'Pé' de pepino-do-mar pode sobreviver separado do corpo por anos
SÃO CARLOS, SC (FOLHAPRESS) - É como se um braço decepado permanecesse praticamente intacto, com o metabolismo de suas células e tecidos ainda funcionando, anos depois de ter sido arrancado do corpo. Esse cenário, que mais parece algum tipo de magia macabra, foi observado em detalhes por cientistas que estudaram uma espécie de pepino-do-mar.
A equipe de pesquisadores, liderada por Sara Jobson, da Universidade Memorial (província de Terra Nova e Labrador, no Canadá), detectou o fenômeno ao estudar os chamados pés ambulacrários, pequenas estruturas tubulares usadas na locomoção do pepino-do-mar Psolus fabricii, nativo de águas frias dos oceanos Atlântico e Ártico.
O que eles descobriram é que, quando são cortados, os pés ambulacrários permanecem biologicamente íntegros por pelo menos três anos, sem nenhuma necessidade especial, como higienização ou o cultivo num meio de cultura, por exemplo. Basta que continuem mergulhados em água do mar.
Em outras palavras, os tecidos que formam as estruturas parecem ser funcionalmente "imortais". E o mesmo se verificou quando os pesquisadores amputaram outras partes da anatomia desses invertebrados.
A descoberta, publicada no fim de maio na revista especializada Science Advances, pode ter implicações práticas importantes para a pesquisa biomédica, de acordo com Jobson e seus colegas.
Embora muitos cientistas trabalhem há décadas com linhagens de células "imortais", que se multiplicam de forma indefinida em laboratório e podem ser usadas para testar medicamentos e analisar a ação de diferentes genes, entre muitas outras aplicações, a estrutura obtida a partir dos pepinos-do-mar seria uma simulação muito mais realista de um organismo vivo.
Isso porque ela inclui conexões entre diferentes tipos de tecidos (como pele, músculos, células de defesa, sistema nervoso etc.), tal como no organismo inteiro, mas com a praticidade de ser um pedaço muito menor dele, e sem os dilemas éticos de submeter um indivíduo inteiro aos efeitos de um experimento, por exemplo.
Os estranhos "superpoderes" de regeneração dos equinodermos, grupo que inclui tanto os pepinos-do-mar quanto suas parentas mais famosas, as estrelas-do-mar, já eram bem conhecidos, é claro. As estrelas-do-mar, por exemplo, conseguem regenerar seus "braços" cortados, algo impensável para a maioria dos vertebrados como nós (embora existam exceções, como o crescimento das caudas amputadas de lagartixas).
Na nova pesquisa, a equipe canadense, em parceria com colegas nos EUA, monitorou o que acontecia com os pés ambulacrários desde os primeiros dias de amputação e verificou que um papel-chave para a sobrevivência dos tecidos cortados é desempenhado por células chamadas celomócitos. Provavelmente não por acaso, elas também são importantes para a regeneração do organismo como um todo.
Os celomócitos são células do sistema de defesa do organismo que também promovem a regeneração de tecidos feridos, proliferando e migrando para o local onde ocorreu um ferimento e impedindo que micróbios infectem a área machucada.
Nos pés amputados, a equipe detectou a presença e a migração dos celomócitos rumo à área que sofreu o corte, ajudando a "fechar" a ferida e promovendo a cicatrização da epiderme. Com o passar do tempo, a ação deles parece ter se deslocado da epiderme para as células musculares, alterando a organização delas e produzindo, por exemplo, aglomerados de pequenas fibras.
Ao longo dos primeiros dias depois da amputação, os tecidos dos pés ambulacrários foram passando por um processo aparentemente coordenado de ciclos de apoptose (a morte programada das células) e mitose (proliferação de células). Um dos resultados dessa reorganização é que o tecido muscular deixou de ser funcional (o que faz sentido, já que os pés não seriam mais capazes de "andar" sem a conexão com o pepino-do-mar inteiro), mas outros tecidos do "membro" continuaram vivos e funcionando.
Mais intrigante ainda, os pesquisadores observaram que os "explantes" (ou seja, os pés ambulacrários amputados) eram capazes de absorver aminoácidos derivados de algas que estavam dissolvidos na água. Ou seja, é como se o tecido cortado conseguisse "comer".
O monitoramento de longo prazo dos explantes prosseguiu, mostrando, por exemplo, que a área dos pés que tinha sofrido o ferimento se tornou indistinguível do resto deles entre um e dois meses após a amputação.
Com o passar do tempo, células com pigmentos vermelhos passaram a se agregar no centro do pé cortado ou em uma das laterais dele, enquanto o resto do "membro" foi ficando translúcido. E, depois de ter encolhido em diâmetro, perdendo 24% de seu tamanho após a amputação, o pedaço de pepino-do-mar voltou a crescer e acabou ficando maior do que era depois do corte (um aumento de 12% após um ano).
Como se não bastasse, outros pés ambulacrários cortados pelos cientistas e deixados no fundo de tanques em que havia pepinos-do-mar vivos também continuaram sem se degradar por anos, inclusive quando ficavam cobertos de uma camada de lama.
Testes com outras espécies de pepinos-do-mar e demais membros do grupo dos equinodermos mostraram que nenhum deles é capaz de fazer com que pedaços complexos de si próprios continuem vivos durante tanto tempo. Parece ser mesmo um "superpoder" típico do Psolus fabricii. Os autores do estudo propõem que a chave para essa mágica talvez seja um conjunto de substâncias produzidas pelo invertebrado com uma capacidade única para impedir infecções e matar possíveis micróbios invasores, mas vão ser necessários outros estudos para confirmar a ideia.