Cidades precisam substituir ruas por árvores, diz neurobiólogo italiano

Por MARIANA GRASSO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma cidade inteira cabe em uma árvore?

A capa da edição italiana de "Fitopolis, la Città Vivente", livro mais recente de Stefano Mancuso, cientista, neurobiólogo e professor, usa a seguinte imagem: casas, prédios e calçadas estão em uma grande copa, parte superior da planta. A ilustração explica a ideia principal da obra, em que o asfalto e a natureza precisam ser mais integrados para enfrentarmos a crise climática.

Na primeira visita ao Brasil, o cientista conversou com a reportagem na quarta-feira (3), e apresentou um conjunto de ideias sobre o estilo de vida humano. O esgotamento urbano contemporâneo é uma incompatibilidade evolutiva, segundo ele. "Nossa biologia é a mesma há mais de 20 mil anos, quando éramos caçadores-coletores. Nosso corpo foi construído para viver nas árvores", explica.

Conforme o pesquisador, essa herança ancestral explica o porquê do contato com o verde ter efeitos terapêuticos, algo comprovado em seu laboratório por meio de sensores corporais. "Quando entramos em contato com as plantas, todos os nossos parâmetros de estresse diminuem em menos de 10 segundos. O batimento cardíaco, a pressão e o nível de cortisol despencam. Não há nenhuma razão lógica para isso, exceto que nosso corpo detecta que está voltando para casa."

Nascido na Itália, Stefano Mancuso é uma das maiores autoridades mundiais em neurobiologia vegetal, área que investiga a sinalização e a comunicação entre as plantas em todos os níveis de organização biológica. Pioneiro nesse campo e considerado pela revista The New Yorker como um dos transformadores do mundo da década.

No Brasil, o autor publicou cinco livros pela editora Ubu: "Revolução das Plantas" (2019), "A Planta do Mundo" (2021), "A Incrível Viagem das Plantas" (2022) e "A Nação das Plantas" (2024). Seu lançamento mais recente é "Fitópolis" (2026), livro em que discute como a organização do universo vegetal pode inspirar uma nova forma de conceber as cidades.

A defesa de Mancuso por cidades mais verdes não é um apelo estético ou romântico. Diante do ceticismo de setores políticos e imobiliários, o biólogo aponta os dados de mortes no verão europeu publicadas na revista Nature Medicine.

"É a primeira vez na história da humanidade que vivemos uma mudança climática tão rápida e forte", afirma ele. Mancuso aponta para milhares de mortes por calor na Europa durante o verão de 2023 e 2024.

O aquecimento global afeta diretamente a rotina do pesquisador na Itália, que tem um olival em Florença há dez anos. "O momento da colheita das azeitonas mudou para 20 dias mais cedo. Quando eu era jovem, colhíamos no final de novembro. Hoje, colhemos entre o meio e o fim de outubro. É algo incrivelmente veloz e impossível de não notar."

Questionado sobre qual seria a principal ação a ser tomada em uma metrópole como São Paulo, Mancuso propõe uma meta ousada: "Peguem o prefeito de São Paulo e digam a ele: nós precisamos fechar 20% das ruas da cidade. Precisamos apagar 20% das ruas, remover o asfalto e plantar árvores no lugar. O resultado seria incrível: transformar essas vias no que eu chamo de rios de árvores", afirma.

O escritor sabe que o plano parece utópico, mas diz que a história do urbanismo é feita de ousadias. Ele cita o exemplo de Curitiba, onde o ex-prefeito Jaime Lerner fechou o tráfego de automóveis na rua XV de Novembro e a transformou em um calçadão exclusivo para pedestres, chamado rua das Flores.

O cientista relata uma experiência semelhante com a ex-prefeita de Barcelona, Ada Colau. Ela decidiu fechar uma das avenidas mais importantes da cidade catalã, com cerca de 15 quilômetros de extensão. Substituiu o asfalto por árvores.

"No começo, moradores queriam matá-la. Ela precisou viver com escolta policial por um ano. Mas após seis meses, todos entenderam as vantagens". Ele diz que os comércios daquela rua dobraram o faturamento e hoje as ruas vizinhas pedem para o novo prefeito fazer o mesmo.

Para o neurobiólogo, o principal obstáculo para que o modelo de Fitópolis prospere é a falta de coragem política e o foco imediatista nos ciclos eleitorais. "O problema com os prefeitos é que eles olham apenas para os votos da próxima eleição, e a eleição está sempre perto demais para esse tipo de projeto".

Para ele, o mundo precisa de prefeitas jovens, mulheres e corajosas. "Hoje temos exatamente o oposto: homens, velhos e nada corajosos", diz.

Mancuso participará da "A Feira do Livro" na Praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo, na próxima quinta-feira (4), das 16h15 às 17h30.

A turnê de escritor no Brasil é uma realização da Ubu editora, Istituto Italiano di Sao Paolo, Sesc São Paulo, Sesc Rio de Janeiro, Escola da Cidade, Unesp (Universidade Estadual Paulista), Inhotim e Consulado-Geral da Itália em Belo Horizonte.

FITÓPOLIS ? A CIDADE VIVA

- Preço: R$ 69,90 (208 págs.)

- Autor: Stefano Mancuso

- Editora: Ubu Editora (Tradução: Samuel Titan Jr.)