'Arraiá gospel' vira alternativa a veto à festa junina, mas igrejas evangélicas se dividem

Por ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma diferença marcante entre as duas maiores vertentes cristãs é a relação com os santos: enquanto católicos os veneram como exemplos de fé, evangélicos veem aí uma forma de idolatria, pois a Bíblia ensina que a adoração deve ser direcionada apenas a Deus.

Chega junho, e a divergência doutrinária ganha contornos bem práticos para milhões de brasileiros que se declaram evangélicos: e participar dos festejos de são João, as tradicionalíssimas festas juninas, pode?

É uma discussão que envolve cultura popular e interpretação da Bíblia. E aqui as igrejas evangélicas se dividem. As mais rígidas vetam a presença do fiel e ponto. As mais flexíveis criam alternativas como o Arraiá Gospel, promovido todo ano em várias unidades da Renascer em Cristo ?o de 2026 será no sábado (27).

Para o apóstolo Estevam Hernandes, líder da igreja, é tipo separar joio de trigo. A versão católica "está atrelada aos santos, e a evangélica, somente à parte festiva, com pipoca, pinhão e quadrilhas", diz.

Ele está alinhado à parcela evangélica que não vê por que ficar de fora de uma manifestação cultural já dissociada de seu caráter estritamente religioso. O que importa é filtrar elementos tidos como neutros e compatíveis com a fé do grupo, e adaptar o que der para adaptar.

A Assembleia de Deus Vitória em Cristo, do pastor Silas Malafaia, organiza sua Festa Jesuína. A embalagem é a mesma de tantas festividades caipiras, como o evento produzido por uma filial em Curitiba que anuncia "um dia pra lá de bão, um dia abençoado d+ da conta, sô" e até "um cantinho instagramável para tirar aquela foto marota".

A Igreja Batista Atitude, onde a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ia quando morava no Rio, tem a sua Festa da Roça. Em 2025, o pastor Josué Valandro Jr. prometeu usá-la para evangelizar: "E ali vai ter uma igreja tão fera, mas tão fera, que, nesta Barra da Tijuca, quem não quiser se converter vai ter que se mudar!".

Em Aracaju, o tradicional Forró Caju conta com uma noite inteira dedicada ao repertório cristão, no Forró Caju Gospel. Outras muitas festas se espraiam Brasil afora, podendo inclusive servir crentão, uma versão sem álcool do quentão.

Os arraiais evangélicos contam com playlist própria. A paraense Som e Louvor, que surgiu numa Assembleia de Deus local, tem forrós como "Nunca Foi Sorte, Sempre Foi Deus". A banda defende usar estilos musicais populares na evangelização: "Já ouvimos muito falar que o diabo é o pai do rock, reggae, do forró e de vários outros, quem disse? A única coisa de que ele é pai é da mentira."

A economista Deborah Bizarria, colunista da Folha de S.Paulo, se lembra das tantas vezes que celebrou a data com os primos no sertão de Pernambuco, com direito a fogueira e traque-traque, que em outros cantos do país ganha nomes como biribinha e estalinho. Conta que sua identidade evangélica nunca foi um empecilho ?no máximo, ela deixava de participar de festejos dedicados a santos na escola católica onde estudou. "Eu ia mais cedo pra casa."

Neste junho, o encontro mensal de jovens da Comunidade da Vila, a igreja presbiteriana que frequenta em São Paulo, encoraja os participantes a levar comidas típicas e se vestir como caipira.

"Festa junina ou São João é uma festa que nos lembra do passado agrário do Brasil", afirma Bizarria. "Claro, o catolicismo está presente nessa longa tradição. Eu entendo que evangélicos de cidades onde as festas têm cunho mais religioso apresentem mais resistência. Mas, em outros lugares, sobretudo nas grandes cidades, não há nada de contraditório em ser crente e ir a uma festa junina."

Há controvérsias. Uma ala mais conservadora ainda se mantém avessa à ideia. Muitos pastores argumentam que, mesmo com lavagem evangélica, essas festas mantêm raízes que desviam o foco exclusivo em Jesus. Por isso, recomendam o afastamento total, inclusive de comemorações escolares ou corporativas.

Recentemente, o pastor Caio Modesto virou notícia no site Fuxico Gospel por um vídeo em que critica a presença de irmãos de fé nesses festejos. O que se vende como "tradição inofensiva carrega, na verdade, raízes pagãs que foram revestidas com roupagem religiosa", ele afirma.

À reportagem Modesto defende que evangélicos se abstenham "de festas associadas ao catolicismo, especialmente a junina, que incorpora elementos pagãos em seu contexto histórico e envolve a veneração direta a santos canonizados".

ORIGEM DA FESTA

A festividade sob escrutínio não é uma criação da Igreja Católica. Sua origem está em celebrações pagãs que marcavam a época da colheita e o solstício de verão europeu, no meio do ano. Posteriormente, o cristianismo assimilou essas tradições, vinculando-as à devoção a são João, santo Antônio e são Pedro.

Modesto, para quem o catolicismo é um "reduto de mentiras, paganismo e sincretismo religioso", pede que crentes rejeitem também a culinária de praxe na época, como canjica e paçoca. "Se alguém lhe disser de antemão que aquilo foi oferecido a santos, recuse. Acredite: você não vai morrer de fome por não participar da festa junina."

Não está sozinho nessa batalha. Outros líderes já se pronunciaram nessa linha, como o pastor Matheus Alves, influente nas redes sociais. "Protestante, você já entendeu por que você não participa, ?vou lá só comer uma comidinha?. [...] O apóstolo Paulo te proíbe de sentar na mesa do Senhor em um dia e na mesa de demônios outro dia. Deus se irrita, Ele fica irado com ações como essas."

O bispo Renato Cardoso, tido como provável sucessor de Edir Macedo na Igreja Universal, também já recriminou o envolvimento do fiel nesse ambiente festivo. "Sempre vai ter alguém dizendo, ?ah, mas não tem nada a ver, eu não vou lá para adorar, eu vou lá para curtir?." Para ele, dá no mesmo: "Você está perpetuando uma coisa que começou séculos atrás com raiz de idolatria, com raiz pagã."

Malafaia prefere enxergar a temporada como oportunidade. "Já que não acreditamos em santos, aproveitamos essa Festa Jesuína, que é para Jesus. Aí tem música, tem palavra, é isso. É uma estratégia que a gente usa de evangelização, igual quando a gente bota trio elétrico no Carnaval, certo?"