David Attenborough chega aos 100 anos com saga sobre um gorila

Por REINALDO JOSÉ LOPES

SÃO CARLOS, SP(FOLHAPRESS) - Ao completar 100 anos nesta sexta (8) ainda na ativa, o apresentador britânico David Attenborough atinge um status provavelmente inédito: o de avô planetário. Qualquer pessoa viva hoje que já se maravilhou com imagens da biodiversidade global na tela de uma TV deve ter visto o trabalho dele ao menos uma vez, e seu mais recente documentário mostra que ele continua inspirado.

"A História de um Gorila: com David Attenborough" (Netflix) tem um impacto emocional difícil de descrever, não apenas pelo centenário de Attenborough, mas também porque as décadas de carreira são o mecanismo ideal para entender o significado das cenas delicadas e terríveis diante do espectador.

A exemplo de "David Attenborough e Nosso Planeta", de 2020, o novo filme faz uma espécie de balanço da história que o veterano apresentador testemunhou desde que começou a viajar pelo mundo nos anos 1950. Em vez de uma análise global, porém, o foco dessa visão retrospectiva se volta, nesse caso, para uma única família: os descendentes do gorila-da-montanha Pablo, habitantes de uma floresta em Ruanda (África Oriental).

O primeiro encontro com Pablo está datado com precisão nos diários de Attenborough (que ele lê, com a desenvoltura e teatralidade habituais, para a câmera): "Segunda-feira, 9 de janeiro de 1978. Os cones perfeitos dos vulcões de Virunga à frente".

Ele explica que a ideia inicial da equipe de filmagem, naquele momento, nem era ficar frente a frente com os gorilas. O tema do episódio era a importância da anatomia do polegar e do indicador dos primatas para a manipulação de ferramentas, algo que seria ainda mais intensificado na linhagem humana. Os grandes símios funcionariam apenas como pano de fundo. Mas os primatas, pelo visto, tinham outras ideias na cabeça.

"De repente, quando olhei para trás na direção da câmera, senti um peso em cima dos meus pés", conta Attenborough. "E lá estava o pequeno Pablo."

Não tão pequeno, aliás ?então com três anos de idade, o filhote já tinha pelo menos o tamanho de uma criança humana de dez anos. Foi então que Pablo simplesmente decidiu se deitar mansamente em cima do corpo do britânico ?e ali ficou por um bom tempo.

"Eu não tinha mais como ficar falando sobre a evolução do polegar e do indicador. Só me encostei ali e deixei as coisas acontecerem", recorda ele. "Quero dizer, veja só que criaturinha linda. Eu queria abraçá-lo. Júbilo puro, realmente."

Na época da filmagem, Attenborough se virou para a câmera e sentenciou: "Há mais significado e compreensão mútua, quando trocamos olhares com um gorila, do que no contato com qualquer outro animal que eu conheça". Quase 50 anos depois, ele completa: "Muita gente diria que aquela foi a sequência mais importante da minha carreira de documentarista".

A fofura do encontro em 1978 mal deixa entrever que a família de Pablo enfrentava então a pior crise de sua história, conforme explica o documentário. Naquele ano, restavam apenas 250 gorilas-da-montanha na natureza. A luta para proteger a espécie era, na época, capitaneada pela primatologista americana Dian Fossey, que seria assassinada em 1985 na região (até hoje, as circunstâncias e os responsáveis pela morte não estão claros).

Do ponto de vista da espécie, e na contramão dos problemas que afetam outros ícones da biodiversidade mundo afora, o que aconteceu de lá para cá permite um suspiro de alívio. A população atual dos gorilas-da-montanha ultrapassa os mil indivíduos, e o modelo de ecoturismo desenvolvido por Ruanda e pelos países vizinhos tem, no geral, funcionado para proteger os grandes símios e gerar renda localmente.

A dinâmica da vida pessoal e "política" dos gorilas, porém, tem um ritmo próprio, que não depende de nenhum conceito abstrato de sobrevivência da espécie, e o documentário mostra os dilemas que isso traz com precisão e sensibilidade.

Pablo, que morreu defendendo o grupo no qual era "silverback" (líder), em aliança com outro macho, deixou diversos herdeiros, mas nada garante que eles serão políticos tão habilidosos quanto o antepassado. Assim como em qualquer sociedade humana, é a justaposição paradoxal entre ternura e truculência que revela a complexidade do mundo dos gorilas.

O apresentador britânico consolidou um estilo que ainda é o padrão-ouro dos documentários sobre biodiversidade, em especial nas últimas duas décadas, quando passou a combinar habilmente o espetáculo das imagens com a urgência da crise ambiental global.

Acompanhando a evolução do conhecimento científico sobre o comportamento e a cognição dos seres vivos, Attenborough aprendeu como retratar os animais como indivíduos sem, ao mesmo tempo, resvalar no antropomorfismo. Ele e suas equipes souberam como usar sucessivos avanços tecnológicos para obter não apenas imagens espetaculares, mas também representações visuais das conexões entre as diferentes formas de vida. Mas é possível que seus maiores trunfos sejam 100% analógicos: o texto preciso e bem-humorado da narração e o inimitável brilho no olhar quando encontra os protagonistas de suas histórias.

Attenborough, que precisou implantar um marca-passo no coração e próteses nos dois joelhos na década passada, não dá sinais de que pretenda se aposentar, embora as longas filmagens em ambientes remotos já não sejam viáveis ?só nos últimos dois anos, por exemplo, ele atuou como narrador e/ou apresentador de sete séries ou documentários. A aventura continua.

A HISTÓRIA DE UM GORILA: COM DAVID ATTENBOROUGH (NETFLIX)

- Classificação 10 anos

- Elenco David Attenborough

- Direção James Reed e Callum Webster