'Ligaram para perguntar se eu estava viva', diz mulher que espera desde 2022 por cirurgia em São Paulo

Por LUIS EDUARDO DE SOUSA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em janeiro de 2025, Edilma Carvalho da Silva, 48, recebeu um telefonema esperado havia muito tempo. Era uma funcionária do Hospital Nossa Senhora do Pari na linha, e Edilma pensou que, enfim, receberia o aviso de sua avaliação pré-cirúrgica. Vencidas as saudações, decepcionou-se: "Só ligaram para confirmar se eu estava viva e se ainda tinha interesse em esperar".

Foi um balde de água fria para a moradora de Cidade Tiradentes, no extremo leste de São Paulo. Ela tem recomendação de cirurgia desde dezembro de 2022, mas, antes, precisa fazer um exame e conta que nem essa etapa foi vencida. A artesã tem um problema de ligamento no ombro esquerdo e, por isso, não levanta o braço.

Mesmo com a limitação, Edilma conta que tem dedicado parte de seu dia a ajudar Simone Mendes de Castro, 51, sua vizinha, que acaba de entrar para um grupo comum: as duas estão entre as 149 mil pessoas na fila para uma cirurgia eletiva na cidade de São Paulo.

Os dados, enviados à reportagem pela Secretaria Municipal da Saúde, mostram um contingente de espera comparável à população de Franco da Rocha, na região metropolitana. A pasta afirma que esse número caiu desde 2023, quando havia 228 mil pessoas em espera.

São diversas as histórias de quem espera por uma cirurgia na rede pública paulistana. Simone conta que seu drama começou em 11 de abril, quando foi atropelada por um caminhão na região da Penha (zona leste) ao fazer a última entrega do dia, perto da meia-noite. Ela trabalhava como motogirl pelo iFood para complementar a renda, em uma moto de 100 cilindradas. Diz não se lembrar dos detalhes: "Eu só me vi caída na estrada de Mogi das Cruzes. Só lembro de uma pessoa falando ?moça, o caminhoneiro fugiu?".

Levada para o Hospital Dr. Alípio Corrêa Netto (Ermelino Matarazzo), recebeu o diagnóstico de ruptura total do ligamento cruzado anterior e ruptura parcial do ligamento colateral medial, ambos no joelho direito. Ela não dobra nem coloca força sob a perna. Ficou ainda com um hematoma na canela.

Ainda no hospital, Simone ouviu que precisaria de cirurgia, mas que não poderia ser feita naquele momento em razão da outra lesão na perna, que estava muito inchada. Após quatro dias, recebeu alta para tratar as feridas em casa para, depois, voltar e ser operada.

"Mas quando eu saio do hospital, automaticamente caio na regulação [fila]", se queixa. Quinze dias depois, passou por um fisioterapeuta e foi informada do tempo mínimo de espera: um ano ?ou pagar R$ 30 mil no particular. Desesperou-se.

"Eu me senti incapaz, inválida. Ele [médico] falou que eu não podia sair da cama, não podia colocar o pé no chão, fazer nada. Para mim é muito difícil depender das pessoas para tudo", conta Simone, emocionada.

Ela descreve a si mesma como uma pessoa muito ativa e empenhada no trabalho. Além das entregas, trabalhava como cuidadora de idosos esporadicamente. As duas atividades, ambas informais, compunham sua renda. Desde o acidente, está sem trabalhar e sem receber, dependendo do filho de 25 anos com quem vive.

"Eu estava muito feliz, muito feliz mesmo com meu trabalho", diz Simone. "Agora me sinto um peso, sinto que estou esgotando a juventude do meu filho. Preciso recorrer à vizinha para comprar um pão."

O medo de Simone é perder o movimento e, com isso, a possibilidade de voltar ao trabalho. Mas diz ter esperança de resolver logo a situação e, quando puder, quer saltar no mar de Ubatuba (SP). Até lá, diz estar em luta contra a dificuldade de se locomover e a depressão, que sente se aproximar a cada dia.

Procurada, a Secretaria Municipal da Saúde da gestão Ricardo Nunes (MDB) respondeu, em um primeiro momento, que realizou 1,7 milhão de cirurgias eletivas entre 2023 e 2025: 533.629 (2023), 586.717 (2024) e 623.370 (2025).

Depois, em uma segunda resposta, atualizou o número para 3,2 milhões de cirurgias ?incluindo dados de 2026 e destacando que o novo número se refere a todas as cirurgias. "Por ano, foram 1.001.853 (2023); 980.131 (2024); 1.017.947 em (2025); e 233.892 em 2026, até o momento", diz a pasta.

Sobre a espera, a secretaria afirma que a avaliação cirúrgica não implica, necessariamente, realização de cirurgia e que a fila é dinâmica e sofre alterações diariamente, conforme entrada e saída de casos, realização de procedimentos e reavaliações clínicas.

A pasta diz ainda que o número de pessoas na fila caiu gradualmente ano a ano e que "esse avanço está relacionado a ações estratégicas da prefeitura, como a ampliação do horário de funcionamento para 24 horas em 12 dos 17 Hospitais Dia, o que contribuiu para aumentar a realização de cirurgias de baixa e média complexidade".

A respeito dos casos de Edilma e Simone, a Secretaria Municipal da Saúde afirma que a primeira tem consulta agendada para 24 de junho, às 9h28, no Hospital Nossa Senhora do Pari, e que a segunda será atendida por médico da família nesta quarta-feira (20), na UBS Carlos Gentile, para avaliação do caso e definição de conduta.