cigarros eletrônicos atingiu cerca de 5,4 milhões de adultos (10% da população com 16 anos ou mais), ultrapassando pela primeira vez o número de fumantes tradicionais, estimados em 4,9 milhões no mesmo período.

O vaping é mais comum entre jovens de 16 a 24 anos, grupo em que 13% relatam uso, embora esse percentual tenha caído em relação ao ano anterior. No recorte por sexo, o uso de vape cresceu entre mulheres, passando de 8,5% em 2023 para 10% em 2024, enquanto entre homens houve leve queda. No geral, os dados indicam um cenário de transição no país, com queda consistente do tabagismo e crescimento do uso de cigarros eletrônicos, que já supera o cigarro convencional em número de usuários.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) afirma que os cigarros eletrônicos contêm nicotina e outras substâncias tóxicas prejudiciais tanto para usuários quanto para pessoas expostas ao aerossol. Diz ainda que os produtos não são isentos de risco e podem liberar substâncias associadas a doenças pulmonares, cardiovasculares e câncer, além de apresentarem riscos de acidentes e intoxicação, especialmente em crianças.

Sobre o uso para parar de fumar, a entidade afirma que ainda não há evidências científicas consistentes de que cigarros eletrônicos sejam eficazes na cessação do tabagismo. Por isso, recomenda estratégias já comprovadas, como aconselhamento profissional, linhas de apoio e terapias de reposição de nicotina, disponíveis no Brasil pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

Não há consenso entre especialistas sobre o impacto dos vapes na saúde. Enquanto alguns afirmam que podem ser uma opção para quem quer parar de fumar ou reduzir danos do tabagismo, outros apontam que os dispositivos não ajudam na cessação, aumentam o vício em nicotina e ainda apresentam outros riscos à saúde.

Uma revisão sistemática atualizada pela Cochrane Library em 2025 analisou mais de 100 estudos clínicos e concluiu que cigarros eletrônicos com nicotina aumentam as taxas de cessação do tabagismo em comparação a terapias de reposição de nicotina e dispositivos sem nicotina. No entanto, a revisão ressalta que ainda existem limitações de dados sobre segurança de longo prazo e que mais pesquisas são necessárias para avaliar riscos prolongados.

Para o pneumologista Marcos Tavares, do Hospital Nove de Julho, a estratégia britânica foi "bem rígida" na regulação do tabaco convencional, mas menos restritiva em relação aos vapes. "Eles atuaram forte em publicidade, marketing e acesso, principalmente para menores de 18 anos. Mas não houve uma proibição total dos dispositivos eletrônicos", explica.

O médico avalia que essa diferenciação pode representar um desafio no futuro. "O principal ponto de atenção é justamente o vape. A dependência de nicotina continua existindo, e o apelo entre adolescentes permanece", diz.