Ao fim da pré-escola, crianças mais pobres apresentam menor rendimento que as mais ricas
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao terminar a pré-escola, crianças mais pobres já apresentam rendimento significativamente inferior ao das mais ricas, aponta uma pesquisa feita pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em três estados brasileiros.
Assim, antes mesmo do início do processo de alfabetização, a desigualdade socioeconômica brasileira já prejudica parcela significativa das crianças mais pobres. Essas dificuldades ainda nos primeiros anos de vida tendem a ser ampliadas ao longo da trajetória escolar.
A conclusão é do IELS (Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância, na tradução do inglês), feito com a participação de 25 mil crianças de cinco anos de idade de nove países. No Brasil, foram coletadas informações de 2.598 crianças em 210 escolas (a maioria ligada à rede pública) em São Paulo, Ceará e Pará no ano de 2025.
As habilidades são testadas por meio de atividades interativas individuais, em formato lúdico (com jogos e histórias), aplicadas em tablets. No Brasil, o estudo foi aplicado por pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) com apoio da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, voltada para a primeira infância.
Segundo o estudo, as crianças brasileiras alcançaram uma pontuação média de 502 pontos na avaliação de literacia (que, segundo o estudo, engloba compreensão oral, vocabulário e consciência fonológica, habilidades que antecedem a alfabetização). O resultado é similar ao da média internacional, de 500 pontos.
Os dados, no entanto, mostram diferenças significativas em relação ao nível socioeconômico de suas famílias. As crianças mais pobres tiveram uma pontuação média de 487 pontos, enquanto as mais ricas alcançaram 521 pontos.
A mesma desigualdade é verificada na avaliação de numeracia, que envolve as primeiras noções de matemática desenvolvidas pelas crianças, como a habilidade de contar, comparar quantidades e até mesmo resolver pequenos problemas cotidianos. Na média, as crianças brasileiras registraram 456 pontos ?número significativamente abaixo da média internacional, de 500 pontos.
Nessa avaliação, a desigualdade brasileira é ainda mais intensa. As crianças mais pobres tiveram uma média de 429 pontos, e as mais ricas, de 484 pontos.
Os responsáveis pelo estudo indicam que outras pesquisas e evidências já apontaram como as desigualdades socioeconômicas impactam no aprendizado, sobretudo no desenvolvimento de habilidades matemáticas.
"Para gestores públicos, esse achado é central: políticas voltadas à equidade precisam atuar, de forma robusta e prioritária, antes do ensino fundamental, a partir de ações intersetoriais e interseccionais. A redução das desigualdades na primeira infância é estratégica para alterar as trajetórias, ou seja, diminuir a associação entre o perfil socioeconômico das famílias e os resultados educacionais das crianças", diz o relatório.
Outros dados do teste mostram como essas desigualdades se manifestam. Por exemplo, 80% das crianças mais ricas chegam aos cinco anos de idade sabendo identificar os numerais ou uma sequência numérica. Enquanto entre as mais pobres, apenas 68% desenvolveram essa habilidade.
Mostram também que 42% das crianças mais ricas conseguem entender o conceito de subtração ou adição com até dez objetos. Enquanto entre as mais pobres, só 26% alcançaram essa habilidade.
"O estudo mostra que as desigualdades de aprendizagem começam muito antes do ensino fundamental. Aos cinco anos, já observamos diferenças importantes associadas às condições sociais das crianças e ao seu contexto de vida", diz Tiago Bartholo, doutor em educação e um dos pesquisadores da UFRJ responsáveis pela aplicação do estudo no Brasil.
Os dados também indicam outras dimensões das desigualdades por gênero e raça e como elas seus efeitos são cumulativos. Meninos, pretos, pardos e indígenas e de menor nível socioeconômico enfrentam maiores dificuldades em diferentes domínios.
"Um dos achados mais importantes do estudo é que as desigualdades não atuam isoladamente ?elas se acumulam. Quando diferentes fatores sociais e econômicos se combinam, as diferenças de aprendizagem se ampliam de forma significativa, o que reforça a necessidade de políticas mais integradas desde a primeira infância", diz Bartholo.
Em literacia, as meninas brasileiras tiveram uma média de 508 pontos, enquanto os meninos obtiveram 497 pontos. Já em numeracia, eles têm média um pouco superior de 458 pontos ?a delas é de 454, diferença considerada pequena estatisticamente.
"As diferenças observadas em numeracia são muito pequenas ao final da educação infantil, sugerindo que as desigualdades de gênero nesse domínio tendem a se construir gradualmente ao longo da escolarização e não estão presentes de forma significativa no início da escolarização formal", diz o relatório.
Para além das experiências vividas na pré-escola, o estudo também traz informações sobre o ambiente familiar das crianças já que ele ocupa lugar central na aprendizagem e desenvolvimento de habilidades cognitivas, linguísticas e socioemocionais. A pesquisa encontrou diferenças significativas de acordo com o nível socioeconômico das famílias.
Entre as crianças mais ricas, 57% dos pais responderam que frequentemente (de 3 a 7 vezes na semana) cantam músicas ou recitam poemas e rimas infantis. Já entre as mais pobres, apenas 31% disseram fazer o mesmo com essa frequência.
Nas famílias mais ricas, 24% dos pais disseram ler livros para a criança com frequência. Entre os mais pobres, foram apenas 9%. Mesmo as práticas diárias mais simples, como conversar sobre sentimentos, são mais frequentes em famílias de alto nível socioeconômico, sendo relatado por 69% dos pais ?contra 47% dos mais pobres.