Entenda por que meninos e homens devem falar sobre menstruação
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Ursula Maschette, psicóloga especialista em promoção da saúde menstrual, ouviu sobre o assunto pela primeira vez em uma aula de gênero durante mestrado na UCL (University College London). "Eu não entendia e não conhecia nem meu próprio ciclo, não sabia como isso funcionava", diz.
A surpresa foi tanta que este virou o tema de sua tese. Ela pesquisou em uma escola do Paraná como as meninas aprendiam sobre menstruação. "E elas aprenderam como eu: conversando com as amigas."
Durante as entrevistas, porém, apareceu uma demanda inesperada. As garotas falavam sobre as dúvidas que tinham com outras meninas, mas o assunto não se esgotava ali. Elas mostravam necessidade de conversar também com os meninos.
Nesta quinta-feira, 28 de maio, data em que se celebra o Dia da Dignidade Menstrual, especialistas, ativistas e jovens se reuniram em um seminário promovido pelo Instituto Alana, em Brasília, para debater saúde menstrual.
Durante o evento, em uma discussão sobre como meninos e meninas podem conversar juntos sobre o tema, garotos de 13 a 15 anos contaram que nas suas escolas os dois gêneros foram separados durante aulas sobre saúde sexual.
O grupo dos meninos, de um lado, aprende como usar preservativos; do outro lado, as meninas falam sobre absorventes. Um dos garotos contou que a única vez que teve contato com menstruação foi aos 5 anos, quando viu o sangue da própria mãe.
Estudo publicado nesta semana pelo Alana em parceria com o Equidade.info mostra que 36,8% dos meninos dizem não pensar muito no tema da menstruação -entre as meninas, são 19,7%. Além disso, 23,7% deles dizem acreditar que o período pode atrapalhar a escola ou a prática de esporte; entre elas, 41,2%.
Uma adolescente de 16 anos contou que ela e as amigas não têm confiança para falar sobre estar menstruada ou com cólica na frente dos meninos de sua escola em Maceió, Alagoas. As aulas sobre sistema reprodutivo, afirma, abordaram a questão de forma técnica e superficial. Ela disse que sua própria geração é "muito preconceituosa" e que os meninos não têm interesse nas questões femininas porque afirmam que a mulher é inferior e que as dores que sentem são "psicológicas".
Lenita Pires, 19, disse que ignora as piadas machistas, mas que não deixa de estranhar o modo como os meninos parecem confortáveis ao falar publicamente sobre assuntos como o tamanho do pênis, enquanto elas precisam esconder que estão menstruadas.
"Se você pedir um absorvente, a amiga passa como se estivesse passando um saquinho de droga no meio da aula ou em qualquer ambiente em que estiver. É sempre assim: por debaixo da mesa, coloca no bolso rápido por dentro da blusa porque ninguém pode ver."
A escola, diz Ursula, acaba reproduzindo o mito de que os meninos são muito imaturos para ter uma conversa sobre menstruação. "Isso é uma necessidade de diálogo de gênero que ficou muito clara na pesquisa", diz a especialista em promoção da saúde menstrual.
Para o médico Felipe Fortes, especialista em saúde do adolescente da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), a lógica que separa os universos por gênero constrói desde cedo uma hierarquia.
Os especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que o silêncio sobre o tema tem consequências que impactam a vida na escola, as relações afetivas e o mercado de trabalho, bem como a própria saúde. Estigma, pobreza menstrual, falta de dados sobre o tema, atraso de diagnósticos em casos mais graves e invisibilização da dor menstrual são algumas consequências.
A Política Nacional de Dignidade Menstrual foi instituída apenas em 2023 e, segundo órgãos do governo, as meninas ainda enfrentam dificuldade para acessar absorventes gratuitos; nas escolas, elas não têm acesso a estruturas adequadas.
Debates sobre o impacto da dor menstrual também são raros no Congresso Nacional. Uma proposta que garante licença menstrual de até dois dias por mês foi aprovada em 2025 na Câmara e ainda precisa passar pelo Senado.
O problema, entretanto, é de todo mundo, diz o médico Omero Poli Netto, professor de ginecologia do departamento de Ginecologia e Obstetrícia da USP (Universidade de São Paulo) Ribeirão Preto.
"Eu não sou mulher, não sou homem trans, não menstruo, não tenho cólica e nunca terei. Então é muito difícil fazer uma medida do que o outro sente", afirma o especialista em endometriose. Ele diz, porém, que entender isso é essencial para acreditar nos relatos de meninas e mulheres.
Ele faz uma analogia com hipertensão. Nem todas as pessoas são hipertensas, mas elas sabem o que é pressão alta e respeitam quem passa mal. A condição também é uma questão de saúde pública, ou seja, há recursos para acompanhá-la, uma vez que é fator de risco para doenças cardiovasculares, por exemplo.
De acordo com pesquisa publicada no periódico The Lancet, da qual Poli Netto é coautor, a cólica menstrual é um dos principais fatores de risco para dores crônicas. Ainda assim, diz, não é levada em consideração por profissionais de saúde.
Para ele, o diagnóstico de dor crônica depende de escuta, não de exame de imagem. "Você tem dor? Tem. Ela se repete? Sim. Te atrapalha? Sim. Pronto, você tem o diagnóstico." Mas na prática não é isso que acontece, ele acrescenta, e a mulher leva 12 anos para ser ouvida, aceita e acolhida.
"Quando a gente ridiculariza ou minimiza as mulheres, de alguma forma estamos invisibilizando mais ainda a condição", afirma o médico sobre o papel dos homens.
Entre as sugestões das meninas entrevistadas por Ursula no mestrado sobre promoção da saúde menstrual estão: que elas aprendam sobre menstruação antes de menstruar; que os meninos também aprendam; que os pais falem sobre o assunto; que a escola ensine; e que o governo faça campanhas sobre o tema dirigidas a todos.
*A jornalista viajou a convite do Instituto Alana para o seminário 'Ser menina não deveria doer: saúde menstrual, endometriose e proteção da infância'