Fósseis de vermes de 535 milhões de anos da China revelam origem dos anelídeos
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A descoberta de dois fósseis com segmentação corporal na China jogou luz sobre a origem dos anelídeos, grupo de animais que inclui as minhocas, sanguessugas e poliquetas (vermes) marinhos. O achado foi descrito em uma pesquisa publicada em abril na revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences).
Os dois vermes anelados foram encontrados no Lagerstätte -nome dado a folhelhos, um tipo de rocha laminar com preservação excepcional, inclusive de partes moles de organismos- de Zhangjiagou, na província chinesa de Shaanxi. Eles são os mais antigos representantes de formas atuais encontradas hoje no ambiente marinho conhecidos como poliquetas.
O menor deles foi batizado de Kuanchuanpivermis brevicruris -breve cruris significa "pernas curtas" em latim. O outro recebeu o nome Zhangjiagoivermis longicruris -o gênero faz referência ao nome da formação de Zhangjiagou e a verme, e longicruris, ao latim "perna longa".
Os fósseis são moldes (endocastos) de dois vanelídeos com tamanho diminuto e que possuíam apêndices corporais.
A idade estimada deles é de 535 milhões de anos (Cambriano Inferior), o primeiro período da era Paleozóica (aproximadamente 539 a 251 milhões de anos) e que os cientistas classificam como de explosão e diversificação dos animais.
"Os fósseis de anelídeos do nosso estudo são menores e mais antigos do que os fósseis de anelídeos do Cambriano relatados anteriormente e representam os anelídeos poliquetas mais antigos conhecidos", disse à reportagem Shuhai Xiao, professor de geobiologia da Universidade de Virginia Tech (Estados Unidos) e um dos autores do estudo.
Os mares do Cambriano Inferior eram dominados por animais com partes duras, como braquiópodes (animais com conchas), briozoários (os primeiros "recifes") e os artrópodes, como o Anomalocaris e os trilobitas. Mas é raro encontrar anelídeos, porque eles não possuem um exoesqueleto duro que possa ser preservado no registro fóssil.
Embora cientistas já tivessem uma pista da presença de anelídeos nos registros paleontológicos do Cambriano, estes eram limitados à fauna de Burgess Shale, no Canadá, cujo limite inferior de idade estimado é de 318 milhões de anos -portanto, 17 milhões de anos mais recente do que o achado da China.
Estudos com o uso de relógio molecular (medida de tempo a partir da detecção de mutações no DNA) indicam que os anelídeos possam ter se originado no período Ediacarano -isto é, antes do Cambriano (entre 635 milhões e 539 milhões). Faltavam, no entanto, provas inequívocas desses organismos nos primeiros anos após a passagem do Ediacarano para o Cambriano.
Além disso, os fósseis de Burgess-Shale foram encontrados geralmente esmagados entre as lâminas do folhelho (comprimidos bidimensionalmente), enquanto aqueles de Zhangjiagou, preservados tridimensionalmente. Os cientistas identificaram esses organismos por meio do uso de técnicas de tomografia computadorizada de alta resolução (CT-Scan).
A análise de CT-Scan mostrou que os moldes não eram conteúdo intestinal de outros animais, algas ou representantes de outros filos, como os lobopódios (que inclui o organismo extinto do Cambriano, Hallucigenia), tardígrados (também conhecidos como ursos-do-mar) e onicóforos (vermes-aveludados), que também possuem segmentação.
"Os espécimes que encontramos têm formas e estruturas uniformes. Eles são compostos de um tronco axial com segmentação e membros pareados ao longo do comprimento do tronco. Os membros também são uniformemente compostos de uma haste que sustenta duas bifurcações terminais em forma de lóbulo", explica Huaqiao Zhang, professor de paleobiologia da Universidade de Nanquim (China) e também autor do estudo.
Xiao diz, ainda, que tais segmentações não podem ser artefatos de preservação, porque eles não teriam replicado os corpos tão perfeitamente. "Embora os fósseis estejam preservados como moldes internos [ou preenchimentos internos da parede corporal] e, portanto, não conhecemos suas morfologias externas, a forma dos segmentos corporais e das projeções laterais [interpretadas como apêndices ou membros] estão preservadas. Os detalhes desses apêndices nos permitiram relacionar os fósseis aos anelídeos."
Os anelídeos atuais incluem cerca de 20 mil espécies distribuídas em todo o mundo. Os poliquetas, majoritariamente marinhos, provavelmente ocuparam, há milhões de anos, os habitats terrestres e aquáticos continentais, dando origem à radiação dos clitelados (minhocas terrestres e sanguessugas aquáticas), afirma Marcelo Fukuda, especialista em invertebrados marinhos do Museu de Zoologia da USP, que não participou do estudo.
"O que a gente imaginava no passado de uma história evolutiva que levou ao surgimento de formas mais complexas talvez tenha acontecido muito antes do que se imaginava, porque esses dois fósseis mostram a presença de estruturas mais complexas, normalmente modificadas em forma de remo nas espécies pelágicas associadas à natação, muito parecida com o que eles encontraram ali", diz.