Coronel preso sob suspeita da morte da PM Gisele é denunciado à Corregedoria por suposto assédio a soldado
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A defesa de uma soldado da Polícia Militar pediu à Corregedoria da PM a abertura de um procedimento para apurar a conduta do coronel Geraldo Leite Rosa Neto, 53. O oficial está preso sob suspeita da morte da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, 32, em fevereiro.
A notícia-crime tem como base uma série de mensagens supostamente enviadas pelo coronel à subordinada, a soldado Rariane da Silva, 32. Pelo conteúdo, a policial deixava claro, por escrito, que não haveria relacionamento amoroso entre eles. Mesmo assim, Neto teria insistido nas investidas, segundo o material apresentado à Corregedoria e obtido pela reportagem.
O advogado de Rariane, Thiago Lacerda, pediu a abertura de um inquérito policial militar para apurar possíveis crimes de descumprimento de missão, assédio sexual, assédio moral, ameaça e fraude processual. O pedido é acompanhado de mensagens encaminhadas pelo coronel à subordinada, que passaram por perícia particular.
Procurada, a defesa do coronel Neto respondeu por aplicativo de mensagens não ter conhecimento da denúncia.
Em nota, a Polícia Militar disse ter aberto Conselho de Justificação contra o coronel Neto, por meio de resolução publicada no Diário Oficial do Estado em 31 de março. "O procedimento está em fase de instrução. O Conselho de Justificação possui etapas administrativa e judicial, conforme previsto nas Leis n.º 5.836/72 e n.º 186/73. A corporação ressalta que o andamento do Conselho de Justificação ocorre de forma independente do processo criminal."
O texto acrescenta que "outras eventuais investigações, eventualmente em curso Corregedoria, possuem graus de sigilo em estrita observância ao regramento jurídico vigente".
Gisele foi encontrada morta com um tiro na cabeça no apartamento em que o casal morava, no Brás, região central de São Paulo, em 18 de fevereiro. Inicialmente tratado como suicídio, o caso foi requalificado para feminicídio com o andamento das investigações. Neto está preso preventivamente no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte da capital.
Conforme o documento, os supostos assédios contra Rariane tiveram início logo após a chegada de Neto ao 49º Batalhão de Polícia Militar, com sede em Pirituba, zona noroeste da cidade, onde ela já trabalhava.
O coronel, que à época era tenente-coronel (há promoção automática com a aposentadoria), ofereceu a ela um cargo de ordenança, equivalente ao de secretária. Antes mesmo de receber uma resposta, teria comunicado aos policiais que ela ocuparia a função.
Rariane recusou, mas Neto teria declarado que a transferiria compulsoriamente, pois detinha poder hierárquico sobre todos os policiais do batalhão. Temendo que a ameaça se concretizasse, a soldado pediu a um superior para retornar ao patrulhamento de rua.
A soldado relatou ao advogado que Neto tentou se aproximar com elogios à sua postura, fardamento e educação e a convidava frequentemente para conhecer sua sala. Ela sempre comparecia acompanhada. Em agosto de 2025, as mensagens se tornaram mais incisivas: o coronel dizia que "queria ela para ele", que deveria ser "algo em off" e que queria beijá-la.
Em setembro, a esposa de Neto, a soldado Gisele, enviou uma solicitação de amizade para Rariane no Instagram, indicando que Neto ainda era casado. Rariane disse ao coronel que não queria problemas. Ele justificou a atitude da esposa dizendo que a intenção dela era afastar qualquer mulher de seu convívio.
No dia 30 de setembro de 2025, Neto teria ido até a portaria do prédio de Rariane com um buquê de flores, em trajes civis, com óculos escuros e boné. A soldado só o reconheceu ao se aproximar da portaria e voltou imediatamente para casa, sem fazer contato.
O coronel teria gritado e a chamado pelo portão, sem resposta, e em seguida passou a ligar e enviar mensagens insistentes, informando que havia deixado o buquê na portaria, segundo o relato enviado à Corregedoria.
Em outra ocasião, Neto teria retornado ao endereço em horário de serviço, fardado e em viatura oficial. Para o advogado Thiago Lacerda, ao tentar acessar o imóvel nessas condições, o coronel teria cometido, em tese, crime de descumprimento de missão, já que não exerce patrulhamento ostensivo e tem função meramente administrativa.
Uma foto de Neto deixando o local foi anexada à petição. O endereço teria sido obtido nos sistemas da Polícia Militar.
A insistência era tanta que Rariane passou a cancelar suas escalas voluntárias na Atividade Delegada, quando o policial trabalha nas folgas, nas mesmas datas em que Neto estava escalado.
As tentativas de contato continuaram após a morte de Gisele. Em 4 de março, Neto teria procurado Rariane para se explicar sobre o homicídio do qual era acusado. Ela pediu que a deixasse em paz. Em razão das atitudes dele, seu nome estava sendo associado ao de uma suposta amante.
Na petição, o advogado Thiago Lacerda afirma que Rariane sempre teve medo do coronel e só reuniu coragem para formalizar a denúncia após sua prisão. O documento acrescenta que as queixas contra Neto encaminhadas ao Comando de Policiamento ao qual ele estava subordinado não teriam sido apuradas com o rigor devido.