Estudo revela ocupação humana recorrente em caverna nos Pirineus por 5.000 anos
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um estudo em um sítio arqueológico nos Pirineus, a mais de 2.200 metros de altitude, revelou evidências de ocupação humana recorrente no local por um período de mais de 5.000 anos -por volta do 5º milénio a.C. ao fim do 1º a.C, do período Neolítico até início da Idade do Bronze. A pesquisa saiu na última terça-feira (5) no periódico Frontiers in Environment Archaeology.
A localidade chama-se Cova 338. Ela fica em ponto da cadeia montanhosa --situada entre o sul da França e norte da Espanha, na Catalunha-- próximo ao município de Queralbs, na comuna de Ripollès, vale da Núria.
Alguns vestígios apontam para a ocupação humana no local: restos de fogueiras; fragmentos de minério ricos em cobre (indicando possível uso mais antigo do minério na região); pequenos objetos fabricados a partir de animais; objetos de cerâmica; e alguns ossos de animais, principalmente caprinos, que podem ter sido consumidos no local pelos humanos pré-históricos.
A datação por meio de radioisótopos de carbono-14 indica fases de ocupação distintas separadas por intervalos médios a longos, segundo Carlos Tornero, professor de pré-história da Universidade Autônoma de Barcelona e do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (Iphes-Cerca) e coordenador do projeto.
Tornero diz que a evidência mais convincente da ocupação humana recorrente na caverna é a repetição de padrões de atividade estruturada, conforme observada pelos 21 restos de fogueira recuperados no local.
"Na Cova 338, a 2.235 metros acima do nível do mar, identificamos diversas estruturas de combustão [restos de fogueira] que foram reconstruídas e reutilizadas ao longo do tempo, junto com uma organização espacial consistente das atividades. Combinado com múltiplas datações por radiocarbono abrangendo diferentes períodos, isso mostra que as pessoas retornavam ao local repetidamente com um propósito claro", explica ele.
O historiador afirma que esses espaços deveriam ter sido integrados aos sistemas de mobilidade e econômicos desde a pré-história. "As atividades provavelmente incluíam tarefas relacionadas ao pastoreio, processamento de recursos animais, estadias de curta duração e atividades ligadas à exploração de alta altitude. Em vez de visitas ocasionais, essas ocupações refletem o uso direcionado de ambientes montanhosos, apontando para um grau elevado de especialização."
Hoje, o acesso à caverna é feito apenas a pé, partindo do monastério do vale da Núria, a 1.970 metros. O terreno íngreme e o espaço reduzido da caverna, de seis metros quadrados, tornam o trabalho dos arqueólogos no sítio desafiador.
Os pesquisadores tiveram que carregar o material coletado manualmente. As expedições ocorreram entre 2021 e 2023, como parte de um projeto maior denominado Raízes Pré-Históricas (Arrels), do Iphes-Cerca , voltado a compreender a ocupação e a mobilidade dos povos pré-históricos nos Pirineus Orientais.
Junto aos vestígios de ocupação humana os arqueólogos encontraram restos de minerais verdes (malaquita, rico em cobre), além de dois pingentes, um feito de concha de bivalve (gênero Glycimeris) e outro produzido a partir de dente de urso, evidenciando práticas de ornamentação pessoal. O primeiro tem paralelos em outros sítios catalães, enquanto o segundo é muito mais raro e possivelmente ligado a um significado simbólico específico, segundo o historiador.
"A presença de malaquita [um mineral rico em cobre] sugere um interesse precoce em recursos minerais, mas interpretamos isso com cautela", afirma Tornero. Para ele, não é possível ainda nesta etapa da escavação, sem outros objetos que confirmem, dizer que havia a produção metalúrgicas no local, mas "podemos dizer com confiança que esses materiais foram intencionalmente trazidos para a caverna".
Outros sítios arqueológicos já foram escavados no mesmo vale, incluindo um que possivelmente foi uma caverna funerária, com mais de 50 corpos enterrados. Com o novo achado, Tornero e sua equipe pretendem expandir ainda mais a área de pesquisa dos Pirineus, buscando algumas das últimas evidências de grupos de caçadores-coletores na área e a transição das populações que ali viveram durante o final do Neolítico e o início da Idade do Bronze.
Justamente pelas altitudes elevadas, o pesquisador reconhece que as dificuldades no acesso a esses sítios é o que os torna sub-representados nos estudos arqueológicos. "Juntos, esses sítios estão nos ajudando a construir um quadro muito mais detalhado e dinâmico de como comunidades pré-históricas ocupavam e se movimentavam através de ambientes de altitude."