Sem acordo, USP declara encerradas as negociações para fim da greve estudantil

Por BRUNO LUCCA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mesmo sem acordo, a reitoria da USP (Universidade de São Paulo) diz considerar encerradas as negociações para o fim da greve estudantil, iniciada há quase três semanas.

Ao longo desse período, foram realizadas três reuniões entre membros da gestão de Aluisio Segurado e estudantes, totalizando quase 20 horas de conversas. Diante das propostas apresentadas, a instituição informa não ter mais interesse em debater as demandas.

O movimento discente tinha a expectativa de que outra mesa de negociação fosse marcada para esta semana. Membros da reitoria haviam se comprometido a isso.

O movimento dos alunos tem como pautas melhores condições de permanência, com aumento no valor das bolsas integrais de R$ 885 para cerca de R$ 1.804 (salário mínimo paulista), e investimento na qualidade dos serviços oferecidos nos restaurantes universitários.

O último encontro da reitoria com os discentes ocorreu na quinta-feira (30). Nele, foram formalizadas propostas para encerrar a greve estudantil, entre elas o reajuste dos auxílios do Programa de Apoio à Formação e Permanência Estudantil (Papfe) pelo índice IPC-FIPE.

Com a correção, o auxílio integral passaria de R$ 885 para R$ 912 por mês. A modalidade parcial com moradia subiria de R$ 330 para R$ 340.

O programa atende 17.587 estudantes de graduação e pós-graduação em situação de vulnerabilidade socioeconômica. O orçamento de 2026 para assistência estudantil -incluindo bolsas, moradia, restaurantes e saúde- é de R$ 461 milhões.

A reitoria anunciou ainda a criação de uma modalidade de bolsa voltada a alunos ingressantes em situação de vulnerabilidade.

A instituição também apresentou sugestões sobre os restaurantes universitários. Além da instauração de grupos para avaliar a qualidade deles, foi prometida a contratação de novos funcionários, a oferta de três refeições durante a semana e a implementação de café da manhã e almoço aos sábados.

Também foram colocadas ofertas sobre a criação de grupos de trabalho com ampla participação discente. Um deles seria para avaliar cotas para trans e indígenas no vestibular, demanda antiga do movimento estudantil.

Outro seria para discutir o uso de espaços pelos centros acadêmicos. Uma minuta que visava regulamentar o tema acabou cancelada pela reitoria após críticas. O texto previa obrigações como prestação de contas, critérios de transparência e regras para contratação de serviços. Também definia que a autorização para uso de espaços tem caráter precário, podendo ser revogada pela universidade mediante justificativa.

"A pressão do movimento estudantil fez a reitoria ceder e já implementar algumas propostas, demonstrando que nossa luta está surtindo efeito. Porém, deixamos claro que promessas não são suficientes, que nossas demandas ainda não foram atendidas em sua totalidade e que seguimos em greve", diz o DCE (Diretório Central dos Estudantes).

CAPILARIDADE DA GREVE

A paralisação dos estudantes da USP chegou a todas as 43 escolas, faculdades e institutos, na capital e no interior.

Isso não significa que todos os mais de 180 cursos estejam paralisados. Segundo contabilizado pela reportagem, o número chegou a 110 -ou seja, cerca de 60%-, mas já diminuiu.

O movimento teve como estopim um bônus para professores da instituição, chamado de Gace (Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas).

A medida, votada pelo Conselho Universitário em 31 de março, criou um pagamento adicional de R$ 4.500 voltado a docentes que assumirem projetos considerados estratégicos, como a oferta de disciplinas em inglês e ações de extensão.

O mecanismo, que custará R$ 238,44 milhões por ano aos cofres da instituição, também deu início a uma greve de servidores, encerrada após a reitoria oferecer o mesmo repasse à categoria.

Agora, os estudantes também tentam extrair algo da gestão de Aluisio Segurado.

Em comunicado expedido no último dia 22, a Pró-Reitoria de Graduação da USP vetou qualquer alteração no calendário acadêmico devido à greve dos estudantes.

"Não estão previstas nem autorizadas alterações no período de aulas, nas interações de matrícula, nos prazos para lançamento de notas e frequência ou no período de recuperação", diz o texto.

Da mesma forma, segue, não está autorizada a migração de atividades presenciais para o formato remoto, tampouco que sejam ministradas disciplinas por meio de gravação.