Protagonismo e cuidados
A terapeuta ocupacional do CPRJ Eni Nascimento considera os ateliês de Nise da Silveira um ancoradouro. O paciente se ancora nesse fazer que a arte permite e ele consegue transitar entre esse espaço da loucura e da sanidade com bastante segurança, fazendo coisas que, se não houvesse esses espaços, a gente não conseguiria, disse à Agência Brasil.
Eni destacou o que considera um insight da dra. Nise. Já naquela época, ela via possibilidades desse sujeito produzir, se mostrar de uma maneira bem bacana. Para mim, os ateliês são espaços de ancoragem dessa clientela de saúde mental, que encontra ali possibilidade de circular entre o espaço da sanidade e o espaço da loucura.
Os clientes desenvolvem trabalhos que se destacam pela delicadeza e cuidado. Eni citou o caso de Israel Alves Correia, considerado um paciente gravíssimo, com histórico bem difícil e em que, no momento em que está produzindo no ateliê de arte, não existe loucura. Todo o projeto foi desenvolvido por ele.
No CPRJ, além do ateliê de arte, que engloba pintura e escultura, funciona o ateliê de bordado. Nesses espaços, não existe diálogo de doenças, mas de cuidado, e isso surte um efeito muito grande e acaba dando sentido para a vida das pessoas que participam. Para mim, tudo que eu vejo hoje na prática são referências da dra. Nise. Um retrato bordado da médica psiquiatra foi confeccionado no ateliê, em março deste ano, junto com os de outras mulheres consideradas referência no país.
Público
Os 80 anos dos ateliês terapêuticos criados pela doutora Nise da Silveira serão comemorados pelo MII ao longo deste ano, com atividades gratuitas, cujo início está marcado para o próximo dia 18, durante a 24ª Semana Nacional de Museus, que se estenderá até o dia 24 deste mês.
A semana é promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), com apoio do banco Itaú, e tem como tema Museus: unindo um mundo dividido. A comemoração dos 80 anos dos ateliês terapêuticos de Nise da Silveira é simbólica, porque 18 de maio marca o Dia Nacional da Luta Antimanicomial e 20 de maio foi a fundação do Museu de Imagens do Inconsciente (MII).
Dentro das comemorações dos 80 anos dos ateliês terapêuticos de Nise da Silveira, serão abertos ao público uma vez por mês. Para que o público possa participar dessa experiência de criação livre, espontânea, dentro de um ambiente de acolhimento e de liberdade de expressão, destacou Eurípedes Junior
O primeiro ateliê aberto está programado para o dia 23.
Durante o ano todo, em cada mês, o processo se repetirá com ateliês abertos de cada especialidade, sendo o de pintura o mais antigo e carro-chefe, revelando grandes talentos, pessoas que utilizaram sua criatividade para encontrar um caminho de vida, de sobrevivência no mundo, como ressaltou Eurípedes Junior.
Programação
As comemorações incluem o fórum científico batizado A Emoção de Lidar - 80 anos da terapêutica segundo Nise da Silveira, organizado pelo Grupo de Estudos do Museu, criado pela própria Nise em 1968 e que continua funcionando até hoje.
A Emoção de Lidar foi o nome dado pela psiquiatra para identificar seu método terapêutico, copiado de expressão usada em poema por um de seus pacientes, ou clientes, como ela preferia chamar, da Casa das Palmeiras.
A programação inclui ainda, entre outros eventos, a exposição Geometria e Cor, de Manoel Godin, artista contemporâneo do ateliê; lançamento do documentário Um caminho para o infinito: Emygdio de Barros, com texto e roteiro de Nise da Silveira e direção de Luiz Carlos Mello.
O filme narra a trajetória de Emygdio de Barros, considerado um dos maiores nomes da arte revelado nos ateliês da médica psiquiatra.
O Museu de Imagens do Inconsciente está fechando ainda parcerias no exterior para publicação de livros de Nise da Silveira em inglês, francês e espanhol. Vários projetos estão em andamento com esse objetivo de internacionalização do trabalho da médica psiquiatra brasileira.
O museu está também estreitando laços com instituições que já desenvolvem ateliês terapêuticos e querem fazer intercâmbio, de modo a formar uma grande rede de cuidados com essa prática. Outros querem implantar a teoria e a prática de Nise da Silveira, adaptando-as a seus países, para fazer frente aos tratamentos tradicionais que não atendem mais a modernidade.
Em paralelo, a Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente está fazendo um grande esforço ainda para disseminação do conhecimento resultante dos resultados das pesquisas da médica no meio acadêmico, por meio de cursos de extensão e pós-graduação.
A meta é que a psiquiatra seja mais estudada, além do nível simbólico da luta antimanicomial que representa. A gente quer que as ideias dela penetrem no campo da saúde mental, da psicologia, da psiquiatria e das humanidades em geral, afirmou Eurípedes Junior.
A programação disponível pode ser conferida aqui.