Operação mira advogados suspeitos de invadir sistema da Justiça e vazar informações para o PCC

Por TULIO KRUSE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dois advogados foram presos na manhã desta terça-feira (23) em uma operação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo que investiga a invasão de sistemas do Judiciário e o acesso a informações de processos sigilosos, que teriam sido repassados a integrantes da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).

As duas prisões ocorreram nos municípios de Taquaritinga e Jaboticabal, no interior paulista. O nome dos advogados não foi divulgado.

Segundo a investigação, eles invadiram as credenciais de um promotor de Justiça e, assim, conseguiram acessar processos protegidos por todo tipo de sigilo no sistema do Tribunal de Justiça de São Paulo.

A invasão ocorreu no contexto de um inquérito que investigava suspeitos de homicídios que teriam submetido vítimas a um "tribunal do crime" em Taquaritinga.

A investigação dos assassinato foi completamente frustrada por causa dos vazamentos, já que os suspeitos conseguiram fugir antes do cumprimento dos mandados, segundo o próprio Ministério Público.

De um total de dez suspeitos que foram alvo de mandados judiciais, apenas dois foram localizados. "Não é possível afirmar com certeza quantos foram beneficiados pelos vazamentos", informou o MPSP, em nota.

Entre os suspeitos que teriam sido beneficiados pelo vazamento está Alexsandro Cardoso Mota, vulgo Sandrinho. Ele teve um mandado de prisão autorizado pela Justiça em 2024.

Uma decisão judicial do Foro de Taquaritinga, de 2022, apontou Sandrinho como liderança do PCC no interior paulista. Ele seria um dos responsáveis pelo tribunal do crime na região e pela ocultação de cadáveres num cemitério clandestino, segundo denúncia aceita pela Justiça.

Ele atuaria também na arrecadação de valores para financiamento da facção por meio das chamadas rifas do PCC, segundo a decisão.

Inquérito apresentado à Justiça apontou, à época, que Sandrinho tem papel na resolução de conflitos internos e externos da facção, na imposição de sanções ?inclusive mediante sequestros e torturas no tribunal do crime? e na cobrança de dívidas do tráfico de drogas.

Além disso, há suspeita de envolvimento dele em crimes patrimoniais nas áreas rurais da região.

"Some-se a isso o robusto conjunto probatório relativo à lavagem de dinheiro, apurada a partir da quebra de sigilo bancário, que evidenciou movimentações financeiras absolutamente incompatíveis com a renda declarada, alcançando cifras expressivas, indicativas de atividade criminosa estruturada, reiterada e profissional, razão pela qual o requerido foi denunciado", diz trecho de decisão do Foro de Taquaritinga, publicado em janeiro deste ano.

Sandrinho está foragido até hoje. A reportagem entrou em contato com um advogado dele, que informou que não irá se manifestar.

Além das prisões temporária, a operação também cumpriu sete mandados de busca e apreensão nos mesmos municípios, com apoio de policiais do 11º Baep (Batalhão de Ações Especiais de Polícia). A ação é coordenada pelo núcleo do Gaeco em Ribeirão Preto.

"O objetivo desta fase da operação é aprofundar a apuração dos fatos, identificar todos os envolvidos e reunir novos elementos de prova acerca da dinâmica criminosa", disse o MP-SP. "A continuidade das investigações ocorrerá com a análise do material apreendido nesta data, realização de oitivas e adoção de outras diligências."