Casarão em Ouro Preto (MG) com desenhos ligados a escravos é oficializado como sítio arqueológico

Por ARTUR BÚRIGO

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Um casarão na região central de Ouro Preto (MG) que abriga desenhos ligados a pessoas escravizadas foi registrado em março deste ano como sítio arqueológico pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Há no imóvel um painel com 26 registros já identificados e que podem ter sido feitos por diferentes gerações de escravos durante os séculos 18 e 19.

O sítio foi denominado de "Inscrições Afrodiaspóricas" pelo órgão federal, que afirma ser um bem de fundamental importância para a história da diáspora africana em Minas Gerais e no Brasil.

A propriedade fica na rua Conde de Bobadela (antiga rua Direita), tem mais de 250 anos e passou por vários proprietários até que o atual dono descobriu a parede durante uma reforma, em 2017.

Hoje, o espaço é preservado e segue normas de conservação do Iphan.

Doutorando em Arqueologia na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), o historiador Leonardo Klink desenvolve uma pesquisa voltada aos registros encontrados no casarão.

Ele afirma que atua no local com uma abordagem documental e que não causa intervenção ou dano à estrutura, inclusive para evitar estragos à espessura do painel, que varia de 1,5 centímetros a seis centímetros.

O pesquisador afirma que a própria argamassa usada no painel ?provavelmente produzida à época com fibras vegetais, restos animais, areia, cal e argila? foi aplicada para formar os desenhos.

Ele argumenta que o material não teria função arquitetônica, porque as construções do período eram feitas com pedras sobrepostas.

O espaço onde estão os registros era um porão, comum em casas da antiga Vila Rica, nome de Ouro Preto no período colonial. O ambiente era estreito, escuro, úmido e frio, com provavelmente 1,68m de altura.

Klink afirma, porém, que ainda não é possível determinar se o local funcionava como uma senzala, usada para alojamento ou tortura de escravos, ou se era um espaço pouco frequentado pelos proprietários da casa.

"Será que essas pessoas desenharam porque estavam obrigadas a estar ali ou elas utilizaram esse espaço que não era muito frequentado para fazer esses desenhos, e isso que conferiu a possibilidade de sobrevivência deles?", questiona Klink.

Os desenhos retratam elementos que as pessoas escravizadas tinham na memória, como vegetação, animais e estruturas arquitetônicas.

Ele diz ter identificado referências a símbolos da África Ocidental e também de outras regiões do continente. Em um dos casos, uma máscara desenhada em grafite apresenta fibras representando uma barba, uma tradição da região centro-ocidental africana.

"Dá para notar que são pessoas diferentes [que fizeram os desenhos]. Isso que o tráfico transatlântico fez, misturou várias pessoas, que passaram por um processo de ocultação de identidades", afirma o doutorando.

Outro indício de autoria diversa está nas técnicas utilizadas nas gravuras.

Em algumas delas aparece pigmento preto, associado à fuligem ou carvão. Em outras, há incisões que podem ter sido feitas com cacos de vidro, louças ou ossos de animais.

O pesquisador também lembra que a antiga rua Direita concentrava ofícios especializados, como mecânicos, ourives e pedreiros, o que pode explicar a precisão de parte dos traços.

Klink interpreta os registros como uma forma de preservação cultural, mas também como um gesto de contestação em um contexto no qual determinados símbolos e práticas não podiam ser expressos abertamente.

Ele afirma ainda que há forte presença de temas ligados à nostalgia, possivelmente associados ao luto provocado pela separação forçada de suas terras de origem.