Reprecificação de juros nos EUA derruba Ibovespa abaixo de 170 mil pontos; dólar sobe a R$ 5,15
O Ibovespa aprofundou as perdas ao longo desta sexta-feira e voltou a fechar abaixo dos 170 mil pontos pela primeira vez desde 20 de janeiro (166.276,90 pontos), em um pregão marcado pela reprecificação das expectativas para a política monetária americana após o payroll vir acima do esperado e reforçar a percepção de que o Federal Reserve poderá manter os juros elevados por mais tempo.
A piora ganhou força durante a tarde, acompanhando uma forte onda de vendas em Wall Street, onde o Nasdaq chegou a cair mais de 4%, pressionado principalmente pelas ações dos setores de semicondutores e inteligência artificial. O Ibovespa fechou em queda de 0,77%, aos 169.019,12 pontos. Na semana, o índice acumulou perda de 2,74%.
O principal gatilho do dia foi o relatório de emprego dos Estados Unidos. A economia americana criou 172 mil vagas em maio, acima do teto das estimativas do Projeções Broadcast, enquanto os números dos meses anteriores foram revisados para cima. O resultado reforçou a leitura de que o mercado de trabalho segue aquecido e reduziu as apostas em um eventual afrouxamento monetário por parte do Fed nos próximos meses.
A reação foi imediata. Os rendimentos dos Treasuries avançaram ao longo do dia e o mercado passou a ampliar as apostas em uma nova alta de juros nos Estados Unidos ainda este ano. O movimento foi reforçado pelas declarações da presidente do Federal Reserve de Cleveland, Beth Hammack, que voltou a destacar a inflação como principal preocupação da autoridade monetária. Segundo ela, embora seja razoável manter os juros estáveis neste momento, "se as tendências continuarem, pode ser apropriado agir em breve".
Na contramão da leitura predominante entre os investidores, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elogiou o resultado do payroll e voltou a defender juros mais baixos, argumentando que crescimento econômico não necessariamente gera inflação.
Segundo Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, o principal vetor do pregão foi a divulgação do payroll americano, que reforçou a percepção de um mercado de trabalho ainda resiliente nos Estados Unidos. "O payroll pegou forte. Os yields dos Treasuries descolaram bem desde a divulgação, mostrando um mercado de trabalho resiliente e aquecido", afirma. Na avaliação dele, o resultado fortalece a leitura de que o Federal Reserve deverá manter uma postura mais cautelosa em relação aos juros. "Com esse payroll, reforça a avaliação de que o tom do próximo Fomc é manutenção ou elevação dos juros." O economista avalia que o ambiente continua favorecendo a renda fixa em detrimento da renda variável.
No mercado doméstico, Vale e Petrobras tiveram papel importante na piora do índice. A mineradora ampliou as perdas em meio à queda do minério de ferro em Dalian, enquanto a Petrobras acompanhou o recuo do petróleo.
Durante a tarde, investidores também monitoraram novas declarações vindas do Irã. O conselheiro militar do líder supremo iraniano, Mohsen Rezaei, ameaçou expandir o conflito para novas frentes, incluindo o Oceano Índico e o Estreito de Bab al-Mandab, caso não haja avanço nas negociações com os Estados Unidos.
Para Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, embora o payroll tenha sido o principal gatilho do pregão, o mercado passou a incorporar também um componente maior de risco geopolítico ao longo da tarde. Segundo ele, as declarações do Irã sobre uma possível escalada do conflito caso não haja acordo de paz contribuíram para aumentar a cautela dos investidores. "A primeira notícia que fez com que o mercado começasse a cair foi o payroll, mas ao longo do dia houve uma declaração do Irã de que pode voltar a escalar a guerra caso um acordo de paz não seja alcançado", afirma.
Segundo Mollo, a combinação desses fatores levou investidores a reduzir exposição antes do fim de semana. "Os investidores, tomados por cautela de não ficar posicionados no final de semana, aumentaram as vendas", diz. O analista destaca ainda que a forte alta do VIX - conhecido como "termômetro do medo" de Wall Street, e que superou os 20 pontos pela primeira vez desde abril -, mostra que a percepção de risco não ficou restrita ao mercado brasileiro. "Esse risco é percebido não só aqui no Brasil, mas nos Estados Unidos também."
"O sentimento do dia foi de forte aversão ao risco", ressaltou Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil. Segundo ele, o payroll forte elevou o dólar e os Treasuries, pressionou especialmente as ações de tecnologia e semicondutores, que já vinham sofrendo realização de lucros na Ásia após resultados considerados decepcionantes, e acabou contaminando os ativos brasileiros, com impacto sobre câmbio, juros futuros e bolsa.
Segundo Bruna Sene, analista de renda variável da Rico, a semana consolidou uma mudança importante de humor nos mercados. Além da continuidade das tensões geopolíticas, investidores passaram a conviver com dois novos fatores de risco: a ameaça de tarifas adicionais dos Estados Unidos ao Brasil e um payroll muito acima do esperado.
Na avaliação da analista, o mercado continuará sensível aos dados de inflação na próxima semana, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, em um ambiente de elevada volatilidade. Segundo ela, a região dos 168.500 pontos representa um suporte técnico importante para o Ibovespa e deverá ser acompanhada de perto pelos investidores nas próximas sessões.
Dólar
O dólar disparou no mercado local nesta sexta-feira, 5, alinhado ao comportamento da moeda americana no exterior, após números fortes de geração de emprego nos EUA em maio estimularem apostas em alta de juros pelo Federal Reserve ainda neste ano. Rodando acima de R$ 5,15 desde o início da tarde, o dólar à vista encerrou em alta de 1,78%, a R$ 5,1572, na máxima da sessão e no maior nível de fechamento desde 2 de abril (R$ 5,1599).
A moeda americana acumula ganhos de 2,27% frente ao real na primeira semana de junho, após avanço de 1,82% em maio. No ano, as perdas, que chegaram a superar 10% quando a taxa de câmbio rondava R$ 4,90 no início de maio, agora são de 6,04%. Embora tenha sofrido mais do que pares hoje, o real ainda apresenta, em 2026, um dos três melhores desempenhos entre as divisas mais líquidas, tanto de países desenvolvidos quanto emergentes.
Termômetro do comportamento da moeda americana em relação a uma cesta de seis divisas fortes, o índice DXY superou os 100,000 pontos no início da tarde, no maior nível desde abril. O Dollar Index já avança mais de 1,10% em junho, passando a acumular valorização de cerca de 1,80% no ano.
"O ambiente de dólar mais forte está começando a se mostrar um obstáculo para o carry trade com o real", afirma, em nota, o chefe de estratégia de mercados do banco ING, Chris Turner, ressaltando que o panorama doméstico, com a melhora da aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também pesa sobre a moeda brasileira.
Turner pondera que, se não houver uma disparada das taxas dos Treasuries e da moeda americana, o real tende a encontrar "um bom suporte", uma vez que os juros locais ainda são elevados e o país mantém o status de exportador líquido de petróleo.
Sem indicadores de peso na agenda doméstica ou novidades no front político, o dólar até ensaiou uma baixa na abertura, com a retomada dos negócios no mercado local, que estiveram fechados ontem em razão do Dia de Corpus Christi. A maré virou a partir das 9h30, na esteira da divulgação do relatório de emprego (payroll) de maio.
O Departamento do Trabalho dos EUA informou que foram criadas 172 mil vagas no mês passado, bem acima do teto de 125 mil estimado pelos analistas consultados por Projeções Broadcast. Houve revisão para cima dos números de abril (de 115 mil para 179 mil) e de março (de 185 mil para 214 mil). Já a taxa de desemprego permaneceu estável, em 4,3%, e o salário médio por hora subiu 0,3%, em linha com as expectativas.
"O número do payroll reforça que o foco do Fed deve permanecer na inflação", afirma a economista Isadora Junqueira, da Az Quest. "Com inflação mais alta e mercado de trabalho mais forte, haveria pouco espaço para o Fed pensar em queda de juros. O cenário é cada vez mais de estabilidade ou alta."
Os rendimentos dos Treasuries subiram em bloco, em especial na ponta curta. O retorno do papel de dois anos - mais ligado às expectativas em torno da trajetória dos juros - subiu mais de 10 pontos-base, tocando 4,17%. Os preços do petróleo recuaram mais de 2%, mas sem trazer alívio à percepção de risco, uma vez que avançaram na semana e sem mantêm acima de US$ 90 o barril.
A ferramenta FedWatch, do CME Group, mostrou aumento das apostas em alta dos juros pelo Fed ainda neste ano após a divulgação do payroll. As chances de uma elevação na taxa básica americana em dezembro atingiram 70%. A maioria dos analistas, contudo, ainda vê o cenário de manutenção como mais provável.
O economista Paulo Gala, professor da FGV-SP, ressalta que os números do payroll tiveram impacto imediato no mercado local, levando o dólar para R$ 5,15, em um movimento que acentua a deterioração observada na última quarta-feira, "quando houve desmonte de posições em ativos brasileiros, com os juros longos disparando".
"Com a inflação já acima de 3% em apenas quatro meses e expectativas para o ano acima de 5%, o Banco Central brasileiro vê seu espaço para cortar a Selic encolher, ainda mais diante de um dólar pressionado e de uma economia americana que, apesar dos sinais mistos, continua de pé", afirma Gala, em relatório.
Juros
Os vértices intermediários e longos dos juros futuros renovaram máxima nesta tarde e alcançaram os maiores níveis desde março e abril de 2025, respectivamente, momento em que o Comitê de Política Monetária (Copom) ainda estava elevando a taxa Selic. Com a arrancada das taxas, a aposta majoritária (68%) agora é de que o juro básico se mantenha em 14,50% ao ano na reunião de junho.
A mudança na perspectiva ocorre após o relatório de emprego dos Estados Unidos, payroll, mostrar criação de emprego bem acima do teto das estimativas e fazer o mercado financeiro ampliar chances de alta de juros pelo Federal Reserve (Fed) no segundo semestre de 2026. Trata-se de um novo ingrediente para a tempestade perfeita a favor de juros altos por mais tempo, que já contemplava a deterioração das expectativas de inflação, a desvalorização do real e a incerteza eleitoral.
O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu a 14,43%, de 14,295% do ajuste de quarta-feira. A taxa para janeiro de 2029 avançou para 14,81%, ante 14,427%, e o para janeiro de 2031 subiu a 14,71%, de 14,409%.
Os EUA criaram 172 mil empregos em maio, em termos líquidos, acima do teto das estimativas de 125 mil postos e mediana de 85 mil. O time de economistas do Bradesco, liderado por Fernando Honorato Barbosa, afirmou que "a diferença relevante frente a abril quando criou 115 mil vagas está na função de reação do Fed: com o pano de fundo de pressão inflacionária via energia (Oriente Médio e Ormuz), a combinação de mercado resiliente traz foco do FOMC de volta para a inflação".
E de fato, o mercado passou a ver maiores chances de que o Fed eleve juros em setembro (de 23,2% antes da divulgação do payroll para 38,4% por volta das 12h de Brasília). A aposta majoritária, contudo, ainda é de manutenção, que recuava de 74,1% para 60,5%.
"O payroll foi um gatilho e uma pressão adicional para os juros futuros brasileiros", comenta o economista Carlos Lopes, do banco BV, destacando que por aqui os investidores tiram bastante da probabilidade de queda na taxa Selic na próxima reunião. "Temos queda de 8 pontos precificada para o dia 18 de junho, então a probabilidade maior é de parada. O mercado agora aguarda para ver se o BC dará alguma sinalização contra essa precificação, ou se ele se manterá em silêncio", afirma. Uma redução de 8 pontos na curva representa 68% de chance de manutenção do juro básico em 14,50%, e 32% de corte de 0,25 ponto porcentual.
A correção local na renda fixa, contudo, já tinha respaldo de uma série de outras preocupações: os próprios números de inflação e as expectativas com relação a guerra durando por mais tempo, acrescenta Lopes.
O Bank of America (BofA) mencionou a deterioração nas dinâmicas atuais de inflação, o aumento das expectativas de inflação e um real mais fraco para embasar sua mudança de cenário, que prevê apenas mais um corte de 0,25 pp na Selic em junho e uma sinalização do Copom de pausa no ciclo de afrouxamento. Assim, o banco elevou a projeção para a taxa básica de juros no fim de 2026, de 13,25% para 14,25%, e no fim de 2027, de 12,50% para 13,25%.
"O payroll inverteu completamente o cenário. Talvez o Copom tenha espaço para mais um corte de juros, e nenhum mais. Talvez nem mesmo esse de junho", avalia Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil.