Copan, 60, fica mais pop e pode virar centro cultural; restauro é desafio

Por PRISCILA MENGUE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A cineasta Carine Wallauer lembra o momento em que avistou o Copan pela primeira vez, há dez anos: foi um "maravilhamento" com aquele edifício desconhecido para uma gaúcha recém-chegada. No ano seguinte, quando se mudou para São Paulo de vez, sabia que queria se fixar ali, onde não apenas residiu, mas também registrou mais de 100 horas de conversas e descobertas.

O material deu origem ao documentário "Copan", que chega aos cinemas nesta semana. A estreia é uma das tantas celebrações ao edifício projetado por Oscar Niemeyer, que completa 60 anos da inauguração nesta segunda-feira (25).

A obra chega à marca em um momento de transformações e desafios. São muitos: outro síndico após mais de 30 anos do anterior; iniciativas de potencialização como polo cultural; diversos novos espaços de gastronomia, moda e bem-estar; aumento da circulação de hóspedes; e, ainda, tentativas de viabilizar a próxima fase do restauro da fachada.

Para Carine, o Copan é como um organismo vivo, e dos complexos. "Não é apenas um grande bloco de concreto. Nunca vai esgotar o quanto pode me inspirar", afirma.

Já a arquiteta e urbanista Sabrina Fontenele, professora da Escola da Cidade, descreve o edifício como representativo do que se almejava para São Paulo nos anos 1940 e 1950. Também representa um ideário de inspiração nova-iorquina, de grandes prédios multifuncionais. "O Copan não chega a ser uma cidade dentro da cidade, mas é quase um bairro", compara.

No Copan desde os anos 1980 e próximo de Affonso Prazeres, que morreu em dezembro, Guilherme Milani assumiu o posto de síndico após décadas na administração. A transição tem duas marcas que busca estabelecer: as áreas de marketing e cultura.

Pelo Copan Cultural, uma das estratégias é a reforma do foyer (espaço voltado basicamente a assembleias de condomínio), para que seja transformado em centro cultural e receba eventos artísticos, reuniões e gravações.

Outra proposta envolve a reabertura do terraço, fechado desde a pandemia. O objetivo é a instalação de guarda-corpos e a implantação de um palco removível, a fim de permitir a realização de pocket shows e mais atividades.

Já o braço de marketing é voltado à busca de recursos para a conclusão do restauro. Como o aval municipal para a veiculação de marca na fachada não foi suficiente para um patrocínio, há o plano alternativo para projeções com conteúdo dinâmico (como em um dos prédios da "Times Square" da esquina da avenida Ipiranga com a São João).

Segundo Milani, a restauração necessária para que a tela sobre a fachada seja retirada após 15 anos custa cerca de R$ 68 milhões, mas há discussões técnicas para reduzir o valor. Ele destaca que a subvenção de R$ 13 milhões obtida em edital da prefeitura garante cerca de 20%.

O novo síndico conta, ainda, que os 60 anos serão celebrados, mas em programação a ser definida. Também diz que o edifício terá campanha e decoração de Natal em 2026.

GALERIA PASSA POR TRANSFORMAÇÃO

Por anos com comércios e serviços buscados principalmente por moradores do prédio e do entorno, a galeria do Copan tem passado por uma paulatina transformação. Alguns lojistas antigos continuam, de salão a lojas de roupas, passando pelos conhecidos Café Floresta e locadora Vídeo Connection, mas grande parte deu lugar a novos espaços, voltados a um público mais jovem.

Há floricultura, estúdios de pilates, grife de chapéus, cafeterias, restaurantes de chefs premiados, cachaçaria, loja de queijos, uma sorveteria disputada com longas filas, a loja conceito da Rider e mais novidades dos últimos anos. Além disso, em maio, as vias internas do condomínio passaram a receber a feira Copan Urbano nos sábados e domingos.

Em meio às lojas, não é raro encontrar produtos com referências ao próprio Copan, quase como "souvenirs". O nome do edifício e sua fachada sinuosa estão em linha de bebidas da Cachaçaria SP, na estampa de camisetas da marca Korova, em fotografias à venda na galeria RenattodSousa e em outros espaços.

Outra mudança está em curso: a reabertura do Cine Copan. O espaço, que deixou de ser cinema nos anos 1990 e virou até igreja, foi comprado pela Viva do Brasil (do Instituto Brasileiro de Teatro, também no centro) e reabriu temporariamente para disputada temporada da peça "Hamlet".

O cinema será fechado em breve, para dar lugar a um complexo cultural em conjunto com a vizinha Galeria Pivô, instalada no Copan há 15 anos. A inauguração será em 2027.

A renovação no edifício também ocorre no mezanino, reformado após a compra por uma empresa especializada em retrofit e que o alugou para organizações que considerou mais alinhadas ao novo perfil do prédio: o Greenpeace e a plataforma de vendas Enjoei.

AIRBNB E VALORIZAÇÃO IMOBILIÁRIA

Não raro encontram-se pessoas circulando pelo Copan com malas. São os hóspedes de apartamentos transformados para pessoas que querem experimentar a vivência como moradores por alguns dias. Há até opções "premium", com banheira, projetor de filmes e outras regalias.

Essa mudança é um dos pontos de maior debate no condomínio, especialmente entre moradores. Ocorre em um contexto de valorização das unidades, com locatários "expulsos" pelo aumento de custo. A cineasta Carine, do documentário "Copan", precisou deixar o apartamento por esse motivo, quando era uma das duas únicas residentes fixas de um andar do bloco B (conhecido pelas quitinetes).

Idealizador da empresa Airbnb no Copan e responsável por mais de 100 apartamentos (a maioria de terceiros), Judson Sales conta que o negócio cresce cerca de 20% ao ano. E só não é maior porque se responsabiliza apenas por imóveis reformados e dentro de padrões estabelecidos. "Se não tivesse filtro, com certeza seriam uns 400", diz. Em 2025, foram 24 mil hospedagens.

À Folha o síndico Guilherme Milani avalia como positivo o saldo das hospedagens, porque há um canal de diálogo para resolver problemas com os anfitriões. Também argumenta que parte desses apartamentos antes ficava vazia.

Para Milani, as mudanças trouxeram valorização ao Copan, assim como reconhece o aumento no preço do aluguel. "O proprietário não pode reclamar. Quem procura aluguel pode ser que encontre oferta menor", avalia. Hoje, uma quitinete simples e em andar mais baixo custa pelo menos R$ 2.000 mensais (com o condomínio).

Sócia da imobiliária Refúgios Urbanos, Karen Siqueira conta que potenciais clientes aparecem em busca de apartamento no edifício quase todos os dias. "É um dos prédios mais desejados do centro. A arquitetura é um dos principais [motivos], mas acredito que outro fator relevante é que o Copan tem seu microcosmos", diz ela.

COPAN CHEGA ÀS LIVRARIAS

Com gosto por trazer espaços paulistanos reais em suas obras, o escritor e jornalista Victor Bonini conta que percebeu as complexidades do Copan especialmente no aniversário de 50 anos da inauguração, em 2016, ao visitar diversos ambientes para uma reportagem. As diferenças entre os blocos e o gigantismo da construção o impressionaram.

"É muito simbólico", conta ele, que lança o romance policial "Crime no Copan". Entre a primeira vez que visitou o prédio, em 2011, e o momento atual, Bonini percebe mudanças. "Era um lugar que remetia muito à época do meu avô, me sentia meio observador", conta. "Achei agora com um público mais jovem, que entendeu [o local] como um patrimônio de São Paulo", compara.

Já Carine buscou responder, em seu filme, a uma pergunta que muito ouviu: como é/era morar no Copan? Ela considera que o contato da maioria das pessoas com o prédio é superficial. "O filme traz um Copan para pessoas que só conhecem a fachada", resume.

Premiado no festival É Tudo Verdade de 2025, o documentário estreia nesta quinta-feira (28), com distribuição da Vitrine Filmes. Já o lançamento do livro é na terça-feira (26), pela Companhia das Letras, na Megafauna, localizada no próprio Copan.

60 | Copan