Em experimento, mosquitos Aedes aegypti aprendem a gostar de repelente

Por ANA BOTTALLO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em um experimento, fêmeas do Aedes aegypti aprenderam a aceitar um repelente químico e desenvolveram uma preferência pelo sangue de vítimas que usaram o produto. O estudo, conduzido por pesquisadores da universidade françesa de Tours e da americana Virginia Tech, saiu nesta quinta (28) na revista Journal of Experimental Biology.

No teste, 6 em cada 10 fêmeas treinadas previamente mostraram resposta de tentativa de mordida nas mãos dos pesquisadores cobertas de repelente à base de DEET (N-dimetil-meta-toluamida ou N,N-dietil-3-metilbenzamida). Isso indica um processo de aprendizado que tornou a substância apetitosa, em vez de repulsiva.

O entomólogo Claudio Lazzari, professor da universidade francesa e pesquisador visitante da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) de 2013 a 2015, liderou o experimento.

Ele destacou que, do ponto de vista prático, o DEET continua sendo o repelente padrão-ouro. Com isso, os achados não devem ser interpretados como um salvo-conduto para abandonar medidas de proteção individuais, sobretudo em áreas de alta circulação de doenças transmitidas por mosquitos. O Aedes aegypti é transmissor de doenças como febre amarela, dengue e chikungunya.

Além disso, o estudo ocorreu em condições controladas de laboratório e não sugere que mosquitos selvagens estejam adquirindo resistência ao DEET no ambiente real.

O DEET é o principal composto utilizado em repelentes ao redor do mundo. Desenvolvido na década de 1940, é considerado o padrão-ouro de proteção individual contra mosquitos.

Embora seu mecanismo de ação ainda seja debatido, ele atua como um repelente químico. O DEET evapora após um tempo de exposição, produzindo um ar potencialmente tóxico para os pernilongos.

Para testar se o DEET era um composto repelido de maneira inata pelos pernilongos, Lazzari e equipe forneceram a um grupo de fêmeas de Aedes pequenas quantidades de sangue enquanto eram expostas ao composto químico. Outro grupo foi apresentado a uma solução açucarada.

Depois, os animais eram expostos novamente ao repelente, desta vez na mão de um pesquisador. As fêmeas treinadas anteriormente com o sangue repleto de DEET passaram a preferir a mão humana com o composto ?o contrário das fêmeas do mosquito sem treinamento.

Os resultados sugerem que a resposta ao repelente talvez não dependa apenas da interação química entre a molécula e os receptores sensoriais do inseto, mas também da experiência acumulada pelo animal. Ou seja, o significado biológico daquele odor pode mudar.

A ideia representa uma mudança de perspectiva em uma área de pesquisa que, nas últimas décadas, concentrou esforços em entender quais receptores neurais detectam o DEET e como essa detecção ocorre.

"Por muito tempo, acreditou-se que o mecanismo de ação dos repelentes era exclusivamente devido às suas propriedades químicas: ou por serem tóxicos, ou por bloquearem a capacidade [dos mosquitos] de detectar humanos. No entanto, nossas descobertas sugerem que essa reação pode ser modificada pela experiência", disse Lazzari.

Segundo os autores, os dados levantam perguntas relevantes para estratégias de proteção individual. Uma delas é se mosquitos que tiveram contato prévio com concentrações mais baixas do repelente poderiam alterar seu comportamento em situações futuras.

"Em outras palavras, o comportamento de um inseto pode ser influenciado tanto pelo que ele aprendeu quanto pela própria substância química. Acreditamos que isso represente uma mudança significativa em nossa compreensão sobre repelentes, trazendo evidências de que os repelentes atuam na estimulação da mesma via sensorial de compostos de plantas", explicou Lazzari.

"Ainda não entendemos completamente como os repelentes funcionam, e essa é uma informação importante para orientar a busca por novas substâncias", diz o pesquisador. "Estamos trabalhando com colegas da Argentina no desenvolvimento de novos repelentes, com base no que se sabe sobre a biologia sensorial, o comportamento e as habilidades cognitivas dos mosquitos. As descobertas do estudo pavimentam o conhecimento básico necessário para termos sucesso em nossas buscas."