Cachês disparam e acirram disputa por verbas no São João do Nordeste

Por JOÃO PEDRO PITOMBO

SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - As chuvas foram severas e deixaram um rastro de destruição em Caculé, município de 23 mil moradores no sudoeste da Bahia, que declarou situação de emergência em março.

Três meses depois, a cidade se prepara para uma grande festa de São João com show da dupla sertaneja Zé Neto e Cristiano. O cachê será de R$ 905 mil, equivalente a um quarto de todo o orçamento anual para Cultura da prefeitura. Os recursos vieram de uma emenda parlamentar.

A situação se repete em outras cidades do Nordeste. Impulsionados por uma corrida entre prefeituras por atrações de renome nacional, os cachês dos festejos de São João atingiram patamares inéditos e passaram a consumir fatias cada vez maiores dos orçamentos municipais.

Os cachês começaram a crescer de maneira vertiginosa a partir de 2022, com o retorno dos festejos após a pandemia da Covid-19.

Além da demanda represada por festas, municípios tiveram os cofres turbinados por emendas parlamentares. O resultado foi uma enxurrada de contratos com artistas e bandas firmados por prefeitos em busca de público, relevância política e visibilidade.

A bolha estourou em 2026. Pressionados, os prefeitos começaram a discutir um teto para o valor dos cachês, com a alegação de que o mercado havia se tornado incontrolável, com preços que chegam a R$ 1,5 milhão por um único show de 90 minutos.

Na Bahia, o Ministério Público estadual criou em 2023 um painel para dar transparência às contratações com dados enviados pelas prefeituras. Neste ano, em conjunto com o Tribunal de Contas, a Promotoria fez recomendações de critérios objetivos para justificar os valores pagos a artistas no São João.

Foi adotado como referência o valor do cachê cobrado em 2025, atualizado pela inflação. Na construção dos acordos, foi aplicada uma fórmula que fez uma média entre o valor que seria cobrado em 2026 e o valor do ano anterior.

"A realidade é que esses cachês cresceram de forma desordenada e, se a gente não fizer nada para conter, daqui a poucos anos o João da Bahia estará inviabilizado", afirma o promotor Frank Ferrari.

A iniciativa resultou em uma mobilização inédita. Foram firmados acordos que levaram à redução do valor de 718 contratos, gerando uma economia de R$ 22,3 milhões para os municípios.

A banda de arrocha Toque Dez, que vai fazer 52 apresentações no período junino na Bahia, reduziu o cachê de R$ 500 mil para R$ 400 mil. Ao todo, 53 artistas e bandas aderiram ao acordo, incluindo nomes como Solange Almeida, Aldemário Coelho, Mastruz com Leite e Paula Fernandes.

As reações entre os artistas não tardaram. Um dos maiores nomes do forró brasileiro, Flávio José decidiu cancelar todas as apresentações que faria em municípios baianos neste São João. Ele tocou em cidades baianas no ano passado com cachê de R$ 250 mil e, neste ano, pediu R$ 350 mil.

Nas redes sociais, Flávio José argumentou que o valor do cachê estava defasado e que os recursos seriam para cobrir essas despesas com a equipe. Também destacou que parte dos shows é paga com atrasos que chegam a seis meses.

"Cansei de ser humilhado e desrespeitado. Esquecem que eu pago tudo desde a hora em que saio de casa para honrar meus compromissos. Não tem dinheiro nesse mundo que compre o meu respeito e a minha dignidade", afirmou.

As queixas se somam a um histórico não tão recente de perda de espaço do forró tradicional nas festas juninas, que passou a dividir os palcos com sertanejos, cantores de axé e até DJs de música eletrônica. A percepção é que o modelo de São João como um festival contribui para desfigurar os festejos.

"O turista chega à Bahia e vai para o interior, ele quer ver o pé de serra, quer ver uma banda nordestina. É preciso valorizar o São João raiz e não descaracterizar a festa", afirma Wilson Cardoso, prefeito de Andaraí e presidente da UPB (União dos Municípios da Bahia).

Os prefeitos baianos adotaram um teto informal de R$ 700 mil para cachês de artistas contratados para as festas juninas. Ao menos 14 atrações receberão valores acima disso no estado.

Destes, João Gomes, Nattan e Natanzinho Lima transitam entre o forró e o piseiro. Bell Marques tem um repertório junino de galopes. Os demais são artistas sertanejos, de pagode e arrocha.

Os contratos acima de R$ 700 mil terão um maior nível de escrutínio do Ministério Público, que vai exigir justificativas mais robustas e demonstrações da capacidade financeira da cidade.

"A contratação pode ser realizada, mas terá uma lupa sobre a saúde financeira do município. Vamos ver como está a folha de pagamento, se não deve a terceirizado, se não tem estado de calamidade decretado, se não tem débito de despesas correntes", explica a promotora Rita Tourinho.

Ministério Público acionou o Tribunal de Contas dos Municípios para analisar contratos em Irecê, onde o gasto com cachês será de R$ 11,4 milhões --mais de um terço do orçamento anual para Cultura. A gestão do prefeito Murilo Franca (PSB) disse que os gastos estão sendo executados com responsabilidade e transparência.

Também foram questionados contratos em Itabuna, que vai gastar R$ 1,5 milhão com Gusttavo Lima, sendo R$ 995 mil com recursos de emenda. A gestão do prefeito Augusto Castro (PSD) disse que não interfere no cachê das atrações e que os valores são compatíveis aos cobrados a outras cidades.

Ao todo, emendas parlamentares vão custear R$ 73,6 milhões em cachês para festas juninas na Bahia, sendo R$ 19,2 milhões de emendas federais, R$ 8,9 milhões de estaduais e R$ 45,4 milhões de municipais. A cifra chega a 12% do gasto total com cachês.

A campeã em emendas para a festa é Jequié, que terá um aporte de R$ 6,2 milhões para bancar shows de 12 artistas, incluindo a dupla sertaneja Bruno e Marrone e o cantor de pagode Leo Santana.

Na sequência, as cidades de Itororó, Caculé, Iraquara e Tucano aparecem entre as que mais vão receber aportes intermediados pelos deputados federais.

Além da Bahia, outros estados nordestinos adotaram mecanismos para racionalizar as despesas com festas e interromper a crescente dos gastos.

A Associação Municipalista de Pernambuco sugeriu um limite de R$ 350 mil para cachês, e o Ministério Público ampliou o escrutínio sobre os contratos. Cidades como Caruaru, no entanto, terão shows acima desse teto, incluindo um cachê de R$ 1,5 milhão para Wesley Safadão.

No ano passado, os municípios pernambucanos gastaram R$ 309 milhões com cachês de artistas no São João, um aumento de 50% em relação ao ano anterior.