Check-in digital em hotéis é obrigatório; saiba o que muda para quem viaja

Por GUILHERME MATOS

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Ministério do Turismo tornou obrigatório que estabelecimentos hoteleiros utilizem o check-in digital. Funciona assim: em vez de pegar filas e preencher documentos no balcão dos estabelecimentos, os clientes podem usar um sistema online.

O procedimento agiliza a entrada no quarto e desafoga a recepção de hotéis, pousadas, hostels, resorts e similares. A obrigatoriedade da digitalização das informações dos hóspedes passou a valer no dia 20 de abril deste ano.

A promessa do governo é de mais agilidade e dados mais precisos sobre o turismo brasileiro. Fundadora e presidente da rede Blue Tree Hotels, Chieko Aoki, afirma que o uso do sistema diminuiu em 80% o tempo de espera dos clientes na recepção.

Mas a implementação chegou com ressalvas: o portal Gov.br concentra um histórico extenso de reclamações. Além disso, o sistema foi alvo de fake news, que precisaram ser desmentidas pela pasta.

A reportagem reuniu as principais dúvidas dos viajantes.

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O QUE É E POR QUE EXISTE?

A Ficha Nacional de Registro de Hóspedes (FNRH) em formato digital é um sistema desenvolvido pelo Ministério do Turismo em parceria com o Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados) para substituir a ficha de registro tradicional que os hotéis preenchiam em papel. A plataforma oferece funções de pré-check-in, check-in e check-out. A ideia é agilizar esses procedimentos para hóspedes e estabelecimentos.

Os meios de hospedagem já eram obrigados a enviar informações sobre os clientes desde 2008. O que mudou foi a forma: o envio passou a ser eletrônico. Além disso, o sistema elimina dados incorretos e permite gerar estatísticas em tempo real. A digitalização permite identificar de onde vêm os turistas, tanto nacionais e quanto estrangeiros, e planejar políticas públicas específicas para cada nicho ou local.

O QUE MUDA NA PRÁTICA PARA QUEM VAI SE HOSPEDAR?

Para o viajante, a principal diferença é a possibilidade de fazer o pré-check-in antes de chegar ao hotel. A hospedagem envia ao cliente um link ou QR Code (por e-mail, WhatsApp ou qualquer outro meio) que dá acesso ao canal digital. O hóspede preenche os dados e, ao chegar no local, pode dar entrada no estabelecimento sem ter que enfrentar fila e perder tempo ditando informações ao atendente.

Para grupos grandes, como excursões ou viagens corporativas, o hotel pode disponibilizar QR Codes no saguão, por exemplo, e possibilitar que vários hóspedes preencham a ficha ao mesmo tempo pelo celular.

Crianças e adolescentes menores de 18 anos não precisam de cadastro próprio. Eles devem ser incluídos como dependentes no registro do responsável legal.

No caso dos estrangeiros, o sistema disponibiliza módulos específicos em inglês e espanhol. Turistas internacionais não precisam de CPF ou acesso ao gov.br. Basta inserir dados do passaporte ou documento de identificação internacional.

COMO FUNCIONA O PRÉ-CHECK-IN?

Faça a reserva normalmente no hotel.

Aguarde o link ou QR Code enviado pelo estabelecimento.

Acesse a plataforma pelo link recebido.

Faça login com sua conta gov.br (método recomendado pelo governo), com certificado digital ou com certificado digital em nuvem.

Preencha os dados solicitados

Confirme o envio.

Na chegada ao hotel, apresente a confirmação e retire a chave.

O sistema dispensa a assinatura física e, segundo o governo, reduz o risco de fraudes de identidade no balcão.

PRECISO TER CONTA NO GOV.BR?

Não necessariamente, mas é o caminho mais recomendado. O acesso à plataforma da FNRH pode ser feito, também, via certificado digital.

O problema é que o gov.br acumula um histórico de reclamações de usuários com dificuldades de acesso. No Reclame Aqui (maior plataforma brasileira de reputação online e solução de conflitos entre consumidores e empresas) o site traz milhares de relatos de dificuldade de acessar e usar a conta.

Em nota, o Ministério do Turismo afirmou que, em caso de instabilidade, os estabelecimentos podem registrar o hóspede manualmente. O Portal gov.br funciona como uma facilidade, mas os meios de hospedagem podem operar de forma independente.

O Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (responsável pela criação do gov.br em parceria com o Serpro), não se manifestou.

Caso o hóspede não saiba fazer login no Portal Gov.br, é possível fazer o check-in à moda antiga. A obrigatoriedade da digitalização é para o governo e o hotel, mas a recepção pode ocorrer como antes, caso o cliente precise ou queira.

QUANTOS HOTÉIS JÁ ADERIRAM?

Até segunda-feira (4), 5.394 meios de hospedagem em todo o país já utilizavam a FNRH Digital, o que representa cerca de 28% dos 19.231 estabelecimentos ativos no Cadastur (sistema do Ministério do Turismo voltado à formalização do setor). Segundo a pasta, o processo de transição está focado em mostrar os benefícios da ferramenta. O ministério oferece orientações ao segmento desde novembro de 2025, inclusive, com uma página oficial com passo a passo.

Para hotéis e pousadas sem sistema próprio, o Serpro desenvolveu um módulo de gestão integrado à própria plataforma gov.br, sem necessidade de contratação de softwares externos.

"A proposta é garantir que a transformação digital alcance todo o setor, independentemente do porte do empreendimento, sem criar barreiras de entrada ou custos adicionais", afirma Wilton Mota, presidente do Serpro.

O Blue Tree Hotels é um caso à parte. Chieko Aoki conta que a rede foi pioneira no check-in digital no Brasil ? o sistema já existia antes da pandemia de Covid-19."Já possuíamos toda a infraestrutura tecnológica e o caminho pronto para o usuário", afirma. Para eles, a obrigatoriedade do governo não exigiu nenhuma mudança estrutural.

O GOVERNO VAI USAR MEUS DADOS PARA ME MONITORAR?

Essa afirmação circulou nas redes sociais e foi classificada como falsa por agências de checagem e pelo Ministério do Turismo.

A FNRH digital é, tecnicamente, a versão eletrônica de um cadastro que já existia ? os dados coletados são os mesmos de antes, apenas em formato diferente. Segundo o governo, as informações são utilizadas sem identificação individual para orientar políticas públicas de turismo, como mapeamento de fluxo de visitantes e taxa de ocupação hoteleira.

O sistema opera em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

"O novo sistema utiliza dados criptografados e não coleta informações sobre despesas dos hóspedes. A plataforma apenas valida o CPF indicado para confirmar a identidade do cidadão. A pasta acessa somente dados quantitativos e detalhes são obtidos mediante ordem judicial ou policial, como já ocorria", afirmou o Ministério do Turismo em nota.