'Não tem mais escada, só tem motor e peça de avião', diz moradora de prédio atingido em Belo Horizonte

Por ARTUR BÚRIGO E ALÉXIA SOUSA

BELO HORIZONTE, MG E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - "Não tem mais escada, só tem motor e peça de avião, acabou tudo." O relato é da moradora Claudete Martins, que vive há quase 50 anos no prédio atingido por um avião de pequeno porte na tarde desta segunda-feira (4), no bairro Silveira, na região Nordeste de Belo Horizonte.

Ela estava em casa no momento da batida e descreve o cenário de destruição após o impacto da aeronave, que atingiu a caixa de escada do edifício, comprometendo o acesso aos andares.

Segundo o Corpo de Bombeiros, a ocorrência foi registrada às 12h21. O avião havia decolado às 12h16 do aeroporto da Pampulha, a cerca de seis quilômetros do local, com destino a São Paulo, quando atingiu a lateral do prédio, na rua Ilacir Pereira Lima, na altura do número 667, onde funciona o estacionamento de um supermercado.

Cinco pessoas estavam na aeronave. Duas morreram, sendo o piloto e um passageiro, e três foram resgatadas em estado grave, após ficarem presas às ferragens. As vítimas foram levadas ao Hospital de Pronto-Socorro João 23. Uma tem estado grave e outras duas, estáveis.

As causas da queda ainda são investigadas pela Polícia Civil e pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos).

Claudete contou que foi orientada pelas equipes a permanecer no apartamento enquanto os socorristas priorizavam o atendimento aos feridos.

"Eles me pediram para eu ficar lá quieta, tomando água e abrindo a janela, que iam me resgatar, mas tinham que socorrer os feridos primeiro. Me perguntaram se eu estava bem, eu disse que sim, só estava inalando muito querosene", disse.

Após o resgate das vítimas com vida, os bombeiros montaram uma escada para retirar a moradora. "Depois, o moço veio e me pediu para colocar calça e tênis. Colocaram uma escada por onde desci e três me seguraram lá embaixo."

Claudete e o marido Argeu Vitor Martins, 77, moram no apartamento 302. Ele não estava em casa no momento do acidente e soube do ocorrido por familiares.

"Eu estava num laboratório na avenida Cristiano Machado, aqui no fim da rua, quando um cunhado meu me ligou sobre o avião. Pelo que entendi, só a porta foi atingida", afirmou.

Ele disse que aguarda a liberação do prédio para saber se poderá retornar. "Agora estamos na expectativa de liberar o prédio, mas se não liberar hoje, vou para Santa Luzia, tenho uma casa lá. Não tenho medo de voltar para o prédio, não."

Apesar do susto, não houve feridos entre os moradores. Todos foram retirados em segurança com o uso de escadas, já que o prédio não possui elevador.

Segundo a Defesa Civil, o estacionamento do supermercado ao lado foi isolado preventivamente, assim como os apartamentos 301 e 302, devido a condições de insalubridade. Os moradores dessas unidades optaram por ficar em casas de parentes. A fachada lateral do prédio também permanece isolada para evitar risco de queda de materiais e preservar os destroços da aeronave para perícia.

Moradora do segundo andar, a estudante Natalia Bicalho, 23, não estava em casa no momento do acidente. "Fiquei sabendo porque uma amiga me mandou mensagem, e outras pessoas começaram a ligar querendo saber se eu estava em casa, porque moro sozinha. Foi um livramento não estar lá", afirmou.

Outra moradora, Alva Maria Miranda Lana, 67, também estava fora quando o avião atingiu o prédio. "Ainda não caiu a ficha, estou enxergando tudo em câmera lenta, nem estou conseguindo raciocinar direito", disse.

Ela mora no terceiro andar, que não foi atingido diretamente, mas afirma não saber se poderá voltar ao imóvel. "Não tenho onde ficar hoje caso não possa voltar para casa, mas nem estou preocupada, ainda não estou conseguindo pensar direito."

Segundo Alva, o prédio é antigo e abriga muitas famílias. Ela estima que mais de 80 pessoas vivam no local, incluindo bebês.

Apesar da destruição em parte da estrutura, moradores ouvidos pela reportagem afirmaram não temer retornar ao edifício.

Um policial militar que mora no prédio ajudou no primeiro atendimento às vítimas, antes da chegada das equipes de resgate.

Segundo o subsecretário de Defesa Civil de Belo Horizonte, Elcione Menezes Alves, o prédio foi interditado inicialmente por precaução. A medida se deve aos trabalhos dos bombeiros e ao vazamento de combustível.

"A parte estrutural, assim que o Corpo de Bombeiros terminar o trabalho dele, nós iremos avaliar cada apartamento e liberando de acordo com cenário de cada caso. Visualmente, a parte interditada é a parte quebrada, que é o vão de escada e de acesso a dois apartamentos. Estruturalmente, a edificação internamente não apresenta nenhuma anomalia, nenhum sinal que indique a necessidade de intervenção. Do ponto de vista estrutural, o prédio será liberado", afirmou.

O acidente ocorreu poucos minutos após a decolagem e mobilizou sete viaturas e 28 militares do Corpo de Bombeiros, com apoio das polícias Militar e Civil e da Defesa Civil.

Os corpos do piloto e do passageiro que estava no assento do copiloto foram retirados e encaminhados para o Instituto Médico-Legal. A desmobilização das equipes do Corpo de Bombeiros foi anunciada por volta de 16h50.

A remoção dos destroços da aeronave será feita após a conclusão dos trabalhos do Cenipa. Ainda não há previsão para essa etapa.