Fibras e alimentos fermentados tornam-se aliados da saúde mental

Por DANIELLE CASTRO

RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - Estudos internacionais publicados nos últimos cinco anos têm confirmado que a saúde digestiva pode revolucionar a forma como tratamos problemas de saúde mental.

Pesquisadores turcos recentemente constataram que alimentos fermentados ?como kefir, iogurte, kombucha, missô e tempeh? afetam o eixo intestino-cérebro, gerando uma "neuroproteção" e a consequente redução de quadros de ansiedade e depressão.

Em publicação feita em março, os autores relatam que a transformação microbiana dos compostos fenólicos desses alimentos atuam diretamente no sistema nervoso, impactando "o estresse oxidativo e o equilíbrio de neurotransmissores".

O artigo aponta que essas reações afetam também a cognição, e ajudam na desinflamação cerebral e na melhora de disfunções do eixo Hipotálamo-Pituitária-Adrenal (HPA), que rege as respostas ao estresse.

Outro estudo, feito na Coreia do Sul e divulgado em janeiro, analisou cerca de 21 mil participantes adultos e mostrou que quanto maior o consumo regular de vegetais e derivados de soja fermentados, menor a prevalência de sintomas depressivos e ideação suicida. De acordo com os autores, alimentos ricos em bactérias do ácido lático (Lactobacillus) exercem efeitos antidepressivos através de vias de modulação da serotonina e dopamina.

Também no começo do ano, pesquisadores iranianos detalharam como a comunicação bidirecional (neurais, hormonais e imunológicas) mediadas pelo nervo vago e por metabólitos bacterianos afetavam distúrbios de humor. A análise destaca o papel das fibras dietéticas como estimulantes da produção de neuroprotetores e, para os autores, os achados confirmam a necessidade de transição da nutrição genérica para a personalizada, baseada no microbioma único de cada indivíduo para tratar distúrbios de humor.

A nutricionista Fabiana Poltronieri, diretora da Asbran (Associação Brasileira de Nutrição), diz que, embora possa ser estranho "pensar no intestino como um ?segundo cérebro?", isso faz todo sentido. "O nosso sistema digestório está ligado ao Sistema Nervoso Central (SNC)", afirma.

Por meio de uma comunicação conhecida como eixo intestino-cérebro, o intestino é comandado pelo Sistema Nervoso Entérico (SNE), que está dentro do trato gastrointestinal, e funciona de forma autônoma. "A junção entre o SNC e o SNE recebeu o nome de conexão cérebro-intestino. Os benefícios do consumo de fibras e alimentos fermentados na saúde mental, portanto, passam obrigatoriamente pelo eixo", explica Poltronieri.

A nutricionista lembra que a ingestão de fibras e bióticos é importante para o organismo porque "esses alimentos funcionam como ?substrato? dos microorganismos que habitam o intestino, a microbiota."

Conforme a médica Renata Cortella, pós-graduada em avaliação metabólica e nutricional, "o microbioma intestinal é um regulador crítico da imunidade".

Segundo Cortella, cerca de 70 a 80% das células imunes do corpo residem no intestino. "O microbioma treina o sistema imune para distinguir entre patógenos prejudiciais e antígenos inofensivos, e produz ácidos graxos de cadeia curta que regulam células e reduzem inflamação", afirma Cortella.

O impacto sobre a saúde mental também é confirmado. "Estudos mostram que o transplante de microbiota fecal de pacientes deprimidos para animais livres de germes pode transferir comportamentos semelhantes à depressão", destaca a médica, citando o modelo publicado em 2019 por autores irlandeses.

As evidências científicas dão respaldo à recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde), que sugere o consumo diário mínimo de 400g de frutas, legumes e verduras por indivíduo.

Poltronieri alerta, porém, que não basta apenas ingerir as quantidades corretas de fibras para resolver todas as questões de saúde mental. É preciso ter hábitos de vida saudáveis como prática de exercícios, socialização adequada, boas noites de sono e atenção às comorbidades e questões genéticas.

"Há uma combinação de fatores que determinarão a saúde como um todo, mesmo considerando o papel fundamental da saúde intestinal", diz a nutricionista.

Cortella destaca também a necessidade de variedade no prato para melhoria real de parâmetros metabólicos. "Dietas com maior diversidade de alimentos vegetais estão associadas à maior diversidade de microbiota intestinal, aumento de bactérias produtoras dos ácidos graxos de cadeia curta e redução de marcadores inflamatórios", diz Cortella.

A alimentação saudável com fibras não se restringe a apenas folhas, mas deve incluir cereais integrais, leguminosas, frutas, oleaginosas, hortaliças, raízes e sementes. "É importante a regularidade no consumo desses alimentos, não apenas uma quantidade pontual. Esses compostos bioativos podem ser facilmente acessados com uma alimentação baseada no que compramos na feira", diz.

Poltronieri acrescenta que a compreensão dos mecanismos que integram microbiota, genética e sistema imune "pode representar uma nova perspectiva para terapias personalizadas e intervenções preventivas", avalia.