Greve tem motivação eleitoral e extrapolou pautas universitárias, diz reitor da USP
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O reitor da USP, Aluísio Segurado, afirma que ceder às demandas estudantis dificilmente teria encerrado a greve em vigor na universidade desde abril. Para ele, a mobilização está ligada a interesses eleitorais no estado, não apenas à insatisfação dos discentes.
Segundo o professor, em seu primeiro semestre como mandatário, essa percepção surgiu ainda nas primeiras rodadas de negociação, quando já havia sido anunciada uma manifestação até o Palácio dos Bandeirantes. O ato foi organizado por entidades estudantis para pressionar o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) por mais investimentos no ensino superior público de São Paulo.
"No dia 19 de abril, quando as demandas estudantis estão sendo trazidas, já me dizem que o movimento tem que estar mobilizado para, no dia 20 de maio, marchar até o Palácio dos Bandeirantes", afirmou à Folha de S.Paulo. "Fiquei com a sensação de que quaisquer coisas tratadas ao longo dessas conversas dificilmente levariam a uma interrupção [da greve]."
Nesse contexto político, avalia Segurado, o movimento extrapolou pautas ligadas à vida universitária e passou a incorporar reivindicações alheias à administração da USP, como o fim da escala de trabalho 6x1 e manifestações relacionadas ao conflito entre Israel e Palestina.
O reitor também criticou a condução da greve, dizendo ver seus integrantes mais próximos da militância partidária do que da representação estudantil. "Nunca vi uma dessas lideranças portando uma camiseta da USP ou da sua faculdade. Eles sempre portavam camisetas de movimentos apoiados em partidos."
AS NEGOCIAÇÕES PELO AUXÍLIO PERMANÊNCIA
A greve já chega à sua sexta semana, acumulando diversos protestos, invasão da reitoria e ação truculenta da Polícia Militar para desocupar o prédio. O principal ponto de conflito segue sendo o valor das bolsas Pafpe (Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil).
Os estudantes reivindicavam a elevação do benefício ao valor do salário mínimo paulista, atualmente em R$ 1.804. Depois, reduziram a demanda para R$ 1.096.
Segurado afirma que a universidade chegou a seu limite ao oferecer elevar o pagamento de R$ 885 para R$ 912 mensais, fazendo a correção inflacionária acumulada desde 2022 pelo IPC-Fipe.
Questionado sobre críticas de que a USP possui reservas financeiras suficientes para ampliar investimentos em permanência estudantil ?argumento, inclusive, citado pelo governador Tarcísio de Freitas?, Segurado respondeu caber à universidade decidir onde aplicar seus recursos.
A instituição, com orçamento de R$ 9,41 bilhões apenas para 2026, investe atualmente cerca de R$ 460 milhões por ano em políticas de permanência estudantil, valor classificado pelo reitor como o maior entre universidades brasileiras. "E talvez no mundo", acrescentou.
O professor argumentou ainda haver diferença entre utilizar recursos acumulados para investimentos pontuais e ampliar despesas permanentes, com as bolsas Pafpe.
Obras e intervenções estruturais, explica ele, podem ser financiadas com reservas financeiras, enquanto benefícios pagos mensalmente exigem recursos recorrentes e precisam caber no orçamento anual da instituição, aprovado pelo Conselho Universitário, seu órgão máximo.
Segurado afirmou que futuras ampliações dos investimentos em permanência estudantil poderão voltar a ser discutidas nos próximos ciclos orçamentários, mas descartou mudanças significativas para este ano.
O CONJUNTO RESIDENCIAL DA USP
Um dos principais focos da greve é a situação do Conjunto Residencial da USP, o Crusp, alvo de críticas recorrentes pelas condições de moradia oferecidas aos residentes.
Nos últimos anos, houve denúncias de apartamentos com infiltrações, mofo, instalações elétricas deterioradas, elevadores quebrados e demora em reformas.
O reitor afirmou que a universidade já discutia intervenções na moradia estudantil antes da greve, mas reconhece a influência da mobilização nos planos de reforma. "Talvez a gente tenha que agilizar esse processo."
Segundo o gestor, a USP avalia utilizar parte de suas reservas financeiras para "acionar o modo turbo" nas obras no conjunto residencial. Porém, isso dependeria de um acordo com os residentes. Eles seriam obrigados a deixar os apartamentos por algum período.
Segurado não apresentou estimativas de custo nem cronograma para as intervenções, mas acrescentou ser possível para a universidade absorver um investimento de grande porte.
Apesar de reconhecer a necessidade de melhorias no conjunto, o reitor afirmou que a situação varia entre os diferentes blocos da moradia estudantil." Não existe um Crusp. Existem vários Crusps hoje. Alguns são dignos, alguns não estão."
Nessa toada, criticou reportagem desta Folha de S.Paulo sobre as condições da moradia estudantil. Segundo ele, houve a divulgação de imagens de um prédio interditado pela própria universidade.
A equipe não visitou apenas um bloco, mas sim quatro. O conjunto possui oito.
CALENDÁRIO ACADÊMICO
Segurado alertou ainda para os impactos da greve no calendário acadêmico e afirmou que haverá necessidade de reorganização das atividades em diversas unidades.
Mais da metade das faculdades da USP já retomou as aulas e a maioria dos estudantes voltou às atividades regulares. Cursos ainda paralisados, informa Segurado, deverão reorganizar seus cronogramas e, em alguns casos, utilizar parte do período previsto para as férias de julho para reposição de conteúdos.
"O segundo semestre está mantido para começar em 3 de agosto", informou o professor.
O reitor disse ainda não ver risco imediato de reprovações em razão da greve e opinou que a reposição das atividades deverá evitar prejuízos acadêmicos permanentes.
Enquanto a universidade não volta à normalidade, sua administração faz planos. Como resposta ao conflito, pretende criar uma comissão permanente de diálogo com estudantes, inspirada em um modelo já utilizado nas negociações com servidores técnico-administrativos.
Para Segurado, a experiência da greve demonstrou a necessidade de estabelecer canais fixos de interlocução, sem depender exclusivamente de momentos de crise. Porém, ele deixa um recado: "Negociação não é ceder à imposição."