Polícia Militar faz operação para remover barreiras em Paraisópolis, em São Paulo

Por Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Polícia Militar removeu barreiras instaladas em vias de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, neste domingo (3). A ação ocorreu menos de 24 horas após reportagem da Folha de S.Paulo mostrar as mudanças na forma como a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) opera na favela, onde exerce um nível inédito de controle territorial, mais rígido e com adoção de táticas geralmente atribuídas à facção fluminense CV (Comando Vermelho).

Imagens da operação foram compartilhadas pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em uma rede social. "Não haverá lugar em São Paulo onde a polícia não entre ou onde o Estado seja impedido de atuar. A luta contra o crime organizado é diária, e não permitiremos que bandidos controlem territórios e subjuguem moradores e comerciantes", afirma ele na postagem.

"O PCC nasceu, cresceu e se espalhou pelo país durante governos que negavam a sua existência e, muitas vezes, foram coniventes", continua a postagem. "Nós não somos mais assim. Vamos lutar todos os dias para afastar esse mal, que causa medo à nossa população e atrapalha o crescimento do nosso estado."

O vídeo postado pelo governador mostra policiais utilizando marretas e serra elétrica para a remoção dos bloqueios, feitos com barras de ferro e peças de concreto. Em uma imagem, a sigla PCC aparece marcada no concreto ao lado de uma estrutura instalada no chão. Em outra imagem, uma corrente está conectada a duas barras de ferro.

Não há menção no vídeo a Paraisópolis, mas a reportagem confirmou que se referem à operação deste domingo.

A reportagem perguntou à Secretaria da Segurança Pública e à PM o endereço dos locais onde houve a ação, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto.

Outras imagens feitas, pela reportagem com um drone, mostram a restrição de acesso com o uso de gradis metálicos removíveis, semelhantes aos utilizados para controle de acesso em eventos. O registro mostra que o ponto era vigiado por ao menos dois homens.

Nesses locais, segundo moradores ouvidos pela Folha reportagem, estranhos não poderiam passar sem se identificar, tanto de dia quanto de noite.

Segundo a PM, a ação faz parte de um "plano de intensificação do policiamento" na região e deve continuar ao longo da semana. "A medida busca restabelecer o acesso em áreas da favela e dificultar a atuação de grupos criminosos", diz comunicado à imprensa.

Cerca de 60 policiais participaram da retirada de barreiras irregulares ?ao menos uma parte trazia a inscrição do PCC. A operação também envolveu drones e 15 veículos, de acordo com a polícia.

A SSP ressaltou ter feito 291 prisões, 120 capturas de procurados pela Justiça e 198 prisões em flagrante na região entre janeiro e abril deste ano. Ainda destacou a apreensão de 39 armas, cerca de 1,1 tonelada de drogas e 156 veículos.

Segundo a pasta, o secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, disse que a polícia mantém presença permanente na região e que as operações são baseadas em dados de inteligência. As ações devem continuar ao longo dos próximos dias.

Parte de uma série sobre os 20 anos dos crimes de maio, a reportagem da Folha descreveu um cenário de avanço do controle exercido pelo PCC sobre Paraisópolis, afetando a rotina dos quase 60 mil moradores. Entre as medidas, estão a implantação de taxas a comerciantes, bloqueio de vias de acesso, fiscalização das atividades das organizações sociais e até o uso forçado de lideranças em protestos orquestrados pela facção.

Além de exercer maior controle, o PCC fez de Paraisópolis o principal palco de resoluções de conflitos envolvendo seus membros, de acordo com a apuração da Folha. Um promotor afirmou à reportagem que a comunidade se tornou a última instância da facção. Os "réus" de casos graves ou integrantes que exercem função de liderança do bando são levados para a "laje", como é conhecido o local onde são realizados os "tribunais do crime". Lá, são julgados e, em caso de condenação, a pena pode ser a morte.