Brasileiro morto em Buenos Aires relatou perseguição, e família não vê caso esclarecido
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - É madrugada do dia 14 de abril e Danilo Neves Pereira caminha pela avenida de Mayo, a famosa via no centro histórico de Buenos Aires que conecta a Casa Rosada e o Congresso. "Eu não cheguei em casa ainda, mas estou morrendo de medo. Tipo, morrendo de medo mesmo", diz pelo celular.
A mensagem de voz chega a um amigo no Brasil com quem, por segurança, ele compartilha informações de um encontro ao qual foi na véspera, perto dali. Em um intervalo de minutos, Danilo envia dois vídeos, ambos mostrando uma pessoa parada perto da saída de um metrô, e quase 20 áudios, incluindo alguns nos quais se ouve apenas burburinhos ou o som dos arcaicos elevadores da capital argentina.
Ele diz que o homem com quem esteve naquela noite havia filmado o encontro sem sua autorização, fala em ir a uma delegacia para denunciar um crime e descreve pessoas e carros nos arredores que considera suspeitos.
"Eu estou com 3% de bateria. Chegando em casa, eu te mando mensagem", diz, parecendo responder a pedidos de seu amigo para retornar ao apartamento em segurança. "A rua está deserta, então eu vou esperar um pouquinho. Estou na frente de um mercado 24 horas. Daqui a meia hora, a rua está cheia de gente, aí eu já posso ir."
O último áudio chega por volta das 4h. Nos dias seguintes, ninguém mais conseguiria contatá-lo, e amigos e familiares mobilizariam a imprensa de todo o Brasil para descobrir seu paradeiro.
Danilo nasceu em Goiânia no dia 21 de janeiro de 1991, o mais velho de dois filhos. Nunca gostou de carne e era "vegetariano de nascença", segundo o pai. Ainda criança, interessou-se pela língua inglesa. Aos 8 anos, já falava frases que havia aprendido por meio de revistas e filmes no idioma.
"Ele inventava histórias, fazia quadrinhos. Tudo em inglês" diz seu pai, o produtor rural Daniel Neves Primo. "Um prodígio. Ele nasceu assim."
No final da tarde do dia 24 de abril, Primo embarcou rumo à Argentina, sua primeira viagem internacional, para um périplo de cinco dias por órgãos públicos em busca de informações sobre a morte do filho.
Ele foi recebido no aeroporto de Buenos Aires naquela noite de sexta-feira pelo agente funerário que cuidaria da repatriação. Uma hora de conversa sobre tamanhos de caixão, detalhes da autópsia e valores do serviço e ele ainda tinha mais perguntas do que respostas. Saiu do terminal aéreo com o endereço do necrotério em que deveria tentar reconhecer o corpo.
O sumiço veio à tona para o público brasileiro no dia 19 de abril, quando portais de Goiás começaram a noticiar o desaparecimento.
No dia seguinte, veículos do país vizinho noticiaram, com base em interlocutores de dentro da polícia, que o corpo de Danilo havia sido encontrado no hospital Ramos Mejía, a mais de 3 km do endereço do homem com quem o brasileiro estava. Ele teria sido levado para o centro de saúde por agentes que o encontraram na rua com "descompensação psicotrópica" por suposto uso de cocaína.
A corporação não se pronunciou.
"Essas situações você tem que enfrentar. Se não bater de frente, vai ficar sempre te perturbando", disse Primo, na manhã de sábado (25), sobre o reconhecimento do corpo. "Não pode ser covarde", continuou. A falta de resolução do caso deixa a família inconformada.
Nos últimos meses, pai e filho haviam retomado o contato após mais de dez anos afastados. Com a renda que obtém da sua plantação de cacau orgânico no Pará, para onde se mudou quando se separou da mãe de Danilo, Primo vinha ajudando o filho a se sustentar na Argentina. "Ele voltou a falar normalmente, como se a gente se falasse todo dia. Pediu a bênção", afirma o pai, que diz não saber o motivo do afastamento.
A advogada Mariane Neves, prima do Danilo e membro da família mais próxima dele, sabe. "O Danilo passou muito tempo sem ter contato com familiares pela questão do preconceito em relação à sua orientação sexual", diz ela. "A nossa família tem um background muito religioso e fechado."
Mariane diz que Danilo foi o primeiro da sua geração de primos a entrar em uma faculdade e falar em mestrado e doutorado. "Ele foi abrindo os caminhos para que o resto da trupe seguisse os passos dele", afirma, incluindo-se entre os influenciados.
O curso de letras na UFG (Universidade Federal de Goiás), de 2009 a 2013, foi uma das viradas de chave para ele. Foi nessa época que criou a drag queen Zelda, com a qual chegou a se apresentar no Centro de Línguas da universidade, onde atuou por mais de dez anos.
A intervenção ocorreu após um aluno reclamar de uma aula em que o professor exibiu "Paris is Burning", um documentário lançado em 1990 sobre a cena drag queen de Nova York dos anos 1980. "O diretor do Centro de Línguas falou: 'Vem de Zelda amanhã dar aula'. Foi lindo. Eu juntei minha turma com a dele", diz seu amigo Diego Machado.
Em 2020, após fazer um mestrado na UFG, escrever dois livros pela editora da universidade e lecionar português na Emory University, em Atlanta, Danilo decidiu que era o momento de tentar um doutorado. Em 2021, começou a formação e foi para o Rio de Janeiro estudar linguística na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Parte dos amigos diz que ele estava vivendo uma boa fase. No dia 25 de março, falou ao pai que havia acabado a tese e arrumado um emprego.
Por outro lado, vinha dando sinais de confusão mental, segundo pessoas próximas. A própria ida a Buenos Aires, há pouco mais de seis meses, ocorreu porque ele acreditava estar sendo perseguido no Rio de Janeiro por um ex-namorado e dizia ter sofrido uma tentativa de sequestro, segundo Mariane.
Fisicamente, também enfrentava problemas de saúde -e às vezes essas duas questões se ligavam.
Danilo era diagnosticado há anos com bipolaridade, segundo Anderson Zanni, um amigo do Rio de Janeiro, mas ficou sem a receita para o remédio no país vizinho. Aos poucos, parou de se tratar.
Após dizer, nos áudios do dia 14 de abril, que acreditava ter sido filmado sem consentimento, Danilo parece sugerir que outros dois encontros recentes, com pessoas diferentes, também havia sido registrados sem autorização.
Nas buscas por respostas, porém, seus amigos encontraram um morador de Buenos Aires que já havia saído com a mesma pessoa --um chileno que se apresentou como Ulysses. Ele não quis se identificar para a reportagem, mas, por áudios, disse que quase passou pela experiência de ser filmado sem autorização no encontro.
Procurado, Ulysses não respondeu a questionamentos da Folha, mas amigos do Danilo que falaram com ele dizem que a versão do chileno é a de que o professor foi embora de sua casa após um desentendimento.
De acordo com documentos da delegacia, no dia 14 de abril Danilo foi levado ao hospital Ramos Mejía pelo serviço de emergência argentino, acompanhado por policiais da delegacia 1B por apresentar "agitação psicomotora devido a intoxicação". Ele estava com pneumonia, de acordo com o registro, e morreu nas horas seguintes em um quadro de edema cerebral difuso, congestão, edema pulmonar e hemorragia.
O corpo de Danilo estava no necrotério desde o dia 16 de abril. Policiais foram fazer reconhecimento no dia 20 de abril, data em que sua morte foi noticiada pela imprensa argentina. Nesta segunda (11), o corpo retornou ao Brasil. Seus pertences, incluindo o celular pelo qual mandou as mensagens, ainda não foram encontrados.