Adaptação emergencial ao El Niño vai de protocolos para chuvas a centros públicos de resfriamento
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com a chegada do El Niño, anunciada nesta quinta-feira (11) pela Noaa (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional), as cidades precisarão ter mais bem definidos os planos de preparação para enfrentar o fenômeno climático.
A preocupação com os impactos chegou na mobilizar o STF (Supremo Tribunal Federal) ?que não costuma se debruçar sobre debates climáticos? e, no final de maio, o ministro Flávio Dino determinou que os governos federal e estaduais apresentassem planos de preparação para a chegada do El Niño.
Mas, e as autoridades que não obedeceram Dino, que medidas podem tomar agora que o fenômeno começou?
Mesmo diante de um planeta cada vez mais instável, eventos passados e modelos climáticos são os melhores mapas para definir as estratégias para enfrentar este El Niño. O fenômeno, provocado pelo aquecimento do Pacífico Equatorial, tende a gerar chuvas acima da média na região Sul, enquanto Norte e Nordeste normalmente sofrem com secas mais intensas.
"O Pacífico corresponde a metade da Terra em longitude. É muita água. Quando essa água se move e muda de lugar, ela cutuca a atmosfera e gera ondas atmosféricas", diz a oceanóloga Regina Rodrigues, pesquisadora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
"No Brasil, o que geralmente acontece é que essas ondas criam o que chamamos de bloqueio atmosférico ?uma alta pressão que fica sobre o Sudeste. As frentes frias chegam e não conseguem passar. Então, fica chovendo no mesmo lugar", explica.
PLANOS DE CONTINGENCIAMENTO
Rodrigues acrescenta que saber onde, exatamente, essas chuvas vão acontecer, se no Rio Grande do Sul ou em Santa Catarina, por exemplo, é mais difícil de prever no longo prazo. Mas as simulações climáticas usadas atualmente já conseguem fazer a previsão no médio prazo, com 10 a 15 dias de antecedência.
"Se os estados e cidades estivessem preparados, bastaria acionar os planos de contingência para atuar. Evitar tudo não é possível, mas há uma série de medidas que podem aliviar os impactos", diz a cientista, acrescentando que essas ações de adaptação precisam ser locais.
Planos de contingência incluem, por exemplo, saber quais lugares correm risco de deslizamento de terra e comunicar a população sobre o que fazer quando começar a chover.
O meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), afirma que as cidades precisam detalhar elementos como a rota de fuga e a definição prévia de espaços que servirão como abrigos na hora da emergência.
"E o ideal é que tudo isso seja treinado, simulado. É difícil fazer um plano de contingência para uma cidade como Porto Alegre? É muito difícil, mas tem que ser feito", adverte o pesquisador.
Ele conta que cidades como Valparaíso, que precisa se preparar para a ocorrência de tsunamis, faz simulados regularmente com toda a população, de mais de 300 mil habitantes.
Seluchi ressalta, ainda, a importância da conscientização da população em seguir as orientações das autoridades.
"Quando a Defesa Civil chega, a pessoa fala: 'Ah, moro aqui há 40 anos e aqui não acontece nada. O rio nunca chegou até aqui'. Até que o rio chega e as pessoas morrem afogadas. Isso é terrível. É preciso conscientizar as pessoas com certo cuidado, sem gerar pânico, mas indicando o que deve ser feito", diz.
O mesmo vale para alertas de condições extremas que são enviadas por mensagem de texto, como é o caso da prefeitura de São Paulo. "Não adianta você ter um celular tocando se você não sabe o que tem que fazer", afirma o meteorologista.
ESTRUTURA FÍSICA E BUROCRÁTICA
Além das tempestades, o El Niño também tende a aumentar a ocorrência de ondas de calor e secas, o que pode levar a problemas de saúde e incêndios florestais.
"É possível que nos meses de agosto a outubro tenhamos muitas ondas de calor, com temperaturas muito elevadas e umidade muito baixa. É necessário ter um protocolo, incluindo suspender algumas atividades, como aquelas ao ar livre", opina Seluchi.
Entre as estratégias para evitar que as pessoas se exponham às altas temperaturas estão a definição de locais públicos para resfriamento: estabelecimentos com ar-condicionado e água à disposição da população.
No caso dos incêndios florestais, o governo federal vem fazendo há meses uma mobilização com os entes subnacionais para estruturação de brigadas e outras providências, como fazer aceiros para evitar que as chamas se espalhem.
Além disso, é possível reforçar campanhas de comunicação para que não sejam feitas fogueiras ou queimadas durante a seca e endurecer a fiscalização de crimes ambientais.
Rodrigues afirma, ainda, que algumas medidas burocráticas podem ser uma boa carta na manga para as prefeituras e governos estaduais. "A Defesa Civil de Santa Catarina, por exemplo, já tem contratos pré-licitados com empresas para casos de emergência, estrutura de liderança comunitária e contingenciamento pronto para ser acionado."
Em caso de previsão de chuvas fortes, uma atitude simples é limpar os sistemas de drenagem das cidades, ajudando a prevenir inundações.
"Não é muito dinheiro se você pensar nos impactos", diz a pesquisadora da UFSC. "Estudos mostram que cinco anos depois de um evento climático extremo o impacto econômico ainda é sentido. Vamos sentir até 2029 os impactos do El Niño de 2023/24 ?mas já temos outro. A prevenção é muito mais barata."