Clã comanda 2 prefeituras em AL e desvia verba da educação para trator e arena de vaquejada

Por PAULO SALDAÑA

ALAGOAS (FOLHAPRESS) - A família do político Arnaldo Higino, que controla dois municípios do interior de Alagoas, usa dinheiro da educação para pagar agrotóxicos, manutenção de carros particulares, obras fantasmas e até reforma de uma arena de vaquejada privada.

Escolas municipais das cidades de Campo Grande e Olho D?Água Grande enfrentam infraestrutura precária. Os salários dos professores, congelados desde 2024, estão 50% abaixo do piso nacional.

Mesmo sem obras em escolas, empresa de construção consome milhões do Fundeb, principal mecanismo de financiamento da educação básica. Ônibus escolares circulam em condições precárias, enquanto, no papel, recursos são gastos em manutenção.

Os desvios aparecem em extratos do Fundeb, em mais de 30 notas fiscais e relatos obtidos pela reportagem, que esteve nas cidades. Valores identificados pela reportagem somam ao menos R$ 6 milhões em cinco anos.

A família Higino é uma dinastia no agreste alagoano: controla Campo Grande por mais de duas décadas e, em 2021, passou a dominar Olho D'Água Grande. As cidades vizinhas estão a cerca de 160 km de Maceió.

Arnaldo foi eleito prefeito de Campo Grande pela primeira vez em 1992 e, desde 2005, deixa o cargo apenas para parentes. Em 2017, foi preso sob suspeita de receber propina. O sobrinho Teo Higino (PSB) é o atual prefeito de Campo Grande, e a mulher de Arnaldo, Suzy Higino (PP), governa Olho D'Água Grande pelo segundo mandato.

A reportagem procura todos desde 12 de maio por email e telefone. A reportagem também esteve presencialmente nas prefeituras e secretarias de Educação das duas cidades, mas não houve resposta.

O pai de Arnaldo, Evânio Higino, dá nome ao Parque de Vaquejada em Campo Grande. O espaço fica na entrada de uma das fazendas da família, com 700 das quase 20 mil cabeças de gado do grupo. Evânio Higino também é o nome de uma escola municipal que adiou o início do ano letivo por falta de carteiras.

Enquanto a quadra da escola Evânio Higino está interditada há pelo menos dois anos, com telhado destruído, o Parque de Vaquejada Evânio Higino, de propriedade da família, recebeu cobertura nova na arquibancada neste ano.

As melhorias para a vaquejada foram custeadas com dinheiro do Fundeb das duas cidades. A obra terminou em março, a tempo de receber uma competição, que deu R$ 380 mil em prêmios.

Em 23 de janeiro, as prefeituras pagaram a uma loja de materiais de construção de Arapiraca por 108 vigas metálicas perfil U e outros itens de serralheria. Cada aquisição, de R$ 8.000, saiu do fundo de Educação dos municípios com pouco mais de uma hora de diferença: às 16h33, de Olho D?Água Grande, e às 17h50, de Campo Grande.

Dias depois, as despesas apareceram nos extratos do Fundeb. Nenhuma das cidades registra reformas ou obras de escolas.

A Folha visitou o parque de vaquejada em 11 de maio e constatou a nova cobertura com vigas perfil U. Outro prédio no local aguarda cobertura e várias vigas estavam no chão, à espera de instalação.

Um dos responsáveis pela obra, sob anonimato, confirmou a compra dos materiais nas lojas Luminex e Aço Líder ?as mesmas descritas nos extratos do Fundeb e notas fiscais.

Duas compras idênticas, de R$ 7.840 cada uma, foram registradas em 10 de fevereiro com dinheiro da educação das duas cidades. O material incluía telhas galvalume, tinta e vigas perfil U ?material usado na arena de vaquejada que faz falta na quadra da escola de mesmo nome.

O Fundeb pagou ao menos R$ 53,8 mil nessas duas lojas desde 2021. Não há indícios de irregularidade das lojas, que não responderam à reportagem.

A reportagem teve acesso a cinco notas fiscais de agrotóxicos pagos com dinheiro da educação. Em 2 de julho de 2025, Olho D?Água Grande pagou R$ 2.280 por 20 litros do herbicida Preciso XK. O Roundup Glifosato, da Monsanto, foi comprado em abril e julho de 2024. Em fevereiro do ano passado, uma compra de R$ 5.010,70 incluiu lonas para silo.

Três lojas de produtos agropecuários receberam R$ 222 mil do Fundeb de ambas prefeituras.

Há ainda compras com dinheiro da educação de brita, equipamentos e pneus para Hilux (carros usados pela família) e peças de tratores. Em 9 de setembro de 2025, por exemplo, peças para tratores no valor de R$ 9.142,80 foram adquiridas em Arapiraca também com divisão entre as duas cidades. Uma nota saiu às 11h04, e outra, às 11h35.

A unidade da loja Nascimento Tratores vende apenas peças para tratores, conforme confirmado no local. Os extratos do Fundeb mostram R$ 105 mil pagos, em geral classificados como manutenção de transporte escolar. A legislação proíbe gastos do Fundeb em obras de infraestrutura, e relatos feitos à Folha indicam que os tratores são usados nas fazendas da família.

A escola rural Apolinario G. dos Santos fica a menos de 15 minutos do centro de Campo Grande. Sem pátio ou portão, possui duas salas, uma pequena cozinha e dois banheiros. Alunos de séries diferentes estudam na mesma turma por falta de professor e espaço.

"Precisamos de reforma para garantir um ambiente mais atrativo, melhorar salas, a cozinha. E as crianças não têm espaço de recreação", diz a professora Edivânia de França, 50, diante de uma lousa deteriorada. Uma parede da unidade ameaça cair. "Não sinto segurança para as crianças aqui."

Com 28 anos de docência, Edivania recebe R$ 3.640 por mês. O piso nacional é R$ 5.130,63.

"Provavelmente nós temos os menores salários do estado, e um dos piores do Brasil", afirma Ivan Ponciano, presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de Campo Grande. Segundo ele, a negociação não é feita com os prefeitos, mas com Arnaldo Higino.

Em Olho D?Água Grande, a reportagem encontrou, em dia letivo, duas escolas fechadas por volta das 10h30, na comunidade de Ponta da Serra. "Aqui não tem horário para entrar ou sair. Às vezes falta professor, às vezes merenda", diz Erica Santos, 30, mãe de dois alunos da escola André Lima.

Na escola Cleonice Claudino, no mesmo povoado, parte do teto de uma saleta que funciona como secretaria e depósito de livros caiu.

Uma construtora recebeu R$ 452 mil do Fundeb de 2025 a março deste ano. Desde 2021, as contas do fundo das duas cidades enviaram para a Construtora Ambiental R$ 4,97 milhões. Desse total, R$ 3,1 milhões foram de Olho D?Água Grande. Não há registro de contrato da educação com a empresa.

O endereço da empresa é uma casa de Arapiraca onde funcionam outras três firmas. Quando a Folha esteve no local, não havia ninguém. O dono, Jean Carlos de Oliveira e Silva, não quis responder aos pedidos de esclarecimentos.

O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) afirmou que a fiscalização cabe aos órgãos de controle. O Tribunal de Contas de Alagoas foi procurado, mas não respondeu.