Voos de helicóptero no Rio têm demanda impulsionada por turismo e operação do petróleo

Por ANDRÉ FLEURY MORAES E YURI EIRAS

SÃO PAULO, SP, E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A operação petrolífera na costa do Rio de Janeiro e a demanda de turismo impulsionam o tráfego aéreo por helicópteros no estado. Foram 81 mil movimentações em 11 aeródromos entre janeiro e maio deste ano.

O tráfego tem crescido no Brasil como um todo e atingiu nos primeiros cinco meses deste ano 160 mil pousos e decolagens com aeronaves do gênero, 3,7% a mais do que o mesmo período do ano passado. Trata-se de uma alta que consolida a tendência observada ao menos desde 2021, quando houve 104 mil registros.

Os dados contabilizados pelo CGNA (Centro de Gerenciamento da Navegação Aérea), da FAB (Força Aérea Brasileira) levam em consideração a operação em aeródromos e não contabiliza a movimentação entre helipontos públicos e privados, o que faz com que os registros relativos a São Paulo apontem 32 mil pousos e decolagens em 19 aeródromos neste ano. O estado tem a maior frota de helicópteros do país.

O aeroporto de Jacarepaguá, na zona sudoeste do Rio, região onde ocorreu a colisão entre dois helicópteros que deixou seis pessoas mortas, lidera a circulação desse tipo de aeronave, conforme a base da FAB.

Foram 42 mil pousos e decolagens de janeiro a maio, quase o triplo do tráfego no aeroporto do Campo de Marte, na zona norte da capital paulista e que reúne a segunda maior movimentação de helicópteros no Brasil, com pouco mais de 15 mil.

Pilotos e especialistas em aviação civil ouvidos pela Folha destacam a influência do petróleo na aviação fluminense. "Os tripulantes das plataformas offshore [em alto-mar] fazem um revezamento quinzenal, e esse deslocamento é feito através de helicópteros de grande porte", diz Alexandre Faro, coordenador do curso de aviação civil da Universidade Anhembi Morumbi.

"Há também os casos de emergência, quando alguém passa mal, por exemplo. Se isso acontece, uma aeronave tem de se deslocar até a plataforma da mesma maneira", complementa.

Os três pontos de decolagem mais próximos às plataformas da Bacia de Campos ?Jacarepaguá, na capital, além de Campos dos Goytacazes e Macaé, no norte fluminense? estão entre os terminais que mais movimentam essas aeronaves.

O Rio também tem o maior número de ocorrências envolvendo helicópteros, com 64% dos casos em 2025 e 2026, cálculo que considera a soma dos incidentes, casos de menor gravidade, e de acidentes, os mais graves.

O último deles se deu no domingo (14), quando dois helicópteros colidiram no ar e caíram no pátio de uma concessionária BYD no Recreio dos Bandeirantes. Todas as seis pessoas a bordo das duas aeronaves morreram, entre as quais o cantor americano Oliver Tree, que estava em turnê internacional.

Um dos helicópteros se dirigia a Angra dos Reis, no litoral sul fluminense, e o outro à região serrana do Rio para buscar passageiros.

Além do petróleo, há também o fator do turismo. "Temos hoje cerca de 20 empresas que fretam voos turísticos no Rio. São Paulo tem uma das maiores frotas de helicópteros do mundo, mas o uso é acima de tudo para voos executivos. Tanto que há mais helipontos", afirma André Paiva Melo, dono da escola de aviação civil Paiva Aviation, no Rio.

Segundo ele, o próprio mercado que freta voos turísticos por helicópteros é mais acessível aos pilotos. "É uma das portas de entrada", afirma, "até porque são necessárias 500 horas de voo para operar uma aeronave offshore".

OPERAÇÃO VISUAL

O tráfego aéreo com helicópteros difere bastante daquele relacionado a aviões porque a maioria deles opera sob regime visual. Isso significa que o piloto tem de estar o tempo todo atento ao lado de fora para conduzir a aeronave, o que também exige boas condições climáticas.

No caso do avião, que opera em maiores atitudes, a movimentação se dá por radares e outros equipamentos que guiam a aeronave mesmo que o piloto não tenha a visibilidade ambiental adequada.

"Há corredores de tráfego por helicóptero, e aeronaves que trafegam sobre eles têm, por exemplo, de voar a até 3 mil pés de altitude e manter uma visibilidade superior a um quilômetro, além de se manter afastado de nuvens e garantir uma velocidade adequada", disse Aroldo Soares, mestre em segurança de voo pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica).

Controlador de tráfego aéreo durante 35 anos, ele diz que a crescente demanda por helicópteros acompanha a expansão das companhias aéreas no país e que o Brasil tem uma das melhores regulações do mundo para o setor.

Além do regime de tráfego visual, as regras da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) também dispensam à maioria dos helicópteros a exigência de ter dispositivos anticolisão. Segundo o órgão, o instrumento só é obrigatório às aeronaves que tenham mais de 19 assentos.

Para Soares, contudo, este não é necessariamente um problema porque "no mundo, no geral, não existe essa exigência". A frota brasileira só perde para a dos Estados Unidos, que, por sua vez, também dispensa o dispositivo.

Isso não significa que a regulação não possa ser melhorada, afirma. Em Nova York, por exemplo, o centro de tráfego aéreo só autoriza a decolagem se o helicóptero for equipado com dois motores. São aeronaves consideradas mais seguras para áreas densamente povoadas porque continuam voando caso um de seus motores falhe.