Ambientalistas são ameaçados em escalada de tensões na serra da Chapadinha (BA)
SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - Era madrugada do feriado de 1º de maio quando homens armados chegaram na Toca do Lobo, hospedaria em uma região de difícil acesso na zona rural de Itaeté, cidade de 13 mil habitantes a 386 km de Salvador.
Proprietários do espaço, os ativistas Alcione Corrêa e Marcos Fantini foram retirados de casa, rendidos e ficaram sob a mira de pistolas enquanto criminosos reviravam o espaço, destruíam equipamentos e acusavam o casal de atuar contra o progresso da região.
O episódio marca uma escalada de tensões e violência na serra da Chapadinha, região da Chapada Diamantina pressionada por interesses ligados à mineração, exploração ilegal de madeira, expansão imobiliária e grilagem de terras.
No relato da ativista Alcione Corrêa, o grupo invasor mostrava ter conhecimento prévio sobre o local e suas atividades, o que aponta para uma ação com planejamento prévio, com o intuito de intimidação.
"A violência não pode ser um instrumento para impor as coisas. Quando uma arma é colocada na cabeça de um ambientalista, ela está na cabeça de todo mundo que busca a conservação", afirma Alcione.
A serra da Chapadinha fica ao sul do Parque Nacional da Chapada Diamantina, fora do perímetro protegido por lei. Ainda assim, é considerada uma área de elevada relevância ambiental, abrigando espécies raras e ameaçadas de extinção em meio à mata atlântica.
A região formada por cânions, cachoeiras e vegetação densa fica às margens do rio Una, que tem importância estratégica para recarga hídrica da bacia do rio Paraguaçu. A água do Paraguaçu é represada na Barragem Pedra do Cavalo, responsável por 60% do abastecimento de Salvador.
O entorno da serra abriga comunidades quilombolas, assentamentos de reforma agrária, ribeirinhos e terreiros de Jarê, religião de matriz africana praticada na região da Chapada Diamantina.
Nos últimos anos, contudo, a região tem despertado o interesse de empresas pelo potencial de exploração de minérios.
Dados da Agência Nacional de Mineração apontam a existência de ao menos 65 processos minerários no em Itaeté, englobando uma área total de 70,2 mil hectares. Destes, 51 estão em fase inicial de autorização de pesquisa, a maioria voltada à exploração de minério de ferro.
Apenas 1 processo está na fase de direito de requerer a lavra para minério de ferro, concedido à Mineração Novo Rumo. Nesta etapa, a empresa já concluiu estudos na área e obteve prioridade para solicitar a autorização de exploração comercial do minério.
Ambientalistas atuam desde 2023 pela criação de uma unidade de conservação na serra da Chapadinha na região entre os municípios Itaeté, Ibicoara e Mucugê. A proposta abrange 18,3 mil hectares, área equivalente ao tamanho da cidade do Recife.
Os estudos para criação da reserva são conduzidos pela Secretaria do Meio Ambiente da Bahia e estão na fase final da análise técnica.
A consulta pública para deliberar sobre a iniciativa está prevista para junho de 2026 e deve incluir audiências, visitas técnicas e diálogo com comunidades locais, como quilombolas e representantes de terreiros.
Ambientalistas defendem que seja criado ali um Refúgio de Vida Silvestre -categoria de unidade de conservação que permite propriedades particulares, mas proíbe empreendimentos de alto impacto ambiental dentro da área protegida.
A proposta, contudo, enfrenta resistência de uma parcela da população local, que vê na mineração a oportunidade de empregos e negócios. A área também é alvo de expansão imobiliária e desperta cobiça de madeireiros.
Ameaça aos ativistas
A invasão à Toca do Lobo, que funciona como posto avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, ampliou o clima de tensão em torno da criação da reserva. A hospedaria tem uma estrutura pequena e fica em um local ermo, onde não há ligação com o sistema de energia elétrica e o acesso só é possível com veículos com tração nas quatro rodas.
Na ação, os invasores incendiaram parte da estrutura da hospedaria e danificaram equipamentos do sistema de energia solar, baterias, rádios comunicadores, internet via satélite, computadores, celulares e câmeras de monitoramento ambiental.
As câmeras eram utilizadas para acompanhar a fauna e flora da região, incluindo espécies ameaçadas como o guigó-da-caatinga, além de atuar na prevenção a incêndios florestais. O prejuízo com a destruição de equipamentos é estimado em R$ 60 mil.
O caso está sendo investigado pela Polícia Civil, que instaurou um inquérito de ofício após identificar postagens sobre o episódio nas redes sociais. O casal já foi ouvido pela delegada responsável pelas investigações.
O deputado estadual Hilton Coelho (PSOL), autor do projeto que indicou a criação da reserva, afirmou que o ataque representa uma falha do Estado em garantir proteção ao território e defendeu a criação imediata de um Refúgio de Vida Silvestre como resposta institucional.
O Ministério Público Federal enviou ofícios a órgãos estaduais e federais solicitando medidas urgentes, como a investigação rigorosa do atentado, a proteção às vítimas e a criação da unidade de conservação.
A Comissão Pastoral da Terra manifestou solidariedade às vítimas e classificou o episódio como um ato de extrema violência e intimidação, destacando a necessidade urgente de medidas de proteção.
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima informou que acompanha o caso e aguarda a conclusão das investigações, reiterando repúdio a qualquer forma de violência contra defensores ambientais.