Secretário de Esporte de São Caetano deixa cargo após chamar inclusão de problema
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O secretário de Esporte de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, Mauro Chekin, anunciou, nesta sexta-feira (8), a sua saída do cargo. A medida foi tomada após repercussão de declarações consideradas capacitistas em uma audiência pública na Câmara Municipal.
"Em razão dos fatos ocorridos, da Secretaria de Esportes, Lazer e Juventude da Prefeitura de São Caetano do Sul, peço exoneração do cargo, reconhecendo o erro de abordagem do tema inclusão no esporte, pedindo sinceras desculpas", afirma o comunicado.
Em audiência na Câmara no dia 29 de abril, Chekin disse que, como secretário, não conseguiria atender ao pedido da mãe de uma menina autista para incluir a criança em aulas de natação, em um instituto da pasta.
"Nós temos um problema muito grande com autista e qualquer deficiente", disse ele, antes de citar o caso da menina como exemplo. "A menina usa fralda, como eu vou colocar a menina dentro da água com fralda?"
Neste momento, Chekin respondia à vereadora Bruna Biondi, que integra o mandato coletivo das Mulheres por Mais Direitos do PSOL. Ela, por sua vez, rebateu a fala e criticou a capacidade do gestor em atuar na pasta esportiva, que atende pessoas com deficiência.
Professor de educação física com carreira em gestão esportiva, Chekin disse ainda que a inclusão não era dever dele "como pessoa física". "Eu não posso obrigar um profissional e falar assim 'você vai trabalhar com deficientes'. Se falassem isso para mim eu estaria fora da prefeitura já lá atrás."
O vídeo com a audiência da Câmara viralizou nas redes sociais. Após a repercussão negativa, o secretário deixou a pasta e agradeceu ao prefeito Tite Campanella (PL). "Reafirmo meu compromisso como professor de educação física de carreira da municipalidade e vou procurar aperfeiçoamento profissional relacionado à inclusão".
A 8ª Promotoria de Justiça de São Caetano do Sul instaurou inquérito civil para investigar possível prática de capacitismo institucional e omissão da prefeitura na implementação de políticas públicas inclusivas no esporte municipal, após representação da vereadora Bruna Biondi e da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL).
Para a Promotoria, as declarações do então secretário podem configurar "preconceito e discriminação contra pessoas com deficiência", além de violarem princípios constitucionais como dignidade da pessoa humana, igualdade e vedação à discriminação.
Procurada na tarde deste sábado (9) por meio de ligações, email e mensagens em redes sociais, Prefeitura de São Caetano do Sul não se manifestou a respeito da saída do secretário e do inquérito da Promotoria até a publicação deste texto.
O Ministério do Esporte repudiou, em nota publicada nas redes sociais, as declarações do Chekin, "por seu caráter profundamente capacitista, incompatível com os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana, da inclusão e do respeito às pessoas com deficiência".
"É dever do poder público garantir acesso, acolhimento, oportunidades e participação plena das pessoas com deficiência em todas as dimensões da vida social, inclusive no esporte, instrumento reconhecido de cidadania, desenvolvimento humano e inclusão social", traz a publicação.
O Comitê Paralímpico Brasileiro também se manifestou. "A fala é discriminatória e inadmissível, revela desconhecimento sobre o papel transformador do esporte na promoção da cidadania, da dignidade e da igualdade de oportunidades para pessoas com deficiência."
Segundo o comitê, São Caetano do Sul tem a sua história vinculada ao Movimento Paralímpico nacional, pois já foi um dos polos de treinamentos das Seleções Brasileiras de atletismo e natação paralímpicos antes da construção do Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, em São Paulo, além de se manter como moradia de diversos paratletas da atualidade.