Pisa amplia avaliação e passa a medir capacidade crítica de estudantes com IA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma das principais avaliações da educação básica do mundo, o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, na sigla em inglês) vai passar a medir se os adolescentes estão aprendendo a agir de forma responsável e crítica no mundo contemporâneo mediado por plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial.
O exame é um estudo comparativo internacional, realizado a cada três anos em dezenas de países, para avaliar o desempenho de estudantes de 15 anos.
A avaliação será aplicada neste ano, seguindo o mesmo formato das últimas edições. Ou seja, avaliando o conhecimento dos jovens em três áreas: leitura, matemática e ciências. A partir de 2029, no entanto, a área de linguagens incluirá questões para avaliar o nível de letramento em mídia digital e inteligência artificial.
Formado em psicologia e com especialização em tecnologia educacional, Luis Francisco Vargas Madriz é um dos responsáveis pela elaboração da nova matriz de avaliação do Pisa. Em entrevista à reportagem, ele conta que a ampliação das habilidades avaliadas surgiu de uma demanda dos países participantes do exame.
"O debate não é mais se devemos usar ou não a tecnologia e a inteligência artificial na educação. Elas já estão presentes na vida das crianças e jovens. A questão agora é se eles estão aprendendo a lidar com elas e usá-las", diz Madriz, que esteve no Brasil para o Encontro Internacional de Educação Midiática, a convite do Instituto Palavra Aberta.
Segundo ele, educadores dos mais diversos países têm se preocupado não apenas como os alunos têm usado essas ferramentas para estudar ou fazer atividades escolares, mas sobretudo com os impactos delas na saúde e capacidade de discernimento dos jovens.
Uma pesquisa feita no ano passado apontou que uma em cada dez crianças e adolescentes brasileiros relatam já ter recorrido a ferramentas de inteligência artificial generativa para falar sobre problemas pessoais ou emoções.
Um documento preliminar elaborado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, responsável pelo exame) para nortear o debate sobre as mudanças no Pisa diz que a ideia central será avaliar se os jovens estão se questionando e conseguem distinguir o que é real ou não.
"Conteúdos gerados por IA podem parecer confiáveis mesmo quando são incorretos, além disso influenciam aquilo que as pessoas veem, leem e acreditam. Por isso, a preocupação do Pisa não é apenas tecnológica. Queremos avaliar se os jovens conseguem avaliar os potenciais impactos em sua capacidade crítica, na saúde, bem-estar", diz Madriz.
Ele explica que o objetivo é ampliar o conceito tradicional de alfabetização para incluir a capacidade de compreender, avaliar e produzir informação em um mundo moldado por plataformas digitais, algoritmos e inteligência artificial.
Se nas primeiras edições do Pisa o foco estava na compreensão de textos, agora a preocupação se desloca para a capacidade de navegar em ambientes digitais complexos, nos quais informação, publicidade, entretenimento e manipulação frequentemente aparecem misturados.
"No mundo em que vivemos, não basta mais saber ler e interpretar textos. Estar preparado para o contexto atual exige saber interpretar algoritmos, identificar conteúdos gerados por inteligência artificial."
Como uma das principais avaliações do mundo, os conteúdos cobrados no Pisa influenciam e tendem a induzir mudanças nos currículos escolares dos países. Nas últimas edições, por exemplo, a prova avaliou habilidades de matemática financeira e pensamento criativo ?que acabaram sendo incluídos no conteúdo ensinado em escolas brasileiras.
Madriz diz entender o poder de indução da avaliação, por isso, explica que a organização não quis incluir o tema às pressas ainda na edição que será aplicada em 2026. Para avaliar o nível de letramento digital e em inteligência artificial dos estudantes, foi preciso também mudar a metodologia da prova. As questões serão desenvolvidas para refletir situações cotidianas vividas pelos jovens.
"Não queremos avaliar se os alunos dominam linguagens de programação ou ferramentas específicas, mas se eles estão conseguindo desenvolver competências que os permitam exercer a plena cidadania, se defender e agir de forma responsável diante desse novo mundo."
Ele explica que as competências avaliadas serão divididas em quatro dimensões. Na primeira, a capacidade de acessar e utilizar informações, o que envolve a capacidade de usar mecanismos de busca, elaborar prompts, organizar e filtrar conteúdos.
A segunda será a capacidade de analisar e avaliar, o que significa conseguir verificar a credibilidade de uma informação, identificar vieses e compreender limitações dos sistemas de IA. Por exemplo, entender que as plataformas podem "alucinar", produzindo respostas aparentemente corretas, mas falsas.
A terceira será a habilidade de participar e colaborar, que está relacionada à capacidade de comunicação online, interação responsável com outras pessoas e sistemas de IA. Por fim, irá avaliar a habilidade de produzir conteúdos, textos, imagens e vídeos de forma crítica usando essas ferramentas.
Para avaliar se os jovens desenvolveram essas habilidades, a prova irá trazer questões com situações cotidianas, por exemplo, identificar publicidade disfarçada de recomendação em assistentes virtuais de conversação ou decidir se é seguro compartilhar a foto de uma carteira de motorista em sistemas de inteligência artificial.