Jovem atropelada no Rio viveu guerra no Líbano e voltou ao Brasil para realizar sonho
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Duas grandes certezas acompanharam a brasileira Mariana Tanaka Abdul Hak, 20, nos últimos anos: a vontade de trabalhar na indústria de cosméticos e a de criar raízes no Brasil depois das duas décadas que viveu como cidadã do mundo.
Mariana nasceu em Londres, morou na Venezuela, cresceu na Bélgica, mudou-se para o Líbano e passou temporadas em países da Europa até se formar em administração. Retornou ao Brasil no mês passado para finalmente dar início ao plano para o qual tanto trabalhou.
Ela morreu no último domingo (17), um dia após ser atropelada por uma van em Ipanema, no Rio de Janeiro. Havia desembarcado na capital fluminense no mesmo dia do acidente. Trabalharia numa indústria de cosméticos, a L'Oreal, e pretendia enfim começar sua vida no país pelo qual se apaixonava todos os dias.
Filha dos diplomatas Ibrahim Abdul Hak Neto, hoje assessor especial do presidente Lula (PT), e Ana Patrícia Neves Abdul Hak, cônsul-adjunta do Brasil em Buenos Aires, Mariana compreendeu desde cedo o significado da palavra efêmero.
Não importava o local, afinal, sabia que sua permanência por ali seria transitória e que muito em breve embarcaria numa nova jornada ao lado dos pais.
Sempre foi assim.
Natural da Inglaterra, foi ainda criança morar na capital venezuelana, Caracas. O espanhol foi o primeiro idioma que aprendeu ?o português só veio depois.
Aos seis anos se mudou para o Brasil. Passou um quadriênio em Brasília, onde seus pais trabalhavam, e aos dez foi para a Europa. Estudou de 2016 a 2022 na St. John?s International School, tradicional instituição da região de Bruxelas, na Bélgica, conhecida por reunir alunos de diferentes nacionalidades.
É em grande parte uma instituição formada por filhos de diplomatas, executivos e funcionários de organismos internacionais na Europa.
Estava prestes a se formar quando uma nova mudança no trabalho dos pais a levaria para o Líbano, onde cursou o último ano do equivalente no Brasil ao ensino médio.
Era um período turbulento, e os ataques de Israel contra o país do Oriente Médio começariam pouco depois de a família se instalar em território libanês.
Ali, conta o pai Ibrahim, Mariana entendeu o mundo como ele é. "Nós vimos a guerra", conta, "e passamos a identificar o barulho de drones ou de jatos supersônicos que faziam a cidade inteira tremer".
Em mais de uma ocasião, por exemplo, a família precisou se isolar em bunkers por causa dos bombardeios, e a própria rotina se tornou fator de preocupação.
Mariana estudava numa escola internacional a 50 minutos da capital Beirute e encarava todos os dias uma perigosa montanha para conseguir estudar. Nem sempre podia voltar porque Beirute, onde morava, enfrentava ataques israelenses.
"Foi um período muito aterrorizante", conta Ibrahim.
Quando deixou o Líbano, Mariana foi direto para a Europa para estudar na , instituição de negócios centenária que mantém campi em diferentes países do continente.
A brasileira teve aulas nas sedes da ESCP em Paris, Londres e também em Turim, na Itália.
Mariana viu e viveu de tudo. Tinha facilidade para aprender novos idiomas ?falava português, espanhol, inglês, italiano e francês? e também para conhecer pessoas. Segundo o pai, nunca se importou com a origem de ninguém: para ela, a bem da verdade, todos pertenciam a uma só humanidade.
Quando veio ao Brasil, trouxe consigo o espírito de liderança que cultivou durante a vida toda. Na semana passada, ainda em Brasília, reafirmou a vontade de seguir a carreira quando assistiu no cinema e ao lado dos pais ao filme "O Diabo Veste Prada 2".
"É isso, é nesse mundo que eu quero entrar", disse ao pai Ibrahim depois da sessão.
Mariana morreu no domingo (17), aos 20 anos. Ela deixa os pais, Ibrahim e Ana Patrícia, e o irmão George.