O que policiais que brigaram de caso Gritzbach na prisão falaram um do outro
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Os policiais civis Rogério de Almeida Felício e Eduardo Lopes Monteiro, delatados por Antônio Vinícius Lopes Gritzbach por envolvimento com o PCC (Primeiro Comando da Capital), teriam trocaram socos e pontapés no presídio da Polícia Civil há cerca de duas semanas. O UOL obteve vídeos de dois interrogatórios prestados por eles à PF (Polícia Federal), em que o delegado pergunta o que um achava do outro.
Eduardo Lopes Monteiro elogiou a conduta de Rogério, conhecido como Rogerinho. "Fomos contemporâneos, ele trabalhou no Deic (Departamento de Investigações Criminais), trabalhou no Denarc (Departamento de Investigações sobre Narcóticos) e foi meu subordinado no DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa)", disse. Questionado se conhecia algo que o desabonasse, Monteiro foi direto: "nada, doutor".
Excelente profissional. Se dedicou a essa investigação do começo ao fim. Com toda a tecnologia possível, que eu nem tinha conhecimento, conseguiu provar que o Vinicius era o mandante do duplo homicídio, doutor.
Eduardo Monteiro sobre Rogerinho
Já Rogerinho foi mais evasivo ao falar sobre a relação dele com Monteiro. "A primeira vez que eu trabalhei com o Eduardo Monteiro foi no DHPP, mas eu já o conhecia do Deic. Ele trabalhava no Deic, mas nunca trabalhamos juntos. Ele trabalhava na divisão da Divecar (Divisão de Investigações sobre Furtos, Roubos e Receptações de Veículos e Cargas), que era lá em cima, eu trabalhava na Divisão de Patrimômio, em baixo", afirmou.
"A gente já até chegou a se encontrar, às vezes num restaurante, junto, mas nada combinado. Tinha algum lugar e acabava encontrando, mas era de 'oi, tchau', assim", disse Rogerinho sobre Eduardo Monteiro.
Gritzbach afirmou na delação que firmou com o MP (Ministério Público) que Rogerinho teria roubado alguns de seus relógios de luxo. O delator teria reconhecido um de seus relógios em uma foto postada por Rogerinho na Grécia, quando acompanhava, a serviço, o cantor Gusttavo Lima. Nos interrogatórios, ambos os policiais são questionados pela PF sobre o assunto.
Rogerinho disse que apreendeu uma caixa que tinha entre 10 e 15 relógios, mas que não chegou a abrir a caixa. Questionado, se defendeu dizendo que "de maneira alguma" pegou algum dos relógios. Depois, ele apresentou na Corregedoria da Polícia Civil quatro relógios que tem. "Até esclareci pro delegado que eram réplicas, falei que ele podia mandar pra Rolex inclusive. O único que não era réplica, segundo ele, era um Rolex que teria sido dado de presente pelo cantor sertanejo.
Monteiro defendeu Rogerinho sobre o assunto. "Havia uma determinação, doutor, da nossa delegacia, a 3ª Delegacia de Homicídios Múltiplos, de que ela não mexeria com lavagem de dinheiro. Assim sendo, o doutor Fabio [Baena, também delatado] não queria e não podia mexer com nada. Não foi apreendida essa caixa de relógios, foi devolvida. Questionado se Monteiro sabia se algum policial teria pegado algum relógio, o investigador foi enfático: "Isso não aconteceu, doutor. Não aconteceu. É mais uma mentira criada pelo Vinicius.
A SSP (Secretaria da Segurança Pública) diz que Corregedoria da Polícia Civil e diretoria do presídio afirmam não ter recebido nenhum registro. As agressões físicas teriam ocorrido entre os detentos na unidade prisional da instituição, localizada no bairro de Santana, na zona norte da capital.
Pessoas ligadas aos dois policiais garantem que a briga aconteceu há cerca de duas semanas. De acordo com fontes entrevistadas pelo colunista Josmar Jozino, que pediram anonimato, Rogério não teria gostado de um depoimento dado por Eduardo em uma audiência. As mesmas fontes disseram que Eduardo ficou machucado, com hematomas no rosto e em outras partes do corpo, e teve de receber atendimento.
Gritzbach revelou à Corregedoria da Polícia Civil e ao MP (Ministério Público), que Rogério pegou relógios de luxo dele, com a anuência de Eduardo e do delegado Fábio Baena Martin, durante o cumprimento de mandado de busca e apreensão. O delator denunciou ao todo oito policiais civis, um advogado e dois empresários por envolvimento com o PCC. Todos foram presos, inclusive a mulher do agente Rogério. Apenas o delegado Baena responde ao processo em liberdade.
O MP apresentou as alegações finais do caso Gritzbach. A Promotoria pediu a absolvição integral do delegado Alberto Pereira Matheus Júnior por insuficiência de provas e a condenação de outros 11 réus.
O delator foi assassinado em 8 de novembro de 2024, no aeroporto internacional de Guarulhos. Três policiais militares acusados de participar do homicídio estão presos e devem ir a júri popular no final deste mês.
Delegado Fábio Baena Martin: condenação pelos crimes de organização criminosa, peculato e corrupção passiva e absolvição pela acusação de lavagem de dinheiro;Investigador Eduardo Lopes Monteiro: condenação por organização criminosa, peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro;Investigador Marcelo Marques de Souza, o Bombom: condenação por organização criminosa e lavagem de dinheiro;Investigador Marcelo Roberto Ruggieri, o Xará: condenação por organização criminosa e lavagem de dinheiro;Investigador Valdenir Paulo de Almeida, o Xixo: condenação por organização criminosa e corrupção ativa;Investigador Valmir Pinheiro, o Bolsonaro: condenação por organização criminosa;Agente policial Rogério de Almeida Felício, o Rogerinho: condenação por organização criminosa e lavagem de dinheiro;Danielle Bezerra dos Santos, mulher de Rogerinho: condenação por tráfico de drogas, organização criminosa e lavagem de dinheiro;Advogado Ahmed Hassan Saleh, o Mudi: condenação por tráfico de drogas, organização criminosa e lavagem de dinheiro;Empresário Ademir Pereira de Andrade: condenação por organização criminosa e lavagem de dinheiro;Empresário Robinson Granger Moura, o Molly: condenação por associação criminosa e lavagem de dinheiro.Além da condenação dos policiais civis acima citados, o MP também pediu a perda do cargo público deles.