Primeira onda de calor do ano na Europa traz recordes de temperatura e morte

Por JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

BERLIM, ALEMANHA(FOLHAPRESS) - Feriado de Pentecostes em boa parte da Europa, a segunda-feira (25) foi marcada por recordes de temperatura no continente. Foi o dia mais quente para um mês de maio no Reino Unido, que registrou 33,5°C, superior aos 32,8°C alcançados em 1922 e 1944.

O Met Office, o serviço de meteorologia do país, havia previsto que a marca seria alcançada com tamanha segurança que emitiu um comunicado assertivo na véspera: "Hoje será o dia mais quente do mês de maio no Reino Unido... Normalmente, recordes são superados por décimos de grau Celsius, o que torna esta onda de calor sem precedentes para esta época do ano."

Sem precedentes também foi o comunicado desta segunda-feira de outro serviço nacional europeu. Na França, a meteorologia decretou alerta laranja em oito departamentos; nunca a segunda classificação de risco para ondas de calor havia sido emitida tão cedo no ano.

Em Paris, no domingo, com temperatura acima dos 30°C pela primeira vez nesta temporada, um participante de uma corrida de rua morreu. O clima quente provocou também dezenas de internações. Em postagem no X, a ministra da Saúde, Stéphanie Rist, lamentou o ocorrido e pediu prudência à população, "com muita hidratação e adaptação de horários e esforços".

A capital francesa havia registrado 31,9°C, e os meteorologistas dizem que a canícula deve se estender até o próximo fim de semana. Segundo a imprensa francesa, 299 recordes mensais de temperatura foram superados em todo o país apenas nesta segunda-feira. Em Soorts-Hossegor, na sudoeste do país, a marca chegou a 36,9°C.

Em Berlim, com temperaturas excepcionalmente altas, o Carnaval das Culturas, festa popular que reúne milhares, ganhou da imprensa local a descrição não metafórica de "um evento com calor brasileiro". O pico da semana na cidade está previsto para esta terça-feira, quando os termômetros podem superar os 30°C.

No país, a barreira já foi superada no sábado, em Heidelberg, que alcançou 31,5°C.

A Europa, continente que vem experimentando o aquecimento mais acelerado e cenário de uma onda de calor histórica no ano passado, está também esquentando cada vez mais cedo. Ondas de calor e temperaturas elevadas são eventos esperados para o auge do verão no hemisfério norte, em julho, não no meio de maio, como neste ano.

Em Portugal e na Espanha, a expectativa é que os termômetros superem os 38°C, com a repetição do domo de calor observado em 2025. O fenômeno ocorre quando um sistema de alta pressão se desenvolve na atmosfera superior. O ar abaixo dele desce e se comprime, elevando as temperaturas na atmosfera inferior. Como o ar quente se expande, uma cúpula se cria, retendo o calor em seu interior.

A partir disso, os efeitos colaterais do sistema se multiplicam. Ventos não conseguem deslocar as áreas de alta pressão devido à extensão das massas de ar quente, tornando-as quase estacionárias; o fenômeno facilita a ocorrência das chamadas noites tropicais, com temperaturas noturnas acima de 20°C, que impedem o resfriamento do solo.

Segundo estudo de atribuição do Imperial College de Londres e da London School of Hygiene & Tropical Medicine, a mudança climática provocada sobretudo pela queima de combustíveis fósseis foi responsável por 68% das estimadas 24.400 mortes provocadas pelo calor, no ano passado, na Europa.

O dado fez a União Europeia pressionar os países-membros por operações mais sólidas de prevenção e mitigação do calor. Na Espanha, por exemplo, ilhas de resfriamento estão sendo montadas em prédios públicos e privados que contam com ar condicionado. Áreas em shoppings e bibliotecas, por exemplo, são preparadas para receber pessoas vulneráveis, com estações de hidratação e descanso.

A providência, dizem as autoridades, é fundamental em países como Alemanha, Finlândia, Suécia e Dinamarca, cujas edificações em sua maioria não possuem sistemas de climatização.

Os últimos três anos foram os mais quentes da história, segundo o serviço Copernicus, da UE, assim como os últimos 11 também foram os com as maiores temperaturas já registradas. Neste 2026, também preocupa a ocorrência do El Niño, ainda que os especialistas prevejam seus efeitos para o fim do ano.