Vitrais da Candelária são retirados pela primeira vez em 127 anos para restauração no Rio
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os vitrais da igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro, foram retirados pela primeira vez desde a instalação, há 127 anos, para serem submetidos a um processo de restauração.
O projeto, uma parceria da Prefeitura do Rio, por meio do IRPH (Instituto Rio Patrimônio da Humanidade), com a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária, foi analisado e aprovado pelo Iphan (Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
O financiamento de R$ 1,6 milhão é da Fundação Gerda Henkel, da Alemanha, com apoio do consulado alemão.
Segundo o Iphan, três vitrais serão restaurados ?o principal, na área central da igreja, que retrata Nossa Senhora da Candelária com o menino Jesus; e dois laterais, que representam anjos anunciadores.
Para a restauração foi preciso remover 117 painéis de vidro e chumbo, sendo 39 de cada vitral. O trabalho inclui limpeza especializada, consolidação de pinturas fragilizadas, tratamento de trincas, recomposição de lacunas nos vidros e recuperação da rede de chumbo.
Vidros coloridos especiais serão importados da Alemanha para manter as características dos usados nos vitrais instalados no século 19. O trabalho também inclui o uso de pigmentos esmaltados e tintas especiais à base de prata para recompor as cores originais, além da instalação de vidraças de proteção e telas metálicas.
O projeto prevê a instalação de um novo sistema de ventilação, com o objetivo de reduzir a umidade na parte interna dos painéis.
A previsão é que a restauração seja concluída no segundo semestre deste ano. O trabalho é feito na sede da Irmandade de Nossa Senhora da Candelária e inclui a oferta de um curso sobre técnicas de restauro em vitrais para profissionais que trabalham na conservação do patrimônio cultural, a realização de um seminário, uma exposição e a publicação de um livro.
Os vitrais são do artista João Zeferino da Costa, com a colaboração de Henrique Bernardelli. Foram produzidos em 1898 pelo Real Estabelecimento de Vidraças Artísticas de F. X. Zettler, em Munique. A instalação na igreja ocorreu em 1899.
Desejos originais com anotações deixados por Zeferino orientam o projeto de restauração.
"O restauro é essencial porque, ao longo de mais de um século, os vitrais sofreram com intempéries, poluição e até atos de vandalismo", diz a restauradora Cláudia Nunes, técnica do Iphan.
De acordo com o provedor da irmandade, Antônio Soares da Silva, outras ações de restauração revelaram pinturas originais no interior da igreja.
"Esse esforço contínuo ganha novo capítulo no restauro dos vitrais", afirma.
A Candelária é tombada desde 1938 pelo Iphan. Ela foi construída no mesmo local de uma capela menor do século 17, conhecida como igreja da Várzea, a partir de projeto do engenheiro militar português Francisco João do Roscio.
A obra começou em 1775 e só foi concluída 123 anos depois, com inauguração no dia 10 de julho de 1898.
O entorno do templo passou a ser associado aos assassinatos de oito jovens moradores de rua, na noite de 23 de julho de 1993, em um episódio conhecido como Chacina da Candelária. O caso marcou a história da violência contra crianças e adolescentes no Brasil. Três policiais militares foram condenados pelo crime.