IBGE completa 90 anos com Censo 2022 inacabado, promessa de novas pesquisas e conflito interno

Por LEONARDO VIECELI

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) completa 90 anos nesta sexta-feira (29) em meio a um cenário de desafios na produção de estatísticas e de conflito interno entre a gestão do presidente Marcio Pochmann e parte do quadro de servidores.

Enquanto a direção fala em produzir novos levantamentos, como a coleta do 12º Censo Agropecuário, em 2027, e uma contagem inédita da população em situação de rua, em 2028, o órgão ainda não conseguiu publicar os microdados do Censo Demográfico de quatro anos atrás, relativo a 2022.

Os microdados são as informações mais detalhadas do recenseamento, permitindo análises minuciosas de questões socioeconômicas por acadêmicos e formuladores de políticas públicas.

O IBGE chegou a anunciar que faria a divulgação em dezembro do ano passado, mas voltou atrás. Até o momento, não há data confirmada para a publicação.

Procurada pela Folha, a gestão Pochmann afirmou por email que a liberação das informações é "prioridade institucional".

Conforme a presidência, os microdados serão divulgados quando estiverem "tecnicamente consistentes e devidamente protegidos do ponto de vista do sigilo estatístico", acompanhados de novos protocolos de confidencialidade compatíveis com a era da inteligência artificial.

O avanço da IA é citado como risco para identificação de informantes. "O desafio contemporâneo das estatísticas públicas não é apenas divulgar dados, mas fazê-lo preservando a confiança social e a integridade institucional", disse a presidência.

A edição anterior do Censo Demográfico é relativa a 2010, quando a IA não era uma realidade como é atualmente.

Naquele recenseamento, a publicação dos microdados foi prevista para dois anos depois, em 2012, conforme calendário disponível no site da pesquisa.

"O Censo 2022 não terminou ainda, porque a última etapa, o fechamento, é a divulgação dos microdados", afirma a demógrafa e pesquisadora independente Suzana Cavenaghi, ex-professora da Ence (Escola Nacional de Ciências Estatísticas), vinculada ao IBGE.

"É uma situação muito constrangedora. Quanto mais atrasar, mais as pessoas vão dizer que o Censo foi ruim, mas não é isso."

Conforme Suzana, é possível buscar tratamentos estatísticos para evitar a quebra de sigilo de informantes e garantir a publicação dos microdados.

Por exemplo, se a variável sensível à Lei Geral de Proteção de Dados é o detalhamento da renda em determinado local, em vez de divulgá-la, um eventual caminho seria disponibilizar as faixas de rendimento, aponta Suzana.

"Se o município é muito pequeno, você junta [estatísticas], divulga o dado que pode ser divulgado e os outros você agrega no nível mais alto."

SINDICATO DE SERVIDORES CRITICA DIREÇÃO

Na visão de Clician Oliveira, diretora do sindicato dos trabalhadores do IBGE, o Assibge, não ter um cronograma oficial de publicação dos microdados gera especulações e "desgasta" a credibilidade construída pelo instituto ao longo das décadas.

O caso, segundo ela, contraria as práticas recomendadas para a divulgação de estatísticas oficiais.

"E por que isso não sai? Não sei, ninguém sabe", diz. "Mas a gente está sofrendo muito com a rotatividade de servidores", acrescenta.

O sindicato tem travado embates com a gestão Pochmann desde 2024. O Assibge cobra maior participação dos servidores em decisões que afetam os rumos do instituto e reclama de medidas como exonerações de técnicos, vistas pela entidade como retaliações.

Um dos pontos que geraram o conflito a partir de 2024 foi o projeto de criação de uma fundação, a IBGE+, cujo estatuto abria margem para produção de trabalhos para o setor privado.

Essa fundação, apelidada pelos críticos de IBGE paralelo, não avançou após contestações dos funcionários. A proposta foi considerada irregular no início deste ano pelo TCU (Tribunal de Contas da União).

"O corpo técnico está sendo alijado de qualquer debate de constituição de projetos", afirma Clician.

PRESIDÊNCIA FALA EM RECONSTRUÇÃO

A Folha pediu à assessoria de comunicação do IBGE uma entrevista com Pochmann durante evento no Rio na segunda-feira (25), mas o órgão alegou incompatibilidade na agenda do presidente. As perguntas da reportagem foram respondidas por email.

Na manifestação, a presidência disse que o instituto vem percorrendo desde 2023 um "caminho inédito de diálogos frequentes e sistemáticos", com encontros nacionais de servidores, conferências e reuniões virtuais que teriam envolvido mais de 10 mil funcionários.

"O respeito à diversidade e à pluralidade, interna e externa, não significa ausência de conflito", afirmou a gestão do instituto.

"Infelizmente, a direção sindical rompeu com a atual gestão em 2024, após a publicação de portarias que regulamentaram o regime de trabalho e estabeleceram a presença dos últimos segmentos de servidores que ainda estavam ?após quatro anos? em regime 100% remoto em uma escala de apenas dois dias presenciais por semana", declarou, em outro trecho.

Com trajetória acadêmica e ligação com o PT, Pochmann assumiu o comando do IBGE em agosto de 2023, após indicação do presidente Lula (PT).

A gestão do economista afirma que o quadro é de reconstrução com modernização do órgão.

Ao ser questionada se o cenário do instituto é satisfatório ou não, a presidência disse que, após o "ataque às instituições públicas decorrente do golpe contra o legítimo mandato da presidenta Dilma Rousseff", o IBGE chega aos 90 anos como "uma das instituições públicas mais estratégicas da República brasileira".

"Enquanto parte do mundo mergulha na desinformação, o instituto segue como referência fundamental na produção de dados oficiais sobre o Brasil real."

Pessoas que atuam ou já trabalharam no IBGE relatam preocupação com manifestações da direção que se misturam com política.

"O IBGE é um órgão de Estado. Não pode ter um presidente que se posicione politicamente. Isso não existe, porque o IBGE perde credibilidade", diz o pesquisador Roberto Olinto, que fez carreira no instituto e presidiu o órgão de junho de 2017 a fevereiro de 2019.

Olinto afirma que a atual direção adotou "muita palavra grandiloquente" em seus discursos, mas há incerteza sobre o futuro da produção estatística.

"Nada é dito claramente", aponta o ex-presidente, que declara ver o cenário com "enorme preocupação".

Perfis contrários ao governo Lula usaram a turbulência no IBGE para levantar supostos riscos de manipulação de dados. A acusação é descartada com firmeza por pessoas que conhecem o instituto.

A avaliação delas é que, apesar do conflito, o corpo técnico continua alinhado a práticas recomendadas internacionalmente para a produção e a divulgação dos números, sem qualquer interferência na metodologia de pesquisas.

IBGE NASCEU NA ERA VARGAS

A instituição teve origem na criação, em 1934, do INE (Instituto Nacional de Estatística). O INE, porém, só foi oficialmente instalado pelo presidente Getúlio Vargas em 29 de maio de 1936.

Como essa data marcou o início das atividades, serve de referência para o aniversário. No ano seguinte, foi instituído o Conselho Brasileiro de Geografia, incorporado ao INE, que passou a se chamar, então, IBGE.

O órgão produz levantamentos diversos, incluindo a contagem da população no Censo Demográfico e indicadores fundamentais para a economia, como o índice oficial de inflação do país (IPCA), o PIB (Produto Interno Bruto) e a taxa de desemprego.

Outra publicação aguardada é a da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) 2024/2025. A divulgação terá início em novembro deste ano, segundo a direção do instituto. Em 2024, o órgão chegou a prever a disponibilização dos dados a partir de meados de 2026.

A POF investiga as despesas das famílias e é base para a atualização da cesta de produtos e serviços pesquisados no índice de inflação. A direção atual fala em criar uma "POF Contínua", com divulgação mais rápida do que o levantamento anual.

"Trata-se de uma mudança de patamar do Estado brasileiro. O IBGE não pode medir a vida das famílias apenas após longos intervalos de tempo, como se o custo de vida fosse imóvel", diz.

A edição mais recente da POF com dados disponíveis é relativa a 2017 e 2018.