Primeira epidemia de peste aconteceu há 5.500 anos, diz estudo
SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - O mais antigo surto da doença que ficaria conhecida como peste negra na Europa medieval dizimou crianças de comunidades da Sibéria há 5.500 anos, revela um novo estudo. A descoberta surpreende não só pela antiguidade e grau de letalidade como também pelo fato de que a epidemia afetou comunidades de caçadores-coletores, que não costumam ser vistas como o principal alvo desse tipo de moléstia.
É por isso que o estudo, publicado nesta quarta-feira (17) na revista científica Nature, pode trazer dados importantes sobre como a peste se tornou uma ameaça global ao longo dos milênios. Se as conclusões do trabalho estiverem corretas, a enfermidade originalmente não dependia da presença de pulgas como vetores, nem das densidades populacionais humanas mais altas, associadas a vilas de agricultores, para causar grande estrago.
Reunindo pesquisadores na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá e na China, o trabalho foi coordenado por uma dupla da Universidade de Copenhague, Eske Willerslev e Martin Sikora, e por Ruairidh Macloud, da Universidade de Oxford (Reino Unido).
O grupo de Willerslev é um dos mais renomados no estudo do DNA em contextos arqueológicos e, no caso do novo trabalho, empregou seu domínio da área para analisar tanto o material genético antigo de seres humanos quanto o das bactérias da espécie Yersinia pestis, causadoras da doença, como o nome sugere.
A equipe estudou os restos mortais sepultados em quatro cemitérios de caçadores-coletores às margens do rio Angara, que nasce no lago Baikal (sul da Sibéria, em território russo). Eram populações que usavam arco e flecha e tinham vasilhas de cerâmica e raladores de pedra em seus utensílios. Seu único animal doméstico era o cão --não há sinal da criação de outros animais, nem de nenhuma forma de agricultura.
Populações ao longo de um trecho do rio com cerca de 400 km de extensão costumavam casar entre si, apesar da distância, e o material genético delas não traz sinais de consanguinidade, o que, segundo os pesquisadores, sugere que todos eram caçadores-coletores altamente móveis e que praticavam a exogamia (uniões com parceiros vindos de fora da comunidade em que cada pessoa vivia).
De um total de 46 indivíduos, que morreram entre 5.500 e 5.300 anos atrás, a equipe identificou a presença do DNA da bactéria em 18 pessoas. Os pesquisadores estimam que a infecção pela Y. pestis nessa amostragem corresponda a dois surtos distintos, separados por alguns séculos.
A capacidade de correlacionar os padrões de infecção com o DNA das vítimas permitiu que os cientistas vislumbrassem como a doença afetou aquelas comunidades "em tempo real", traçando um retrato pungente de como as mortes podem ter ocorrido.
Numa das sepulturas afetadas pela presença da peste, por exemplo, três meninas pequenas, com idade estimada entre 4 anos e 9 anos, foram sepultadas juntas, e ao menos duas delas eram parentes de terceiro grau (provavelmente primas). Esse também pode ter sido o caso da terceira criança. É possível imaginar, portanto, um surto no qual três crianças da mesma família morreram mais ou menos ao mesmo tempo, já que as datações de cada esqueleto são indistinguíveis entre si.
Em outro túmulo, também com o DNA da bactéria da doença, um sobrinho e uma tia foram enterrados, ambos contaminados. Nesses enterros conjuntos, também há casos de irmãos (num deles, um irmão e uma irmã) sepultados ao mesmo tempo, nos quais apenas um dos esqueletos abrigava o material genético do micróbio. Nesse tipo de contexto, pode ser que os traços do DNA da bactéria tenham desaparecido, mesmo que a pessoa tenha morrido da doença.
Nos dois cemitérios da região em que a bactéria da peste foi detectada mais de uma vez, existe uma clara predominância de crianças. A idade mais comum entre os sepultados fica entre 7 anos e 11 anos, enquanto a faixa dos 20 anos aos 25 anos é a de menor mortalidade num dos cemitérios e, no outro, não há nenhum enterro de pessoas entre os 20 anos e os 35 anos de idade. Além disso, apesar da múltipla presença de crianças que são irmãs e primas entre si, há apenas um caso confirmado de pai e filho ou filha no mesmo cemitério.
De início, a fonte mais provável da Y. pestis deve ser a marmota-tarbagan (Marmota sibirica), roedor de até 8 kg de peso que era caçada pelas populações nativas e ainda hoje pode acabar transmitindo ocasionalmente a peste para os seres humanos, assim como os ratos domésticos carregavam as pulgas responsáveis por transmitir a doença durante a peste negra, no século 14, e epidemias europeias até o século 17.
No entanto, o DNA da Y. pestis antiga do lago Baikal revela que provavelmente esse não era o mecanismo de transmissão que levou à morte das crianças há 5.500 anos. As bactérias de então ainda não tinham uma modificação genética que facilitaria a sua sobrevivência no sistema digestório das pulgas antes de elas morderem um novo hospedeiro. Por isso, os pesquisadores propõem que, nesse momento, a transmissão era respiratória, por gotículas, durante a tosse, por exemplo.
Se a ideia estiver correta, em vez da presença de roedores domésticos, ligados ao armazenamento de grãos colhidos por agricultores, uma das chaves para o espalhamento da peste para o resto da Eurásia nos milênios seguintes seria o papel dos roedores selvagens como reservatórios da doença.