Onda de calor atinge nível crítico em França, Itália e Portugal; ONU fala de 'recado brutal' do aquecimento global

Por JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - A onda de calor que assola a Europa desde o fim de semana ganhou um personagem de peso, nesta quinta-feira (28). Jannik Sinner, primeiro do mundo, derreteu na quadra central de Roland Garros diante de Juan Manuel Cerúndolo, 56° do ranking. Sob um calor de estimados 33°C, o tenista italiano visivelmente esgotado cedeu a vitória ao argentino após abrir dois sets.

O colapso de Sinner, que não perdia a 30 partidas nesta temporada, talvez seja mais eloquente que o de Simon Stiell, secretário-executivo da UNFCCC (o braço climático da ONU), dado na véspera, sobre o "recado brutal" dos custos do aquecimento global. Em entrevista ao site Político, Stiell culpou o "vício mundial em queimar carvão, petróleo e gás e destruir florestas" pela canícula que atinge Europa com antecedência neste mês de maio.

Segundo o serviço de meteorologia de Portugal, o país registrou recorde de temperatura para esta época do ano, 40,3°C, verificados em Mora, no Alentejo. A marca anterior, em maio de 2001, era 40°C. Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, a atual onda de calor pode se tornar a mais longa e a mais intensa da história neste período.

Pouco depois, foi a vez do Météo-France anunciar outro recorde para a França nesta quinta-feira (28), 37,8°C em Angoulême-La Couronne, no noroeste do país. O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, reuniu seu gabinete para discutir medidas de emergência.

Na Itália, Roma, Bolonha, Florença e Turim entraram em alerta vermelho, "situação de emergência capaz de causar efeitos nocivos a pessoas saudáveis e ativas", explicou o ministério da Saúde.

Os termômetros dispararam em toda a Europa nos últimos dias. Londres encara marcas 16°C acima da média do mês. A situação não é muito melhor em outras grandes capitais do continente: Paris, 14°C, Berlim, 11°C, e Lisboa e Madri,10°C.

No Reino Unido, ao menos 9 pessoas morreram afogadas ou em acidentes relacionados à água, reflexo da alta procura por praias no Reino Unido. Na França, o número de óbitos relacionados ao calor chegou a 7 até terça-feira (26).

Especialistas apontam para a repetição do domo de calor observado em 2025. O fenômeno facilita a ocorrência das chamadas noites tropicais, com temperaturas noturnas acima de 20°C, que impedem o resfriamento do solo

"Ondas de calor no início da temporada são especialmente perigosas porque nossos corpos ainda não tiveram tempo de se aclimatar. Simulações estimam que poderemos ter mais de 250 mortes adicionais durante esta onda de calor apenas na Inglaterra e no País de Gales", afirmou Garyfallos Konstantinoudis, professor no Instituto Grantham de Mudança Climática e Ambiente.

A previsão do especialista parte de estudo realizado sobre a longa onda de calor do ano passado na Europa: dois terços das mortes relacionadas ao evento se devem ao aquecimento extra provocado pelas mudanças climáticas.

"Temperaturas dessa magnitude costumavam ser excepcionais, mesmo no auge do verão. Ver 35 °C no Reino Unido durante a primavera é absolutamente surpreendente, mas a ciência é muito clara: as mudanças climáticas tornam essas ondas de calor mais intensas, mais longas e muito mais frequentes", disse Friederike Otto, professora do Imperial College, de Londres.

Os últimos três anos foram os mais quentes da história, segundo o serviço Copernicus, da União Europeia, assim como os últimos 11 também foram os com as maiores temperaturas já registradas. Neste 2026, também preocupa a ocorrência do El Niño, ainda que os especialistas prevejam seus primeiros efeitos para o segundo semestre.

Embora a França deva registrar altas temperaturas até o fim de semana, vários eventos esportivos estão programados para Paris no sábado e no domingo, incluindo o Aberto da França, em Roland Garros, que abateu Sinner.

O governo deixou claro que cada organizador deve assumir suas responsabilidades. Duas pessoas que disputavam corridas de rua morreram no último domingo.