Monstro do mar ou tubarão? Mistério de 90 anos intriga cientistas no Canadá
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Um grande mistério voltou a ganhar destaque no Canadá quase 90 anos depois. Especialistas debatem se uma criatura encontrada no estômago de uma baleia-cachalote era um tubarão em decomposição ou um monstro marinho desconhecido.
O caso ocorreu em 1937, perto do arquipélago de Haida Gwaii. Restos mortais de uma criatura foram retirados do interior de uma baleia e rapidamente chamaram atenção pelas características incomuns.
Pescadores e moradores locais passaram a chamar o animal de "Cadborosaurus". É uma referência a uma lendária serpente-marinha que habitantes da costa oeste canadense juravam existir.
Segundo testemunhas, a carcaça tinha uma cabeça parecida com a de um cachorro e o focinho semelhante ao de um camelo. Além disso, tinha corpo reptiliano e cauda que lembrava a de um cavalo.
Tudo aconteceu em uma estação baleeira. Trabalhadores retiraram a criatura do estômago da baleia-cachalote e colocaram o corpo sobre caixas de madeira para fotografá-lo. A imagem, publicada em jornais da época, ajudou a alimentar a lenda do "monstro do mar".
Principal problema é que praticamente nenhum vestígio da carcaça sobreviveu, o que dificulta qualquer conclusão definitiva até hoje. Um dos fragmentos chegou a ser enviado para um museu na cidade de Victoria, mas acabou descartado depois que um diretor concluiu que se tratava de um feto de baleia.
Atualmente, restam apenas algumas fotografias em preto e branco, consideradas insuficientes para encerrar o debate. Ainda assim, especialistas continuam tentando esclarecer o caso.
Muitos cientistas acreditam que a criatura era, na verdade, um Basking shark, conhecido também como tubarão-peregrino ou tubarão-frade. A espécie pode ultrapassar 10 metros de comprimento e sofre uma transformação incomum após morrer.
Como os tubarões não possuem ossos, a decomposição faz partes do corpo colapsarem, criando a aparência de um "pescoço longo" e de uma cabeça pequena. O resultado lembra criaturas pré-históricas e pode dar um aspecto monstruoso à carcaça.
Ben Speers-Roesch, professor de biologia marinha da Universidade de New Brunswick, afirma que fenômenos parecidos já foram registrados. O caso mais famoso aconteceu na Nova Zelândia, em 1977. "Com uma longa coluna vertebral e uma pequena cabeça na extremidade, parece uma serpente marinha mitológica", afirmou ao jornal The Guardian.
Apesar disso, o pesquisador reconhece que o caso canadense apresenta diferenças. "O mistério persiste porque apresenta elementos que não são tão facilmente identificáveis como os de um tubarão-peregrino. De fato, tem uma aparência um pouco diferente em alguns aspectos."
Já John Kirk, presidente do Clube de Criptozoologia Científica da Colúmbia Britânica, acredita que não se trata de um monstro, mas possivelmente de uma espécie ainda desconhecida pela ciência. Segundo ele, a criatura pode até ser um mamífero marinho não catalogado.
"A carcaça certamente não é de um tubarão-frade. E também não é um réptil. Seja o que for, deve ser um mamífero, pois possui pelos e não se assemelha a nenhuma das ordens de mamíferos marinhos que habitam essas águas atualmente."
Ausência de evidências concretas mantém o mistério vivo até hoje e impede uma resposta definitiva. Ao mesmo tempo, especialistas canadenses têm usado a história para chamar atenção para a preservação dos tubarões-peregrinos.
Problema começou entre as décadas de 1950 e 1970, quando o governo promoveu uma campanha para eliminar esses animais, considerados um obstáculo para as redes de pesca de salmão. Em alguns casos, embarcações chegaram a usar lâminas gigantes instaladas na proa para cortar os tubarões ao meio.
Estima-se que cerca de 2.600 tubarões -mais de 90% da população local- tenham sido mortos durante o período. Atualmente, o Basking shark é protegido por lei no Canadá e considerado ameaçado.
Governo canadense mantém um plano oficial de recuperação da espécie. Entretanto, especialistas estimam que a população pode levar cerca de 200 anos para se recuperar completamente.