Falhas no mapeamento do subsolo de São Paulo aumentam risco de acidentes como o do Jaguaré

Por TULIO KRUSE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O mapeamento do subsolo da cidade de São Paulo sofre com problemas de precisão das informações sobre a passagem de dutos e fios, afirmam especialistas consultados pela reportagem. O caos da sobreposição das redes de água, esgoto, energia, telecomunicações e gás no solo também desafia a condução de obras, eles relatam.

A falta de atualização dos dados sobre tubulações subterrâneas, dizem esses técnicos, aumenta os riscos de acidentes como a explosão no Jaguaré, na zona oeste da capital paulista, que deixou um morto, três feridos e dezenas de família desalojadas. Ela ocorreu após uma escavação durante uma obra da Sabesp e da Comgás atingir um duto de gás que passa pela rua Piraúba.

Nesta quarta-feira (13), a diretora de relacionamento institucional e sustentabilidade da Sabesp, Samanta Souza, disse durante entrevista coletiva que as empresas compartilharam previamente mapas da rede subterrânea e seguiram protocolos técnicos.

"Fizemos o cadastro em conjunto, fizemos a marcação de solo, onde está uma rede, onde está a outra", disse Souza.

As falhas no mapeamento subterrâneo da cidade incluem divergências entre a previsão dos projetos executivos e o que é efetivamente construído, e falta de atualização automática dos sistemas de mapeamento. É o que diz o engenheiro Joni Matos Incheglu, coordenador do comitê de engenharia condominial do Crea-SP (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo).

"O principal obstáculo na gestão do subsolo urbano é o passivo histórico de sobreposição de redes (água, esgoto, gás, energia, telecomunicações e drenagem)", escreveu Incheglu, em resposta a perguntas da reportagem. "Este cenário é agravado pela baixa precisão métrica dos cadastros, especialmente em redes mais antigas."

A Prefeitura de São Paulo tem um sistema digital com o mapa da infraestrutura subterrânea da cidade, o GeoInfra. No entanto, ele não é usado como referência para obras pois não tem os detalhes técnicos precisos o suficiente para guiá-las.

Empresas que precisam escavar em vias públicas ou terrenos particulares devem pedir informações a cada concessionária dos serviços de distribuição, separadamente, para conseguir todas as informações técnicas necessárias. O GeoInfra serve para "autorizar o uso e ocupação do solo e de fornecer dados técnicos para as obras e reparos", disse a prefeitura.

Uma lei municipal que obriga operadoras a manterem suas bases cadastrais georreferenciadas atualizadas no sistema, sob pena de multa, foi aprovada em setembro do ano passado ?um indicativo de que esse era um problema recorrente.

Segundo Juliano Gonçalves, engenheiro eletricista que foi gerente de cabos subterrâneos da Eletropaulo e chefiou obras de enterramento da fiação na capital, ainda falta à administração municipal um sistema que vincule automaticamente os projetos das concessionárias à base de dados do órgão público.

"A plataforma da concessionária já estaria conectada com a da prefeitura, não precisaria de gente na prefeitura para fazer um retrabalho", explica. Ele diz também que o mapeamento da prefeitura "não é uma plataforma que está atualizada, pelo que sei".

A confusão de dutos e fios no subsolo da cidade se consolidou a partir de escolhas que tinham em vista o menor custo de instalação?principalmente o de reformar sistemas já implementados, o que seria caríssimo?, afirma Regina Meyer, professora aposentada da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP).

Ela usa como exemplo a opção das concessionárias por não construir as chamadas calhas técnicas ?vias subterrâncias que concentram todas as redes de distribuição, do esgoto à telefonia? mesmo em bairros novos, e por fazer instalações subterrâneas sem levar em consideração a possibilidade de ampliação de ruas, avenidas e estradas.

"Um equipamento super moderno, como é a fibra ótica por exemplo, entra dentro de um sistema [de distribuição] anárquico e produz mais anarquia. A lógica é que, já que é caótico, cada um [concessionárias] entra com suas vantagens na instalação", afirma Meyer. Ela conta que já acompanhou um trabalho de mapeamento do centro de São Paulo que considera "traumático".

Incheglu, do Crea-SP, diz que para superar os problemas de mapeamento do solo são necessárias "não apenas a modernização digital via georreferenciamento, mas, também a implementação de uma cultura rigorosa de registro de alterações em tempo real e a instalação de sinalizações físicas que auxiliem na identificação rápida de redes críticas".

Ele também diz que o uso de equipamentos de sondagem, como georradares, é essencial para localizar a infraestrutura subterrânea sem a necessidade de escavação.

A Secretaria Municipal de Subprefeituras afirmou, por meio de nota, que "a responsabilidade sobre as obras realizadas no subsolo de São Paulo é das concessionárias e permissionárias de serviços essenciais" e que "é imprescindível a comunicação entre empresas para realização de obras, mesmo após autorização do poder municipal, com o intuito de obter informações com maior detalhamento técnico, para subsidiar o planejamento executivo e minimizar riscos de danos às redes implantadas".

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LINHA DO TEMPO DA EXPLOSÃO NO JAGUARÉ

Sexta (8)

Dia em que a Sabesp iniciou as obras na rua Piraúba, no Jaguaré, segundo moradores

Segunda (11)

Entre 12h e 13h - Moradores relatam início do cheiro de gás

Após esse horário, moradores afirmam ter alertado os funcionários da Sabesp do risco de explosão. O ponto do escape do gás foi encontrado, mas os funcionários disseram que ainda avaliavam a situação

15h15 - Horário em que a Comgás afirma ter recebido um chamado sobre o vazamento de gás

15h37 - Hora da chegada da equipe da Comgás ao local, segundo nota da empresa, que afirma ainda ter eliminado o vazamento

16h05 - Explosão ocorre quando algumas pessoas caminham pela rua e outras conversam na calçada. Houve uma morte e três vítimas feridas levadas para atendimento médico. No total, foram 10 casas interditadas e 36 atingidas indiretamente, inclusive o condomínio ao lado, deixando 160 pessoas desalojadas

16h09 - Corpo de Bombeiros recebe uma chamada informando da explosão e envia seis viaturas para o local. Com a confirmação da gravidade do caso, outras nove equipes foram designadas. Também atenderam a ocorrência equipes da Polícia Militar, Samu, Polícia Civil e Defesa Civil

18h15 - Porta-voz anuncia que bombeiros encontraram o corpo do segurança Alex Sandro Fernandes Nunes, 49, que morreu enquanto dormia durante a explosão