Astrologia é pseudociência e não deveria estar no dia a dia das pessoas, diz novo livro

Por RAMANA RECH

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A astrologia deveria estar em museus e livros de história, não no dia a dia das pessoas. A avaliação é de Carlos Orsi, 55, autor do livro "What Science Says About Astrology" (o que a ciência diz sobre astrologia), lançado neste mês em inglês nos Estados Unidos.

Em experimentos, o número de vezes em que a astrologia se mostrou certa foi equivalente ao que seria observado se uma pessoa chutasse todas as respostas, segundo a obra -ainda sem previsão de lançamento em português.

"As pessoas começam a tomar decisões que têm consequências importantes, graves, baseadas em informações que, no fim, são falsas", diz o jornalista, diretor de comunicação do Instituto Questão de Ciência (IQC).

No último século, o surgimento da estatística moderna e o dos computadores permitiram a ampliação dos experimentos com astrologia.

Um dos testes mais robustos foi conduzido em 2007 pelo David Voas, hoje professor de ciências sociais da University College London. Ele avaliou se alguns signos teriam maior compatibilidade amorosa.

O pesquisador examinou dados de 20 milhões de pessoas, obtidas no censo de 2001 da Inglaterra e do País de Gales. Como não havia consenso na literatura astrológica sobre quais signos eram compatíveis, o pesquisador optou por identificar se algum par de signos se casa com maior ou menor frequência do que aconteceria pelo acaso.

O resultado inicial demonstrou que havia 22 mil casais extras em relação ao que seria se os casais fossem sorteados ao acaso que compartilhavam do mesmo signo.

Chamou a atenção do cientista, porém, que o número de casais com a mesma data de aniversário também era maior do que o esperado. Ele descobriu que a forma como os dados eram coletados foi responsável por causar tal efeito.

O censo havia sido respondido por um dos membros da família, que, por esquecimento ou descuido, pode ter preenchido errado a data de aniversário do cônjuge.

Ao descontarem esse efeito, os pesquisadores não conseguiram observar qualquer tendência entre compatibilidade de signos.

PEOTÓTIPO D CIÊNCIA

"A astrologia, porque ela tem essa coisa gráfica dos mapas astrais, dos ângulos e fala em estrelas e planetas e forças, tem uma retórica que pode se aproximar da científica", diz Orsi.

O autor reconhece que a astrologia tem uma importância histórica. Ela surgiu na Mesopotâmia e era adotada para prever questões de Estado, como guerras e pragas. Mais tarde, passou a ser usada também para questões biográficas individuais. O mais antigo horóscopo pessoal do qual se tem conhecimento data de 410 a.C. na Babilônia.

A astrologia teria sido uma das primeiras tentativas da civilização de fazer ciência. Os astrólogos ficavam a observar e registrar o que se passava no céu. Depois, tentavam interpretar os dados e aplicá-los ao dia a dia das pessoas. "Isso são coisas que a ciência faz", diz Orsi. "O problema é que ela [astrologia] era um projeto errado."

QUAIS SÃO OS PREJUÍZOS?

No livro, Orsi afirma que a astrologia está ligada a uma forma de pensar que minimiza o papel da lógica, da evidência e do pensamento crítico, deixando pessoas vulneráveis à manipulação e à exploração.

Além de motivar decisões importantes com base em afirmações falsas, a astrologia tem propiciado o surgimento de formas de discriminação.

Em um estudo publicado em 2020, 800 voluntários na China receberam cópias de um currículo para avaliar se contratariam ou não a pessoa descrita.

Alguns explicitavam o signo do candidato -o que não era incomum no país durante a aplicação do teste--, enquanto outros mencionavam apenas a data de aniversário. Com exceção desses pontos, as demais informações eram iguais em todos os currículos.

Os que explicitavam que o candidato era de virgem, signo mal visto na China, receberam uma intenção de contratação significativamente menor do que os demais.

No ocidente, também há casos de recursos humanos que pedem informações ligadas ao signo para candidatos. A astróloga de negócios Cinzia Biondi disse ao jornal americano The Wall Street Journal em reportagem citada pelo livro que o uso de astrologia na contratação de pessoas "está longe de ser comum, mas é mais frequente do que as pessoas imaginam".

POR QUE A ASTROLOGIA É TÃO POPULAR?

O britânico Richard Harold Naylor é apontado no livro como um dos responsáveis por popularizar a astrologia no século 20. Ele escreveu uma análise sobre a princesa Margaret, recém-nascida, no jornal Sunday Express em 1930.

Ele fez uma previsão esperançosa de que a princesa se casaria "de forma bastante repentina", "mas como resultado de um relacionamento de longa data". Não houve menção ao que aconteceu na vida real: ela foi impedida de se casar com quem realmente gostava e acabou em uma relação marcada por escândalos e infidelidade, destaca o livro.

Naylor também fez a vaga previsão de que quando a princesa tivesse sete anos, em 1937, aconteceria um evento de extrema importância da família real. Um ano antes, em 1936, o pai de Margaret, George 6º, tornou-se o rei da Inglaterra. Isso garantiu a Naylor uma grande reputação como astrólogo.

Para Orsi, na astrologia, os acertos tendem a ser supervalorizados e os erros, descontados. Ele lembra que, a partir de certo número de previsões, o astrólogo tende a acertar algumas por questões de chance, não em razão da influência dos corpos celestes.

Mas, segundo o autor, as pessoas estão suscetíveis ao viés de confirmação, uma tendência humana de testar proposições buscando evidências que as confirmem.

Para verificar esse efeito na astrologia, o pesquisador britânico Geoffrey Dean, também citado no livro, distribuiu mapas astrais com interpretações contrárias ao que diziam as versões originais.

Por exemplo, se o mapa astral com os dados corretos dissesse que a pessoa era irritadiça, ela receberia uma versão que a descrevia como calma. As leituras invertidas foram aceitas 97% das vezes.

Na visão de Orsi, ainda como na Mesopotâmia, a astrologia resulta em uma sensação de controle sobre o futuro e supre a intolerância e a incertezas dos humanos.

Segundo o autor, hoje as pessoas utilizam a astrologia também como forma de autoconhecimento e de se conectar com o Universo sem se comprometer com alguma religião. Mas no longo prazo, diz Orsi, a tendência da astrologia é trazer mais problemas do que eventuais resoluções.

What Science Says About Astrology

Preço US$ 26, brochura; US$ 110, capa dura; US$ 25,99, e-book (232 págs.)

Autoria Carlos Orsi

Editora Columbia University Press