Brasil precisa conectar pacientes e voluntários aos centros de pesquisa, dizem especialistas

Por PATRÍCIA PASQUINI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Encontrar candidatos elegíveis para estudos clínicos é um desafio para os centros de pesquisa brasileiros, disseram médicos e pesquisadores durante a segunda edição do Clinical Research Summit Latin America, realizado em maio pelo Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre.

"Não temos esse encontro de informações. É comum aos centros de pesquisa que têm estudos não completar o número de pacientes, e às vezes os pacientes não identificam o local onde há o estudo de que poderiam participar. Essa aproximação traria oportunidade aos pacientes brasileiros e um avanço mais rápido nas pesquisas", disse José Humberto Tavares Guerreiro Fregnani, diretor de ensino, pesquisa e inovação do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo.

O objetivo pesquisa clínica é testar a segurança e eficácia de novos medicamentos, vacinas ou tratamentos antes que sejam aprovados para uso na população.

Cirurgião oncológico e pesquisador, Fregnani afirma que a poderia ser aplicado um sistema de referenciamento, a exemplo do que ocorre na fila do transplante. O paciente com indicação clínica seria inscrito numa lista, e um sistema inteligente faria a conexão entre o voluntário e o centro que desenvolve a pesquisa de interesse.

"O Ministério da Saúde, com o apoio das instituições Proadi-SUS [Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS], poderia construir um sistema desse tipo", diz. "Isso aceleraria a pesquisa clínica no país. Se eu preciso incluir 20 pacientes no estudo, mas só incluo dez, na próxima vez a indústria vai pensar duas vezes antes de trazer a pesquisa. Melhorar a taxa de recrutamento confere credibilidade ao Brasil."

Para o oncologista clínico José Roberto Rossari, coordenador das pesquisas em oncologia do Hospital Moinhos de Vento, o problema vai além e envolve também a logística dos pacientes.

"Há uma dificuldade em integrar informações e tornar factível. Só ter a informação talvez não acrescente nada. Adianta eu saber de um estudo clínico em Belém se essa paciente mora no interior do Rio Grande do Sul? Como ela vai se mudar para Belém? São coisas que do ponto de vista logístico podem ser mais complicadas de racionalizar do que simplesmente identificarmos oportunidades", disse Rossari.

Na avaliação do infectologista Alexandre Schwazbold, professor e chefe do Centro de Pesquisa Clínica da Universidade Federal de Santa Maria, uma alternativa seria criar um cadastro de voluntários.

"Poderia ter um banco onde as pessoas se voluntariassem, assim como o de medula óssea. Por que não aconteceu? Acho que pesquisa clínica é algo novo no Brasil. Tirando os centros de referência no Rio, em São Paulo, talvez no Rio Grande do Sul, no Paraná, pouca pesquisa clínica foi feita aqui. O próprio Ministério da Saúde nunca teve isso como um capítulo importante", afirmou.

A seleção de voluntários para pesquisa clínica no Brasil tem como caminhos a indicação de médicos, a divulgação na mídia e a busca nos serviços que atuam com o perfil de população desejada. Universidades e centros de saúde e de pesquisa realizam a procura.

Em Porto Alegre, o Instituto de Pesquisa do Hospital Moinhos de Vento procura voluntários acima de 18 anos para um estudo clínico voltado ao tratamento de amiloidose cardíaca. A doença, rara e de difícil diagnóstico, se caracteriza pelo acúmulo de proteínas no coração. Pode levar à insuficiência cardíaca e à morte, em casos mais graves. Os principais sintomas são fraqueza e cansaço, condições comuns e que se confundem com outras doenças.

A participação é gratuita. Interessados podem entrar em contato via WhatsApp no número (51) 3314-3209 ou preencher o formulário online para triagem inicial.

A repórter viajou a convite do Hospital Moinhos de Vento.