Relatório alerta que pressão por recursos empurra florestas ao limite

Por Folhapress

(UOL/FOLHAPRESS) - Um relatório aponta que a corrida por minerais, biocombustíveis e celulose soma novas pressões sobre florestas tropicais e pode empurrar biomas como a Amazônia para um ponto de ruptura.

O QUE ACONTECEU

Demanda por minerais críticos, biocombustíveis e celulose se junta a vetores já conhecidos de desmatamento. De acordo com o jornal britânico The Guardian, a análise cita a expansão de pecuária, monoculturas, petróleo e exploração madeireira como parte de um efeito acumulado.

Mineração tem impacto ambiental maior do que se estimava por efeitos indiretos. O estudo afirma que, além da área aberta, entram na conta poluição da água e a abertura de estradas, assentamentos e infraestrutura, com alcance que pode se espalhar por dezenas de quilômetros.

Autores defendem que a resposta não pode ser só trocar um produto por outro sem reduzir consumo. Ingrid Turgen, da Rainforest Foundation Norway, disse ao The Guardian: "Isso cria uma pressão que as florestas tropicais não conseguem suportar".

Relatório acompanha tendências de commodities na Amazônia, na bacia do Congo e no Sudeste Asiático. Turgen afirmou ao The Guardian que a mensagem central é que o acúmulo de pressões atinge os três grandes blocos de florestas tropicais e, sem ação de governos, "lugares como a Amazônia enfrentam um cenário bastante sombrio".

PECUÁRIA, OURO E PETRÓLEO SEGUEM COMO GRANDES VETORES

Pecuária, agricultura e mineração de ouro aparecem como as maiores ameaças e devem continuar crescendo. O relatório foi produzido pela organização de pesquisa holandesa Profundo, a pedido da Rainforest Foundation Norway, e projeta expansão desses setores.

Estudo estima que a alta prevista na produção de carne bovina no Brasil pode ampliar o desmatamento até 2034. A análise aponta uma previsão de aumento de 10,2% na produção de carne bovina e calcula que isso pode causar pelo menos 57.000 km² de derrubada no período, com risco de ser maior se a pecuária continuar migrando para a Amazônia.

Minas de ouro a céu aberto já ocupam 1,9 milhão de hectares do bioma amazônico, segundo o relatório. O texto também aponta correlação entre preço do ouro e desmatamento ligado à mineração na Amazônia brasileira e estima mais 375 km² de perda florestal até 2028 se a tendência recente continuar.

Exploração de petróleo, gás e carvão ganha peso na destruição das florestas, direta e indiretamente. O relatório descreve a Amazônia como uma das fronteiras fósseis que mais crescem, com atividades e projetos em países como Brasil, Suriname, Equador, Colômbia e Peru.

No Congo, a pressão também passa por novos blocos de petróleo em áreas sensíveis. O estudo cita que a República Democrática do Congo aprovou a exploração de 52 novos blocos que cobrem 1,24 milhão de km² nas turfeiras de Cuvette Centrale, descritas como o maior sumidouro terrestre de carbono do mundo.

TRANSIÇÃO ENERGÉTICA E CONSUMO "VERDE" TAMBÉM ENTRAM NA CONTA

Mineração de lítio, níquel e cobalto para baterias pode gerar desmatamento adicional, com efeitos secundários relevantes. Veera Mo, da Rainforest Foundation Norway, disse ao The Guardian: "Os impactos cumulativos da mineração em áreas florestais provavelmente foram subestimados de forma significativa por muitos anos".

Relatório estima que o desmatamento ligado à frota global de veículos elétricos pode ficar entre 1.500 km² e 4.700 km² até 2050. A análise ressalta que, embora isso represente uma fração do total projetado, minas podem afetar de forma desproporcional territórios indígenas e áreas de floresta mais preservada.

Setor de biocombustíveis pode estimular abertura de novas áreas agrícolas para soja, sebo, palma e etanol. O relatório calcula que seriam necessários 52 milhões de hectares adicionais de lavouras para atender a demanda global projetada para 2030 e estima que a soja voltada a biocombustíveis pode levar à derrubada de 31.600 km² a 35.000 km² de vegetação amazônica até 2035.

Produtos vendidos como alternativa "verde" também podem aumentar a pressão sobre florestas tropicais. O texto cita a fibra semissintética viscose (rayon), usada na moda rápida, e embalagens e sacolas de papel que nem sempre têm origem sustentável, além do crescimento do comércio eletrônico.

Autores defendem transparência em cadeias produtivas, fiscalização e redução de demanda nos países consumidores. Barbara Kuepper, autora principal do relatório, disse ao The Guardian: "Uma redução no uso de recursos não pode ser evitada. Não há dúvida de que a reciclagem é necessária, mas ela não vai ajudar o suficiente".

Para a autora, o volume total de consumo é o centro do problema, inclusive em setores ligados à transição energética. "O uso geral de recursos é grande demais", afirmou Kuepper ao The Guardian, antes de completar: "Mesmo em setores em que esperamos uma transição, como energia, o impacto sobre as florestas é preocupantemente alto".